Não nasceu de mim, mas nasceu para mim!

whatsapp-image-2016-11-19-at-00-31-50Bem, vamos a minha história…. ❤

Mas antes de começar a relatá-la, gostaria apenas de adaptar a frase que está escrita na imagem que escolhi para ilustrar.

“Ser mãe e ser pai é toda pessoa que tem o coração permanentemente grávido de amor.”

Agora sim, rsrsrs!

Meus pais se casaram e depois de um tempinho começaram a tentar engravidar e não conseguiram, fizeram diversos exames, nos quais ambos seriam aptos a ter uma gravidez de forma natural, afinal não tinham nenhum problema detectado…
Mas durante 15 anos ficaram na tentativa de engravidar e simplesmente não conseguiam, e não tinham resposta para não conseguir, todos os exames de investigação tinham sido realizados, os dois tinham tudo para engravidar mas não engravidavam…
Até que a ginecologista da minha mãe, conversou com ela e disse que ela poderia optar por duas saídas, uma seria a fertilização e a outra seria a adoção…. Porém na década de 90 a ciência não lidava com fetos que tinham alguma anomalia, e minha mãe não queria correr o risco de precisar passar pelo aborto, ela queria o filho da forma que Deus mandasse, independente da criança ser fisicamente e mentalmente “perfeita” ou não…
Então, ela e meu pai preferiram recorrer a adoção ao invés da fertilização…
E foi assim que tudo começou a acontecer, meus pais entraram em lista de espera nos orfanatos, porém, como a adoção é burocraticamente complicada, eles esperam, esperaram, mas o retorno do tão sonhado filho(a) não chegava… E minha mãe começou a ficar muito abalada emocionalmente, ela sempre relatou que quando estava passeando ou resolvendo coisas do dia a dia, por onde ela passava procurava pra ver se alguma criança tinha sido abandonada na rua, e vendo que isso não estava legal, e que o sofrimento já estava se tornando insuportável, ela decidiu não ficar mais procurando e resolveu voltar aos estudos para que assim, mais adiante ingressasse na faculdade de Direito.

Até que finalmente eu cheguei para eles no dia 30/12/1992, véspera de ano novo!
Assim que minha mãe me pegou no colo pela primeira vez, eu, uma bebezinha de apenas 25 dias, abri um sorriso para ela! E foi ali que nosso encontro aconteceu e minha história com os meus pais começou…

Eu fui um bebê arco íris, cheguei depois de uma tempestade que precisou durar 15 anos, mas que se não tivesse durado isso tudo, eu não teria sido o arco íris deles!

Às vezes não entendemos o que nos acontece, não temos respostas imediatas mas precisamos procurar acalmar nossos pensamentos para que assim possamos elaborar nossas emoções!

E quando eu tinha 13 anos, minha mãe teve o primeiro infarto…
E fez um cateterismo para descobrir o porquê ela tinha infartado, e nesse exame, descobriram que ela tinha um problema congênito no coração, que foi formado de uma forma não comum a da anatomia humana… O normal em todas as pessoas é a veia do coração passar por fora, e ela tinha uma que passava por dentro do coração, ou seja, quando pressionada essa veia através de alguma emoção forte, ou esforço físico poderia causar um infarto… E foi nesse momento que a resposta chegou, se eu tivesse nascido dos meus pais, minha mãe teria morrido no parto… Porque o coração dela não iria suportar tamanho esforço durante a gestação e durante o parto…
Infelizmente ela veio a falecer em dezembro de 2013, aos meus 21 anos, de infarto fulminante!

Mas veja como é a vida, né… Surpreendente! ❤

Mãe de três!

