Não te esquecerei um dia

Hoje queria escrever sobre você meu filho.
Vejo o tempo passar tão rápido e ao mesmo tempo tão devagar e doloroso, não sei se quero que ele passe. O meu corpo já está voltando ao que era antes de você, meu peito já não tem mais leite, e já consigo abrir a janela do quarto e sentir vontade de viver… Confesso que andei procurando a morte nesses dias escuros, que quis ficar sozinha, não senti vontade de acordar. Eu não queria viver sem você, até que não aguentei e chorei, gritei, eu deixei a dor entrar e me permeti sofrer.
Como foi difícil voltar pra casa sem você, como eu lamentei continuar viva, eu sonhei tanto com a tua chegada, eu mudei tudo pra quando você chegasse eu ser só sua. Me sinto vazia, sem brilho e me pergunto todos os dias porque é que eu ainda tô viva… os dias vão passando, as pessoas já não me escutam mais, não querem que eu fale de você, dizem pra mim ocupar a cabeça com outra coisa, pra seguir a vida, pra ter outro filho quem sabe, só não querem que eu fale sobre você, dizem que te faço mau assim.
E porque não falar de você? Você me trouxe tanta coisa boa, me ensinou a amar de verdade, a ter calma, a esperar, eu contava os dias e horas pra sua chegada, quando alguém me perguntava eu falava com os olhos brilhantes sobre você, da bagunça que fazia aqui dentro, eu via uma mãe com seu bebê e imaginava que logo seria eu com você aqui nos meus braços…
No final da gravidez, eu evitava qualquer assunto sobre mães que perderam seus bebês, eu tinha tanto medo, eu falava pra minha amiga dos meus medos matinais, de como esse assunto estava sempre aparecendo agora, mas eu não podia pensar nisso, eu precisava estar forte pra quando você chegasse, você já tava chegando e já tava quase tudo pronto e eu tava tão feliz, não podia ficar com esses pensamentos negativos.
Eu fiz tudo certinho pra você, todas as consultas, exames, remédios, repouso, sono, nada de estresse, nada de brigas… a onde foi que eu errei?  Só é essa pergunta que não sai da minha cabeça e acho que nunca vai sair. Você sabe filho, você sabe do quanto eu tô tentando seguir, só que tem dias que eu não consigo, e nesses dias eu te peço, me ajuda, a mamãe só precisa de você.
Quando fui pro hospital pra finalmente poder te conhecer e saber qual seria a minha cor e cheiros preferidos pro resto da vida, e o médico me disse que seu coração não estava mais batendo, eu senti que o meu também tinha parado ali por alguns instantes. Eu não conseguia acreditar que você não estava mais comigo, como, onde, porque meu Deus?!!! Eu não tive nem forças pra te pegar no colo, eu não conseguia nem te olhar, eu entrei em choque e me perdoa por ter sido tão fraca ali, tava doendo tanto que eu não consegui nem pensar que aquela era à última vez que eu ia te ver, na verdade era a primeira.
As vezes quando ta doendo muito eu pego a luvinha que eu e seu pai compramos quando descobrimos que você era um menino, esse dia foi um dos dias mais felizes com você aqui dentro, eu, você e seu pai… iríamos guardar essa luva pra sempre, e no futuro a gente iria te contar de como esse dia foi maravilhoso. E hoje me encontro aqui, agarrada à essa luva, a única coisa que me deixa mais próxima de você.

A mamãe sente uma dor insuportável em viver sem você, mas quero que saiba, que vou viver por você. E nunca, nem por um segundo eu vou esquecer de você, um dia eu vou te encontrar ai no céu, e vou te encher de beijinhos e finalmente te abraçar e sentir seu cheiro. A onde for, a onde eu estiver, eu sempre serei sua mãe Pedro e eu sempre irei te amar. Com todo amor e carinho eu dedico essas palavras a você, e saiba que aqui nunca vai te faltar amor.

“Não te esquecerei um dia,
Nem um dia
Espero com a força do pensamento
Recriar a luz que me trará você.”

Relato da Cristiane dos Santos – mãe do Pedro

Uma carta para o Ben

Querido filho!

“Faz um ano que você nasceu, foi um dia bastante delicado, porque nos dois passamos por momentos difíceis. Com a ajuda da medica, ambos conseguimos escapar, mas pouco tempo depois você não resistiu às condições adversas do nascimento. Meu organismo demorou para eliminar integralmente as causas que me debilitaram, enquanto seu organismo encontrou mais dificuldade para vencer a luta.” (Trecho do livro: Quatro Letras/ Flávia Camargo.

Benjamin, hoje você completa um ano, provavelmente seria a festa mais linda das nossas vidas assim como foi o casamento do seu papai e da sua mamãe, antes de você nascer eu e seu pai já havíamos decidido sobre a decoração da sua festa de 1 ano, seria tudo com tema do Corinthians, time do coração do seu pai João Luiz e as sua avó Olivia e que depois da sua existência filho, seria o time do coração da mamãe também. Graças a você filho a mamãe teve a oportunidade de conhecer muitas mamães como eu que também perderam seus filhos, em especial a tia Flávia Camargo mãe do Igor, a tia Flávia me inspirou a escrever para você todos em meses, pois eu nunca esqueci você meu bebê, foram 365 dias pensando em você todos os momentos, milhares de lágrimas derramadas, lágrimas de saudade e lágrimas de felicidade por ser sua mãe. Como o significado do seu nome diz: Benjamin, filho da felicidade. “meu Benjamin és a felicidade que coloriu os meus dias”.

Meu filho logo iremos nos encontrar, tenho certeza que você virá correndo com braços abertos em minha direção gritando: – mamãe eu te amo!

Beijos carinhosos! Te amo meu guerreirinho!

Danielle Campos

Lara, meu amor por toda a vida!

Dia 08 de junho de 2015 foi a data que suas asas nasceram e voce decidou me deixar.
Exatamente nessa data senti pela segunda vez o gosto amargo de quem viu morrer quem viu nascer, minha pequena , linda, simpatica e sorridente Lara Elena. Mesmo em meio de muitos fios, internada a 23 dias em uma UTI neo, tendo perdido quase 50%do seu peso apos nascimento, voce lutou com toda força para ficar aqui com a mamae e com papai, mais entao Deus te deo asas e voce optou por voar e foi morrar no céu.
Filha nunca vou me esquecer do seu pequeno sorriso, do quanto voce tinha meus traços, do quando voce era espera e tranquila.
Guerreira devia ter sido seu nome, vitoriosa seu sobre nome.
Como eu te amo e sinto sua falta, essa data vai doer sempre, vai me fazer senti saudades e certamente lagrimas vao rolar do meu rosto, queria ver voce me fazendo sorrir, queria senti seu toqur, seu abraco e seu beijo.
Queria ver voce e seu irmaozinho Lorenzo correndo pela casa, baguncando enfim… isso nao aconteceu
Sinto falta de voce e te amo mais que a mim mesma.
Choramos pelas fraldas que não trocamos,
pelos beijos que não demos,
pelo choro que não ouvimos.
Choramos pelas noites que não passamos acordados
e pelas manhãs que não demos banho.
Choramos pelos primeiros passos que não vimos,
pelas risadas que não ouvimos,
pela mãozinha que não seguramos.
Pelos sonhos que ele não realizou,
pela felicidade que não sentiu,
pela amizade que não começou.
Sentimos pelos tombos que ele não levou,
pelos tropeços que ele não deu,
pelos dentes que não nasceram.
Pelos namorado que ela nunca vai ter,
pela emoção que ela jamais sentirá,
pela expressão de alegria que nunca conhecerei.
Pelos anos que não passaram.
Choramos pela vida que ele não viveu.
#luto #1ano #saudade #minhameninareceived_1341346185950873.jpeg

Ainda sobre o dia das Mães

Dia das Mães chegando, essa é a nossa dor.

É só mais uma data comercial, poderia ser só mais um domingo, mas é uma data que dói lá no fundo do coração para quem não está com seu filho aqui fisicamente.