15046268_1162257083854972_1320396800_nEu sempre achei que seria mãe de menino. Sempre! Quando eu fazia aquelas brincadeiras do colar quando era criança(balançando pra frente e pra trás é menino, se rodar menina) sempre aparecia pra mim 3 filhos: uma menina, depois menino, depois menina de novo. Quando eu engravidei a primeira vez com 17 pra 18 anos eu disse pra todos que era um menino, mas a minha intuição se confundiu com a minha vontade. Assim eu recebi meu 1°amor, minha filha Giovana. Aí veio a faculdade, o trabalho, a casa própria, o carro, o amadurecimento e os planos para outro filho(a) foram ficando cada dia mais esquecidos… Até que em abril de 2014 eu tive um sonho. Estava eu um campo enorme, muito florido, muito calmo, parecia um Céu, e um senhor vinha falar comigo. Ele dizia: “Tem um filho esperando por você. Ele é seu. Mas manda dizer que ele tem uma alma gêmea e que se você permitir que ele venha ela virá junto”. E eu respondia: ” Mas eu não quero ficar com 3 filhos, só quero 2 e eu já tenho uma filha, então eu posso escolher só o menino ou só a menina?” E ele disse: “Não! O filho é ele, mas ela vem junto com ele”. E eu acordei bastante impressionada. Pensei que se engravidasse seria um casal de gêmeos. No ano seguinte, em julho de 2015 eu e meu marido começamos a cogitar a idéia de aumentar a família e na mesma semana em que parei o remédio eu engravidei. Foi a maior alegria da minha vida, já que a gravidez da Giovana não havia sido planejada. Dessa vez seria tudo diferente! A notícia foi comemorada e festejada. No mês seguinte me encaminhei pra minha primeira ultra, eu estava com 8 semanas de gestação e muito apreensiva, contando que iria ver na tela 2 bebês. Quando o exame começou o médico me disse: “É um único embrião e ele não possui batimento cardíaco. É um aborto retido. Sinto muito”. A maior alegria da minha vida foi também minha maior tristeza. Como isso estava acontecendo? Deus, logo comigo?! Eu ainda carreguei aquele bebê morto 15 dias na minha barriga até fazer a curetagem, e decidi que outro filho nem tão cedo… Eu estava dilacerada e não queria que o próximo filho(a) “carregasse” minha culpa, meus medos, meus anseios, minha angústia, minha desesperança…. Mas eu nem respirei. Terminei meus exames, e grávida de novo no mês posterior. Mas já? Que aflição, quanto desespero. Deus me deu uma nova vida pra cuidar e amar. Eu até costumava dizer que eu engravidei de gêmeos sim, só que eles vieram com 1 mês de diferença. E os sonhos voltaram. Eu sonhava com menino, ora sonhava com menina, 4 ultras já realizadas e nada desse bebê mostrar o que era. Até que finalmente com 24 semanas….Surpresa!!!! É outra menina. Eu teria mais uma mocinha na minha vida. Eu e minha família já estávamos ansiosamente aguardando a chegada de Isadora. Algum tempo se passou e eu fui ao Centro da Cidade naqueles ônibus de viagem, a bateria do meu celular descarregou e resolvi tirar um cochilinho(coisas de grávida). Lá estou eu dormindo e mais um sonho chegou. Eu estava naquele mesmo campo e um menino lindo, apesar de não me lembrar bem de suas expressões, com asinhas de anjo corria na minha direção. Ele não falava, apenas sorria, mas uma voz vinha na minha cabeça: “Mamãe, eu precisava ser amado. Mas ela precisava nascer. Cuida dela”. Eu acordei com lágrimas nos olhos. O meu filho é um anjo e ele sabe que foi amado, que eu vou amá-lo eternamente. Um dia ainda quero carregá-lo no colo e brincar com meu menino nesse campo florido…
Eu moro no RJ e essa semana fez muito calor por aqui. Fui até a varanda do apartamento tentar pegar um ventinho com a Isadora que estava um pouco irritada. Ela atualmente está com 3 meses de vida. Após 5 minutos começou a chover bem forte, mas só do lado direito do Céu. Do lado esquerdo fazia sol e um arco-iris apareceu. Foi então que comecei a contar um pouquinho dessa história pra ela. Disse que ela tinha um irmão que era seu anjo da guarda, sua alma gêmea, e que ele foi muito amado. E ela representava pra mim aquele arco-iris no Céu. Aquele que não apaga a dor da tempestade, mas vem pra nos mostrar que a vida continua bela. Nesse momento ela sorriu, deu um pulinho no meu colo e eu tive a certeza que ela entendeu tudo que eu expliquei a ela.
Segundo a psicanalista Françoise Dolto, ao falar com os bebês eles apresentam alterações sintomáticas mostrando que sabem falar e que compreendem nossa linguagem. Portanto precisamos contar a eles suas histórias de vida, e várias vezes, assim a criança vai compreendendo aquilo que é explicado.
E vocês, conversam com seus bebês?

Príncipe da mamãe, João Lucas

Trechos do relato extraído do livro “Histórias de Amor na perda gestacional e neonatal”
Autora: Ana Ribeiro
“Me chamo Ana, tenho 33 anos e sou mãe de dois filhos, minha Isabela de 5 anos, minha fortaleza que segue comigo na terra, e meu menino João Lucas, meu anjo, que me acompanha do céu.
…Com 34 semanas, comecei a ter contrações ritmadas e me recomendaram tomar medicação para segurar o bebê e fazer repouso, pois se nascesse com esse tempo, o risco de contrair doença e falecer numa UTI seria enorme. Fiz tudo direitinho, pois era o melhor para meu filho. As contrações normalizaram e tudo corria bem. Até que, uma semana depois, meu filho, que até então fora sempre sapeca, parou de mexer.
…Malditos médicos que não ouvem o coração de uma mãe! À noite, me veio um mau pressentimento; algo não estava certo! Fiquei com medo de ele nascer antes, de correr perigo ou vir a ter problemas, mas jamais imaginei o que estava por vir. Assim que acordei, liguei para o médico, que de modo grosseiro, me disse que não podia ficar fazendo exame toda hora, que eu vi que estava tudo bem e que eu fosse ao hospital ouvir o coração como eu havia feito para me tranquilizar. E assim fiz. Chegando lá, seu coração não batia mais. Queria ir rápido para a maternidade, para chegar lá e eles tirarem ele logo para fazer uma massagem cardíaca, pois tinha esperança que só estivesse fraquinho. Mas não foi o que aconteceu. Em um ultrassom, foi confirmado o óbito; uma imagem que me trouxe o maior sofrimento da minha vida, junto com a imagem de meu bebê inerte e aquela linha contínua no monitor de um coração parado.
…Quis vê-lo, pude me despedir, sentir seu cheirinho, e pedi perdão se de alguma forma eu falhei. Em seguida o abençoei e não mais o vi. Ainda hoje, se fecho meus olhos, consigo sentir seu cheirinho, doce lembrança. Chegar em casa e explicar para minha filha por que voltei sem o João foi terrível; sofri o meu luto e o dela. Desfazer a mala da maternidade foi torturante. Sobreviver foi uma escolha.
…Sofro minha perda e acredito que isso não irá mudar, mas tento reagir e viver buscando ser feliz novamente, encaixando a saudade na vida que ficou. Eu, minha filha e meu menino merecemos isso. Quero ser motivo de orgulho para ele. Procuro em Deus, em estar junto daqueles que me fazem bem e com ajuda de uma excelente psicóloga, me fortalecer. Uma mãe quer o filho como for, mesmo com alguma deficiência em virtude da falta de oxigenação (possível causa a ser investigada). E apesar de me sentir assim, tenho fé que Deus age pelo bem e me conforto em saber que lá na eternidade, o meu filho está bem, feliz no colo dos Papais do céu. Maior amor não há!
Se pude tirar algo disso tudo, é que sou capaz de enfrentar qualquer coisa depois dessa perda que é inominável. Que temos de viver um dia após o outro, pois não sabemos o amanhã. Que Deus me ama e meu filho sempre viverá dentro de mim. Tenho certeza que, mesmo longe, estamos perto, pois algumas vezes em que chegou a bater o desespero por não tê-lo comigo, pedi a ele que me ajudasse a enfrentar a situação e fui confortada. Aguardo agora o momento de nos reencontrar…
João Lucas, príncipe da Mamãe, te amo para sempre!”
Trechos do relato extraído do livro “Histórias de Amor na perda gestacional e neonatal”
Autora: Ana Ribeiro
Para adquirir a versão digital do livro, entre na loja Kindle da Amazon pelo link abaixo. Em breve, a versão impressa também será vendida na mesma loja.