Quando ainda estava no hospital, logo depois que ele nos deixou, lembro que não queria ligar a televisão de jeito nenhum. Sentia uma dor absurda com cada comercial onde apareciam crianças, grávidas e “afins”. Em um dia no quarto, quando meu marido sugeriu que ligássemos a TV, dividi com ele meu ressentimento, e concluí naquele momento o quanto o mundo era cruel com pessoas que perdiam seus filhos. Com todo o amor na sua fala, ele me fez entender que o mundo é cruel com todas as pessoas que perdem algo ou tem alguma limitação, que aquele sentimento que eu estava experimentando não era exclusividade minha. Que o mundo é cruel com quem não pode comer doces, com quem não tem um companheiro(a), com quem não tem condições financeiras extremas, com quem tem uma doença grave, com quem não pode andar, com pessoas que muitas vezes nem imaginamos as suas dores. Naquele momento ele me fez exercitar a empatia de uma forma que nunca pensei que seria capaz. Tantas pessoas a minha volta tem muitas dores, dores sem fim, como a minha.

Então, esse domingo é dia das mães, é a minha dor, é a minha história e hoje a minha realidade. Continuo evitando os comerciais e programas que incluem bebês, e se fosse possível dormiria os primeiros 15 dias de maio, somente para não precisar passar por essa época do ano. Mas é assim, cada um com suas dores e é isso que nos torna especiais. Precisamos passar por esses momentos para nos tornarmos mais fortes, para ter compaixão e nos transformar.

O fato é que não podemos mudar nossa história, mas podemos mudar a forma como nos comportamos com ela. Um abençoado domingo de dia das mães para todas nós, mães de Anjos!

Quem escreve é a Greice, leitora assídua do Luto à Luta e muito grata pelo lindo trabalho. Meu pequeno Antônio nos deixou ao nascer há 4 anos, na mesma data também fiz uma histerectomia, tirando a possibilidade de gerar outro filho biológico, mas não nos impedindo de ter filhos gerados no coração.

Mãe vem do amor

Meu nome é Erika tenho 21 anos, esse ano de 2017 foi um ano de uma grande surpresa, aos 18 anos fiz uma cirurgia para retirada de um ovário e uma trompa por causa de um cisto zigoto, por esse motivo e pelo outro também ser um ovário policístico achava que não poderia engravidar. 

Em janeiro no dia 25, depois da menstruação ter atrasado alguns dias, fiz um exame por encargo de consciência e para minha surpresa, deu positivo. Como tinha iniciado minha faculdade e não tinha um relacionamento estável fiquei bastante assustada e com muito medo do que poderia acontecer.

Meu sonho sempre foi ser mãe estava realizado esse sonho em um momento de dúvidas. Mas nada disso me importava mais, eu estava bastante feliz com a chegada do meu bebê corri para fazer todos os exames, conversava com ela na minha barriga e estava cheia de expectativa e a ansiedade para saber o sexo já não cabia em mim, foram tantos momentos de amor. 

Em um domingo de fevereiro começou meu primeiro sangramento, eu me assustei bastante não queria que nada de ruim acontecesse com meu bebê durante a semana depois de ir ao médico fiz minha primeira ultrassom e o coração do meu bebê estava batendo forte foi o momento que me tranquilizei por que ela estava bem dentro de mim, crescendo, já imaginava o sorriso, o cuidado, o carinho que nós iríamos proporcionar para ela.

As semanas continuaram e o sangramento não parou já estava frequente ao hospital não aguentava mais esperar, queria que o sangramento acabasse, queria que as 12 semana chegasse rápido para passarmos do período de risco, eu queria meu bebê comigo. 

No dia 24 de fevereiro quando todos estavam se preparando para o carnaval acordei na madrugada e senti que não estava nada bem, senti meu bebê indo embora e eu não podia fazer nada, como eu queria ter feito alguma coisa. Depois de enviar uma mensagem para o pai falando que já não estava me sentindo bem e que meu bebê tinha partido consegui dormir por algumas horas. Pela manhã fui novamente ao médico que fez todos os procedimentos e disse que o colo do útero continuava fechado, havia uma esperança ela poderia está lá viva. Decidi que a tarde iria fazer uma outra ultrassom para vê como ela estava. 

Na sala da ultrassom tinha várias mulheres já com a barriga enorme acompanhadas dos maridos, falando da chegada do filho. Enquanto eu estava sozinha com muito medo finque poderia acontecer naquele momento uma moça sentou ao meu lado com um sangramento igual ao meu e com todo respeito ao sofrimento daquela moça que era bem parecido com meu olhei nos olhos dela e disse que daria tudo certo, que o sangramento iria parar e logo ela estaria com bebê Dela nos braços. Mas era tudo que eu queria ter ouvido, as horas se passaram e eu fui a ultima a ser atendida para fazer o exame de ultrassom.

Ao entrar na sala de ultrassom e em meio às orações mentais, vi meu bebê na tela e a única coisa que eu pensava era que ela estava ali estava bem, até o ultrassonografista me falar da ausência dos batimentos cardíacos, eu pensava que poderia ser por causa do meu nervosismo da minha ansiedade, tentei respirar com mais calma, mas o coração Dela não estava mais batendo depois disso achei que ocorreria um milagre o coração iria voltar bater eu tinha certeza que ia. Não sabia mais nada naquele momento só olhava fixamente para a tela da televisão minha filha parada inerte, aquilo não podia está acontecendo. Ao final da ultrassom com pouca coragem e uma dor imensa no coração perguntei se ela estava morta por que não estava acreditando e então ele me falou que sim. Segurei o choro e sair da sala, quando desabei, desabei aonde não havia mais chão. Liguei para minha família, para o pai, para os meus amigos para comunicar a perda.

Horas depois comecei a sentir uma dor muito forte e o sangramento já havia aumentado foram momentos de angústia, de novo ao hospital mas agora com a certeza que ela não estava viva, e chegando no hospital onde passei vários dias da semana indo acompanhar o sangramento e a fala do atendente do hospital que me fez pensar; um dia a gente ganha e outro a gente perde. Eu não estava perdendo uma partida de futebol, não estava perdendo uma aposta eu estava perdendo meu filho sem poder fazer nada, absolutamente nada. 

Eu e o pai ficamos algumas horas no hospital, o atendimento demorou tanto que meu bebê saiu em uma bola de sangue ao meio de dores abdominais, no caso do hospital. Esses hospitais são ridículos eu não pude pegar meu bebê, nem deu pra vê-lá o banheiro estava sem luz, escuro. Minha reação sem pensar de imediato foi da descarga, eu sofro muito com isso ainda. 

Dia 24 tinha passado voltei para casa agora sem meu bebê, chorei e todas as roupas dele na minha mão chorei por não poder fazer nada, chorei e chorei por ouvir que Deus sabia de tudo, chorei por não poder chorar por ter que ser forte, no momento que me sentia mais fraca, impotente e desamparada. Dia 25 de fevereiro um mês depois da descoberta do meu bebê, fui fazer a curetagem estava indo tirar meu bebê ou restos dele de mim. Eu e o pai ficamos no hospital até tarde, chegamos cedo esperamos por horas intermináveis, depois do procedimento fui para o corredor vê os bebês saudáveis que saiam das salas de parto, ouvir os choros e as famílias felizes que buscavam encontrar traços da mãe e do pai. 

Entrei em uma sala com outras mulheres que tinham ganhado o seus filhos e uma delas me perguntou; – seu filho também nasceu de parto normal ?, Eu meio sem voz respondi que eu tinha perdido meu bebê, a sala ficou em silêncio e eu fiquei como se tivesse parado no tempo, as condolências chegava mais eu não sabia o que responder. 

Queria ter tido a oportunidade de conversar com minha família com o pai de como aquilo foi doloroso e é ainda para mim, não tive oportunidade de falar com eles, queria ter falado que todos os dias penso nela e que penso no dia 24 de setembro que ela iria nascer, mesmo não sabendo o sexo por ultrassom eu sei que seria a Sol, minha filha. Hoje o que me resta é a saudades, alguns sapatinhos e as fotos da ultrassom. 

A sociedade não compreende a perda eles acham que não se pode dar amor a um feto de 9 semanas, eles não compreendem que ser mãe vem do amor e esse amor no meu caso foi desde a descoberta mesmo atordoada. Não quero outro filho como as pessoas falam, “você vai ter outro” , “você é muito nova”, ela não vai ser substituída por 10 outros filhos, ela sempre vai estar comigo no meu coração, minha princesa que a mamãe ama para sempre. 

Quero agradecer a oportunidade de relatar um pouco do que vivi. Agradecer ao apoio psicológico dos meus amigos que estão próximos e a minha psicóloga que me ajuda muito.