“Texto Lindo”

Hoje,faltando alguns dias para o Dia das Mães,recebo a seguinte mensagem:
 – Karol, Daniel se foi.
Respirei fundo,respondi e chorei.
Chorava e ouvia a TV ligada falando sobre Cunha,sobre crise.Os carros passavam,anunciavam promoções de lojas,o cachorro latia,
mas eu só conseguia ouvir o choro da Mãe que mais uma vez perdia seu filho.
O choro dela,e o choro de todas as outras.
Ontem foi Luana,anteontem foi Bruna,hoje foi Tatiana.
Hoje ela se encontra no hospital,deitada,com o coração sangrando.Enquanto o marido,corre atrás do sepultamento do filho.
Tatiana sabe o que lhe espera,ela bem sabe.
Tatiana sabe,que Daniel é TUDO pra ela e sempre vai ser.
Tatiana sabe,que pro resto do mundo,Daniel é só um ”natimorto”,ou qualquer outro termo que caia nas estatísticas.
Tatiana sabe,que ela vai continuar sendo Mãe do Daniel,
mas Tatiana sabe que a propaganda do Boticário não se lembrará dela.
Daniel não teve tempo de crescer,para comprar o presente para Tatiana.
Tatiana está na Maternidade,ouvindo os choros de bebês saudáveis.Tatiana está ouvindo os passos das Mães corujas,passeando pelos corredores ninando seus bebês.
Tatiana está deitada,quieta,silenciosa.
Tatiana,também escuta os sorrisos,dos familiares orgulhosos ao ver um bebê,Tatiana escuta o barulho dos papéis de presentes que o bebê da moça do quarto ao lado ganha.
Tatiana chora,ela lembra das idas ao pré-natal,das roupinhas,do chá de fralda que preparou com tanto carinho para Daniel.
Tatiana sabe,que lembranças é a única coisa que restará,juntamente com o Amor.
Tatiana sabe que ela só poderá chorar alguns dias,pois se ela chorar muito vão dizer que ela fará mal ao filho,ou que ela não deve chorar pois fulana alí morreu no parto.
Tatiana,não deve chorar,pois ela terá outro filho.
Tatiana também vai ouvir ”se fosse com meu filho eu morreria”.
Tatiana também ouvirá palpites sobre o que fazer com as coisas de Daniel.
E se Tatiana quiser saber o que houve?
Ela ouvirá que Deus quis assim,ou pra não questionar a vontade de Deus.
Tatiana sabe de tudo isso,Tatiana já viu outro filho partir…
Enquanto isso a TV continua ligada,a crise continua.Os carros passam,tudo passa menos a dor de Tatiana.
A dor de todas as Mães que perderam seus filhos.
Hoje Tatiana chora,a tarde Daniel será sepultado.
E esse texto assim como Daniel será esquecido, como se esqueceram de Gabriel,Luana,Júlia,Lauren,Pie tro,Maitê,Laura,Heitor,Arthur, Jasmine e todos os bebês e crianças que se foram cedo demais.
Se você pode tocar seu filho além de um porta retrato,se você pode beijá-lo e abraçá-lo,saiba que muitas não podem.
Aproveite cada momento c seu filho
Á todas as Mães que são órfãs eu desejo o mais singelo Abraço.
Especialmente a Tatiana ❤
(Autora desconhecida)received_1482806198430981.jpeg

Quem disse que o amor não deixa marcas?

Hoje carrego comigo uma marca, uma cicatriz enorme de uma cesariana feita às pressas. O que era pra ser o dia mais feliz da minha vida, foi o dia mais triste.
Tive uma gravidez saudavel, tudo certo para o parto normal, dia 24/03/17 completaria as 40 semanas. No 22/03/17 fui para a ultima consulta médica, tudo certinho com a minha princesa Ana Luiza, coração batendo a 144 por minuto.
No dia 25/03/17 a bolsa se rompeu e fui correndo para a maternidade, com o coração transbordando de alegria. Chegando na maternidade, fui atendida pela medica do plantão. Já estava com muitas contraçoes e 4 centimentros de dilatação. Ao tentar escutar os batimentos cardiacos da minha princesa, a medica nao achou e ai começou o pesadelo. Vi o desespero nos olhos da medica me dizendo que minha bb estava em sofrimento fetal e que iriamos fazer uma cesariana de emergencia para tentar salvar a vida da minha filha, mas que nao prometia nada.
Tudo foi tao rapido naquele bloco cirurgico, ainda me lembro dos sussuros dos medicos tentando salvar minha filha. Aquela cena terrivel vem a minha mente todas as noites, ela ainda nasceu com vida, mas com o coracao muito fraquinho e nao resistiu.
Meu mundo caiu, sem acreditar no que estava acontecendo, totalmente em choque, medicos e enfermeiras viam falar comigo, sem saber o que falar. Eles apenas diziam: sinto muito, fizemos de tudo. E me olhavam com aquele olhar de pena. Pensei que aquele seria o momento mais doloroso, porem nao foi. Fiquei internada por 3 dias e a cada choro de bb que ouvia meu coraçao se despedaçava. Ao receber alta, passando pelos corredores da maternidade, vi maes indo embora felizes com seus filhos nos braços e eu voltando pra casa com os braços vazios e uma dor inconsavel na alma.
O que fazer com o quarto pronto esperando por ela? O que fazer com o leite nos meus seios? O que fazer com o amor que prometi dar a ela pro resto da minha vida? Que dor terrivel, perder um filho sem ao mesmo ter sido mae direito, como é duro se recuperar de uma cesariana sem ter o consolo de ter seu filho em seus braços. Acho que essa dor nunca vai passar.Te amo minha princesa, obrigado pelas 40 semanas e 1 dia que passamos juntas. Você mudou meu modo de ver o mundo, nunca esquecerei seu rostinho e sempre que eu olhar para a minha cicatriz lembrarei do nosso amor.

Te amarei para sempre.

Patricia Moreira, mãe de Ana Luiza.

A leoa que aprendi a ser

Relato extraído do livro Histórias de Amor na perda gestacional e neonatal”
Autora: Aracelli Pinheiro
Sempre programei tudo na minha vida. Só me casaria quando tivesse minha independência financeira, só engravidaria depois de ter curtido o casamento e quando tivesse condições para ter um filho. E assim foi. Até que a vida me mostrou que a controlamos só até certo ponto.
Demorei muitos meses até meu primeiro positivo. Com seis semanas de gestação, descobri que não havia embrião, apenas saco gestacional. A medicação que precisei tomar me deu contrações fortíssimas, que me doeram mais na alma do que no meu corpo. Seis longos meses depois, eu via pelo monitor um coração bater dentro de mim. Era o meu filho vindo à minha vida para me mostrar ainda muita coisa sobre ela.
Aos cinco meses de gestação, na Morfológica, constatou-se que o meu Miguel tinha duas más-formações: hidrocefalia leve e cardiopatia. Naquele 15 de agosto de 2014, achei que fosse perder o meu filho, desesperei-me, chorei, achei que fosse morrer junto a ele. Mas, ao mesmo tempo, vi surgir dentro de mim uma força que até hoje me domina. Algo que sinto vindo dele.
Miguel veio para me transformar na mãe leoa do meu leãozinho. Ele precisava de mim. Eu tinha que ser a melhor. Vivemos intensamente cada segundo de sua gestação. Era como se o meu subconsciente me dissesse que não teríamos uma vida longa juntos. Ligada às más-formações, descobrimos a Síndrome de Down. Ele vinha especialmente para mim.
Dez dias antes do esperado, ele nasceu. 27 de novembro de 2014. O dia mais feliz da minha vida. Já sabia que ficaria na UTI. Foram quarenta dias. E ao longo dessas cinco semanas, ele venceu a hidrocefalia e uma Leucemia Transitória (que apareceu após o nascimento), até fazer sua cirurgia cardíaca. Mas sua missão, aqui, terminara no dia seguinte após tal procedimento. Seu coração não reagiu após duas paradas cardiorrespiratórias. Na primeira, eu ainda tive a chance de vê-lo, de olhar seus olhinhos
procurando minha voz enquanto eu cantava para ele. Senti seu cheirinho de esparadrapo mais delicioso do mundo antes de ter que sair do seu box e nunca mais vê-lo daquele jeito. Tive a nossa despedida sem ao menos saber que era disso que se tratava.
Algumas horas depois, recebia a notícia de que meu filho partira para sempre.
E mesmo nesse momento, no abismo em que me encontrava, eu o sentia presente dentro de mim. Miguel deu ao pai  dele e a mim a força de que precisaríamos para passar por tudo aquilo. Fomos os pais leões do nosso leãozinho.
Desde então, me permiti passar pelo luto da maneira mais íntegra e digna possível. Aprendi com ele que devo me permitir chorar, ficar quietinha no meu canto, falar, fazer, ouvir aquilo que Eu desejar, do que realmente Eu necessito. Aprendi também, na terapia que comecei a fazer um mês depois da sua partida, que eu sou a Mãe, que só eu sei da Minha Dor. Que qualquer outra pessoa que esteja próxima pode tentar imaginar o que é, mas só uma Mãe de Anjo sabe o que temos para o resto das nossas vidas. Eu não perdi um parente, um amigo, um braço, ou perna – eu perdi um filho. E isso é muito. É tudo! É mais do que perder a própria vida.
E ressignificar tudo isso foi difícil, mas não impossível. Pelo contrário, senti a necessidade de fazê-lo. E dois dias após a nossa despedida, resolvi escrever. Escrever para mim. Para ele. Por mim. Por ele. Eu tinha a consciência de que não era só eu quem passava pelo luto. Meu marido, as avós, os tios, amigos, todos sofriam com a partida
do Miguel. Mas ao mesmo tempo precisava falaaaaar… E todas as vezes em que o fiz, vi o quanto eles sofriam. Escrever foi a solução mais saudável que poderia escolher. Revivi, reelaborei tudo o que vivemos.
 E ao final de três meses, tinha diante de mim uma linda história de amor, entre mãe e filho. Coração de Leão representa a minha forma de ver a vida a partir da existência do meu filho. Porque ele não vive, mas existirá para sempre dentro do coração de todos aqueles que o amam. Dessa forma, consegui superar pequenos grandes desafios. Entrei
no seu quarto desde o dia que voltei daquela maternidade sem ele. Cheirei suas roupinhas, mexi nos seus presentinhos, revi suas fotos, sentei ao chão do quartinho decorado e chorei todas as vezes que quis. Mas me recusei a participar de momentos que eu senti que me fariam sofrer. Criei os meus métodos. “Não criar bloqueios, mas não criar novos traumas”. Porque eu só conseguiria seguir em frente, dar um novo passo à minha vida, se realmente estivesse passando por tudo da maneira que considerei certa.
Eu consegui voltar à UTI onde cantei pela última vez para o Miguel. E meu coração só se encheu de muita emoção e alegria. Fui, junto a outras mães que têm seus filhos com coração especial, levar doações para bebês que ainda precisavam lutar pela vida. Foi uma das vezes que mais senti a presença do meu filho. Estava orgulhosa por eu poder proporcionar isso a nós dois. Foi a forma que encontrei de dizer a ele: “A mamãe vai continuar, por você, meu bem!”.
Quando dei por mim, estava envolvida em várias histórias, de várias mães, que passavam tudo o que eu sentira, e ajudá-las foi a outra forma que encontrei de me sentir perto do meu leãozinho. O Miguel está nos olhos emocionados de quem recebe um abraço enquanto se tem a maior dor do mundo no peito; está no sorriso de um bebê que luta pela vida; está na minha força de querer reaprender a viver.
Nos primeiros meses sem ele, eu sentia que nunca mais seria capaz de amar outra criança. Ali era eu passando pelo meu luto de forma plena. Não havia espaço no meu coração para mais ninguém. Mas com o tempo, depois de tudo que vivi, pedi a Deus e ao meu anjo que me mandassem mais um presente, porque eu me sentia pronta para amar mais uma vez. E agora escrevo estas linhas sentindo mexer meu segundo filho, Theo. Ele é a prova de que o que eu sentira no início (que havia sido abandonada por Deus) nunca acontecera. Deus não me abandonou. Ele me escolheu para ser a mãe de um anjo que tinha uma linda e importante missão, por algum motivo que eu nunca saberei. E me sinto honrada por isso. Eu sempre quis tudo do Miguel. Até mesmo suas malformações. Ele é meu de todo jeito. Eu o quero da maneira que tiver que ser. E ele sabe disso.
O Theo, hoje, é a prova de que nunca estive só, de que Deus sempre esteve ao meu lado, que só Ele sabe a dor que eu senti e que guardo para sempre dentro de mim. O Miguel veio para mudar nossas vidas! É dele que tiro essa força, é dele que sinto essa luz que me faz feliz. Há dor, há saudade, mas como sempre digo, nada nunca será maior do que o amor que sinto por você, Meu Filho.
Aracelli Moreira, mãe do anjo Miguel e do baby Theo
Autora do livroCoração de Leão
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A dor e a alegria extremas ao mesmo tempo

Tive uma gravidez programada. Na primeira ultra, a notícia: gravidez gemelar. Há exatos um ano, dia 5 de maio de 2016, descobria a gravidez gemelar. . Alegria, euforia, insegurança! Mas seguimos com muito responsabilidade, cuidados e protocolos.

Tudo corria bem, sem dores, enjoos, intercorrências, etc. Exames sempre todos normais. Sim. Eu sou neurótica e fiz muitos exames. Sempre tudo bem. Eis que com 35 semanas, vou fazer mais um e o médico para no meio e me manda urgente ao pronto socorro local.

Não. A maternidade dos sonhos não rolou. Ele falou que não recomendava perder tempo indo para um local mais longe, pois uma das meninas (sim, eram duas meninas) estava muito fraquinha e sem líquido. Em menos de duas horas do ultrasson, aconteceu a cesárea. Primeira gemelar nasce sem vida. A segunda fica quinze dias na UTI e hoje está em casa. Bem e rumo aos seis meses.

O sofrimento é muito grande. Digo que experimentei as dores e as delícias de uma vida em um único momento. Ter filho é muito bom. Eu não imaginava o quanto. Nem durante a gravidez. Só senti isso mesmo durante o parto. Dói demais sentir um filho nascendo sem chorar. Agradeço muito pela minha bebê comigo. Deve ser infinitamente mais doloroso voltar pra casa sem nenhum bebe.

Minha Nicole é minha bebê arco-íris instantânea. Mas gente, isso não significa que não há a necessidade do luto. Há. Ele é necessário. É preciso respeitá-lo. É preciso compreender que a dor existe e é normal que ela exista. Compreender que a dor e o sofrimento são normais, para mim, tem sido fundamental para seguir em frente. Acredito em Deus e não me revolto, apesar de me pegar muitas vezes questionando. Às vezes a dor volta….Tudo na gente dói…o corpo, a alma, a mente…Mas aos poucos essa dor dilacerante vai passando abrindo espaço para a saudade…. de repente volta com tudo…. mas as voltas vão ficando espaçadas… Não é sobre esquecer o que passou…. É sobre aprender, aceitar… e para isso, temos que falar sobre isso! Escrevo para mim. Escrevo para que saibam que a dor que dói aí, dói aqui também. E que essa dor é normal, é natural. É uma dor. Uma saudade sem fim. O luto pela perda neonatal ou gestacional precisa ser respeitado.

Relato da mãe Priscila Alonso

A nossa Vitória!

16 de Setembro e 01 de Outubro. O dia mais feliz e o mais triste da minha vida!

Todas as noites vem a minha cabeça a mesma cena…. Dois médicos encostados na parede do corredor da UTI Neo Natal, me falando que infelizmente aconteceu o pior.

E eu alí sozinha. Meu marido tinha acabado de sair do hospital, e não deixaram minha irmã entrar. Não tiveram a menor sensibilidade. A cena aconteceu no corredor de diversas salas de UTIs, com tantas outras mães olhando. E hoje eu penso, meu Deus, quantas vezes aquela cena se repetiu alí. Quantas mães tiveram o coração dilacerado como eu. Tenho vontade de abraçar todas.

Alí, eu era apenas mais uma!

Foi uma gestação muito difícil. Eu já havia tido 4 abortos, diagnóstico de trombofilia e hipertensão desde os 20 anos. Fiz repouso a gestação toda pra tentar controlar a pressão, que desde o início permaneceu instável. A obstetra fez várias mudanças na medicação e mesmo assim nenhum mantinha controlada. Foram 4 internações antes do parto, a Vitória não ganhava peso, mesmo eu me alimentando super bem – inclusive com suplemento.

Desde o início a médica alertava para um possível parto prematuro e fomos nos preparando pra isso com os corticoides que ajudariam no amadurecimento do pulmão. E de fato ela nasceu bem apesar de muito pequena. Nasceu com 30 semanas + 3 dias e pesando apenas 1 kg. Mas sem nenhum problema sério. Era só ganho de peso e acompanhar por conta da prematuridade. Mesmo assim, ela teve Sepse dentro de uma UTI renomada, após 15 dias de vida.

No início eu ficava procurando culpados. Me culpei principalmente por pegá-la no colo 1 dia antes. Será que eu passei alguma bactéria? Culpei a incubadora que tb foi trocada um dia antes. Foi higienizada corretamente? Quem seria o culpado? Eu queria encontrar o culpado. Depois percebi que aquilo não adiantaria em nada. Lutamos tanto, eu me sentia como se tivesse nadado, nadado e morrido na praia.

4 meses após sua partida, eu me descobri grávida novamente. Aquilo foi pra mim uma felicidade imensa. Era Deus me dando uma nova oportunidade, me dando um presente pra eu conseguisse superar tudo aquilo. A esperança voltou forte, mas durou pouco tempo. O embrião não se desenvolveu e precisei fazer uma curetagem. Internei no mesmo hospital que fiz o meu parto.

Tudo voltou forte. Era uma dor emocional que nunca serei capaz de explicar. Falta o ar!

Eu realmente desacreditei em tudo. Perdi a fé, as esperanças e comecei a duvidar de tudo que acreditei minha vida toda em relação a espiritualidade e religião. Eu não conseguia mais rezar. Foi uma dor muito solitária. As pessoas não gostam de escutar coisas tristes e toda vez que eu tentava conversar com alguém, o assunto era desviado ou eu ouvia as piores coisas do tipo: “Foi melhor assim”. Melhor pra quem?

Apesar de meu marido e eu estarmos sempre unidos, eu sentia um buraco entre nós. Quase não tocávamos no assunto.

O cardiologista recomendou ficar um período sem tentar, enquanto investigávamos mais a fundo a minha hipertensão e ajustávamos a medicação. Muitos obstetras que procurei me disseram pra desistir. E por um tempo decidimos realmente desistir.

Pra mim foi um período de muita solidão. Nunca me imaginei viver tão sozinha ao lado de tantas pessoas. Eu não suportava ver grávidas, não suportava ver mamães felizes carregando seus filhos. E nas minhas redes sociais, choviam cada dia mais colegas realizando aquele lindo sonho. Não era inveja, meu coração ficava feliz por todas elas. Mas eu não conseguia ver sem sofrer, sem lembrar de cada sofrimento, de cada fracasso.

Aos poucos isso foi passando e eu pensei… Preciso fazer algo por mim urgente. Foquei no trabalho, fiz uma pequena viagem sozinha e comecei como voluntária em um abrigo infantil lindo, com crianças adoráveis. Alguns chegaram a me falar que eu não teria psicológico pra cuidar das crianças, mas foram elas que trouxeram à vida novamente. Que fizeram querer lutar de novo, tentar de novo e dessa vez eu sentia… Eu estava mais forte.

O cardiologista então liberou as tentativas no meio do ano passado, e eu encontrei uma obstetra espetacular que me apoiou desde o início. Em dezembro, recebemos o nosso positivo. Nos abraçamos, chorei.

Não dava para curtir. Poderia não se desenvolver, poderia não dar certo de novo. Foram 3 meses acompanhando e observando o desenvolvimento sem contar para ninguém. Só quando passando o primeiro trimestre é que contamos para as nossas famílias.

Hoje estou com 6 meses de gestação de um menino. O bebê está se desenvolvendo super bem e eu estou tendo uma gestação muito mais tranquila. Mas eu mentiria se dissesse que estou 100%. Toda vez que vou comprar enxoval, eu olho para as coisas cor de rosa eu me lembro dela. Me dá aquele aperto no peito, aquela falta de ar. E sempre, sempre eu tenho q segurar o choro nesses lugares.

Eu não digo que tenho medo de algo acontecer dessa vez, mas ainda sinto uma angustia muito grande com a partida dela e isso se mistura de uma maneira estranha com a alegria da chegada dele.

Não me sinto revoltada, e brinco que já fiz as pazes com Deus. Acredito que de alguma forma eu precisava passar por tudo aquilo. Nos fortaleceu, nos mudou. Eu não sou mais a mesma pessoa.

As vezes eu tenho a sensação que essa dor nunca vai embora. Por mais que meu coração exploda de emoção cada vez que sinto o meu Diego mexer, ou eu o veja na ultrassom. Tem uma dor lá no fundo que não vai embora. Uma feriada que não cura. Uma dor que não cessa.

É difícil conviver com esses dois sentimentos tão fortes e tão presentes. A alegria inexplicável dessa nova oportunidade, de mais uma vez gestar um bebê. De estar correndo tudo bem até agora. Mas ainda sinto uma dor  profunda de lembrar que ela não está aqui, que eu a peguei no colo uma única vez por apenas 10 minutos, que não pude amamentar, trazer pra casa, sentir seu cheirinho, sua pele.

Estamos radiante com a chegada do Diego. Mas as marcas da dor sofrida estão presente e não tenho como esquecer. É difícil falar sobre o luto, sobretudo quando perdemos um filho tão desejado, esperado e amado. E é complicado entender os sentimentos quando dois opostos, nascimento e morte, se misturam.

É minha 7º gestação. É difícil conviver com tantos fracassos, difícil entender porque justo comigo que sempre sonhei em ser mãe. Mas depois de um tempo passei a pensar: Porque não comigo? Não sou melhor do que ninguém. Cada um carrega sua dor e sua história de luta, e quando aprendemos o quanto a fé é importante, percebemos que mesmo nas piores dores, é possível extrair algo de bom. Evoluímos! E hoje acredito que o tempo que ela esteve comigo era extremamente necessário para todos nós. Mas é uma saudade que nunca terá fim.

E rezo muito para o Diego venha no tempo certo e com muita saúde. Para eu posso exercer esse desejo imenso da maternidade.

Relato da mãe Graziela Oliveira

Beatriz – aquela que traz felicidade

Relato extraído do livro “Histórias de Amor na Perda gestacional e neonatal”

Autora: Luiza Junqueira – mãe da Bia, do Gabriel e do Dante
Foi no dia 23 de maio de 2014. Saí mais cedo do trabalho, e meio sem saber o porquê, resolvi fazer um teste de gravidez de farmácia. Meu marido achou que eu estava meio maluca. Para minha surpresa, surgiram as duas listras rosa escuro. Um misto de felicidade e nervoso. Seria eu capaz de cuidar de outra pessoa, alguém que dependeria de mim para tudo, mesmo sem saber bem como cuidar de mim mesma? Mais oito testes de farmácia e o exame de sangue para confirmar (ainda bem que o resultado sai no mesmo dia; a ansiedade era tão grande quanto a alegria pela chance de ser mãe!).
A partir daquele momento, tudo mudou. Ainda não sabíamos que seria uma menininha. Mas fazendo jus ao significado do nome que eu e seu pai escolheríamos algumas semanas depois, a Beatriz nos trouxe a maior de todas as felicidades. Para nós e muita gente. Foram nove meses intensos e repletos de amor. Nossas famílias ficaram mais
próximas e unidas. Os amigos, ainda mais chegados. Minha primeira filha, primeira neta da minha mãe e do meu pai, primeira sobrinha das minhas irmãs, a bisneta sonhada dos meus avós. Quanta alegria e planos à espera dela. Os melhores momentos que eu já vivi. E ver meus familiares através de uma nova perspectiva foi emocionante e incrível.
Sentir a Bia crescendo dentro de mim me trouxe uma paz inédita. Ela acalmou minha pressa, trouxe doçura para os meus dias. Me apresentou a uma nova forma de amor. Não o famoso amor incondicional, porque para ser honesta, esse eu já conhecia. Um amor enorme, por tudo e todos, amor sem limites.
 No dia 20 de janeiro de 2015, começaram os primeiros sinais de que, com 39 semanas, a Bia estava pronta para conhecer este mundo. Passei o dia em trabalho de parto, com dor sim, mas animada com a chegada da minha menininha. Finalmente, um pouco depois das sete horas da noite, fui internada e, às 0h35min do dia 21, Beatriz nasceu. Linda, grande, 52 centímetros e mais de 3,4 quilos. Parto normal, como queríamos. Nunca me senti tão completa, feliz e serena. Segurá-la em meus braços foi a melhor sensação que experimentei. Ver seus dedinhos, corpinho perfeito… modestamente, a minha cara! Com os olhos generosos e atentos como os do pai. Por conta de ingestão de um pouco de líquido, ela precisou ser levada. A informação que tínhamos era: “Isso não é nada de mais, é normal. Em breve ela estará com os pais”.
Duas horas depois, um telefonema para o nosso quarto. Notaram que a respiração da minha bebê estava pesada, e ela foi levada para UTI neonatal. Desespero! Meu marido foi ao encontro dos médicos. Ao retornar, me acalmou, pois aparentemente isso pode acontecer com alguns bebês e eles só iam manter a Bia na UTI para melhor monitorá-la. Mas foi então que começaram os piores momentos da minha vida.
Pela manhã, o responsável pelo setor de neonatologia veio conversar conosco. Dessa vez, fomos informados de que a situação era muito grave, e que os médicos não sabiam o que tinha de errado com a nossa Beatriz, mas que o coraçãozinho dela não estava funcionando bem, e com isso surgiram outros problemas colaterais, como a deficiência pulmonar.
Ver a Bia tão frágil partiu meu coração, mas mantivemos a esperança. Toda a família se reuniu no hospital. Perto das cinco horas da tarde, fomos chamados pelo médico. Nossa menininha tinha tido a terceira parada cardíaca e, agora, com sequelas inevitáveis – eles só não podiam prever quais.
 Ouvimos a pior pergunta que se pode fazer aos pais: “Caso haja uma nova parada, devemos ressuscitá-la? Mesmo sabendo que ela não será normal?”. Revolta! Como assim? É minha filha, perfeita, seja como for, e vou cuidar dela, sempre!
Mais uma vez, Beatriz foi quem cuidou de mim, e enquanto ainda estávamos no consultório do médico, ela partiu. Nunca senti dor maior, falta de ar, nada parecia real…
Levaram a gente para vê-la e pude segurá-la mais uma vez. Para minha surpresa, não senti revolta, mas uma nova onda de amor e gratidão. Só conseguia agradecer a Bia por ter me escolhido para ser sua mãe, por ter me ensinado tanto, e pelos melhores meses da minha vida. E garanti a ela que faria tudo de novo, mesmo se eu soubesse que ela precisaria partir tão, tão cedo.
Acordar na manhã seguinte foi difícil. Meu marido e eu apenas nos abraçamos e choramos muito. Eu só consegui voltar para casa – a casa para onde nos mudamos por conta da chegada da nossa filha – quase um mês depois. As marcas físicas do parto doíam por lembrar a ausência da minha bebê tão desejada e amada. Meu colo estava vazio e eu não sabia o que fazer com todo o amor que sentia… Me despedi da minha filha
e, ao mesmo tempo, de quem eu era.
Nos meses seguintes, e ainda hoje, eu e meu marido aprendemos muito, como casal e como pais. E seremos SEMPRE pais. Aprendemos que a dor de cada um se expressa de maneira diferente. Aprendemos nos comunicar e respeitar, a conversar muito e, às vezes, só ficar abraçadinhos, longe de tudo o que não importa tanto. Aprendemos que, às vezes, as pessoas que mais amamos, querendo nos ajudar e curar nossa dor, nos machucam. Ninguém está preparado para lidar com a morte no momento em que deveríamos celebrar a vida. Precisamos ter compreensão e também dar colo. Todos
perdemos e nos sentimos perdidos.
Mas a lição mais importante, para mim, é que a dor imensa de não estar com a Beatriz, de não poder vê-la dar seus primeiros passos, me chamar de mamãe, de agarrar e enchê-la de beijos como sonhei, não é e não será nunca maior do que o amor que fi cou para sempre. Terei para sempre os momentos que passamos juntas e toda a luz que a existência dela trouxe para mim e para todos que, de alguma maneira, estiveram com ela, uma menininha pulante e especial.
Eu tinha tanto medo de “quebrar” minha Beatriz! Mas sua sabedoria foi maior que a minha, e foi ela quem “quebrou” meus pré-conceitos, meus medos, minhas muralhas e minha correria. Me ensinou a aproveitar mais o que conta, a dar mais valor a cada pessoa que cruza o meu caminho, a ser mais paciente e a perdoar.
Filhota, onde você estiver: obrigada, sempre, por ser o melhor pedaço de mim. E por tudo de lindo que você deu e dá ao seu pai e a mim. Por me ajudar a crescer. Te amo!
Relato extraído do livro “Histórias de Amor na Perda gestacional e neonatal”
Autora: Luiza Junqueira – mãe da Bia, do Gabriel e do Dante
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