Relato da mãe Erika Divina

A perda gestacional e o profissional de saúde

 

Trechos extraídos de um capítulo do livro “Histórias de Amor na perda gestacional e neonatal”
Autora: Carmen Lúcia Lupi Monteiro Garcia

Doutora em Políticas Públicas e Formação Humana, Mestre em Educação, Especialista em Saúde Pública, Especialista em Filosofia e Especialista em Neurociências
O relato de uma profissional de saúde e de uma mãe que passou por duas perdas gestacionais e constatou, através da sua profissão, das suas próprias perdas e da perda de suas sobrinhas, o despreparo dos profissionais de saúde para lidarem com um tema tão sensível, doloroso e importante.
“A gravidez é um momento ímpar na vida de qualquer mulher e de imensa felicidade para o casal e família. Quando acontece a interrupção da gravidez ou a perda do bebê ao nascer, verificamos que a célula familiar fica extremamente abalada.
…A Organização Mundial de Saúde distingue as perdas que se verificam antes da expulsão ou extração do bebê do corpo da mãe, independentemente da idade gestacional (sendo que a morte intrauterina pode ocorrer antes do início ou já durante o trabalho de parto) das que ocorrem já após o nascimento – constituindo, até ao sétimo dia após o parto, uma morte neonatal precoce e, entre o sétimo e o 27º dia posteriores ao parto, uma morte neonatal tardia. As perdas ocorridas nesses dois períodos (antes e após o nascimento) refletem causas diferenciadas: enquanto as mortes fetais se associam com mais frequência a complicações obstétricas ou do parto, a problemas de saúde materna ou a causa não identificada, a morte que ocorre após o parto deve-se principalmente a malformações graves, prematuridade, complicações obstétricas, dificuldade de adaptação à vida extrauterina e infecções resultantes de práticas erradas após o parto.
…Em primeiro lugar, é necessário aceitar a realidade da perda; em seguida, reconhecer e lidar com sua dor. Logo após, deve-se ajustar os diversos níveis atingidos pela perda: externos (o dia a dia) e internos (referentes à identidade da pessoa e seus diversos papéis). E por fim, desenvolver a capacidade de integrar emocionalmente a perda, prosseguindo na vida.
…Após abordarmos genericamente a questão da perda gestacional, nos deteremos a contar nossa experiência pessoal e nossa vivência profissional. Sou Enfermeira Sanitarista, Doutora em Políticas Públicas e Formação Humana, porém não recebi em toda minha formação profissional orientações e informações consolidadas sobre perda gestacional, embora tenha atuado em maternidades públicas e privadas. Mesmo sendo enfermeira, passei por dois episódios de perda gestacional. Tenho três filhos, hoje adultos, embora tenha passado por cinco gestações. Foram duas perdas muito dolorosas: uma por ocasião de contaminação por rubéola, com indicação de aborto terapêutico, que por obra do divino, não precisou ser feito e ocorreu espontaneamente; e a outra perda por má formação cardíaca do feto, também espontâneo.
…Consideramos aqui o despreparo de todos os profissionais, desde o obstetra, enfermeiros, técnicos, serviço social, psicólogos (quando existem) e administrativos. Concluímos que se faz necessário protocolos de atendimento específico para perda gestacional, treinamento e atualização dos recursos humanos da saúde, para que a dor da perda, a fragilidade do momento da perda, a valorização da vida que segue e a cidadania sejam respeitadas.
O vazio de uma perda humana não se descreve. A fragilidade da vida de uma criança requer muita atenção por parte de todos que a cercam. A pureza que com você partiu, deixou em mim a vontade de vencer, lutar por melhores condições de vida para os outros. Eu te quis, te fiz e você partiu – partiu só a matéria, porque nas minhas entranhas ainda te sinto. Te amei, te amo e te amarei para sempre, e um dia tornaremos a nos encontrar.
Eu, sua mãe,
Carmen”
Para adquirir a versão digital do livro “Histórias de Amor na perda gestacional ou neonatal” acesse o link abaixo da loja Kindle da Amazon. Em breve, a versão impressa do livro será vendida na mesma loja.

Lívia, saudades de tudo o que não vivi e poderia viver

Foi por acaso que descobri minha gravidez, mas nem por isso deixou de ser super desejada, nos trouxe uma imensa alegria, pois tanto eu como meu namorado na época, e hoje meu marido, estávamos passando por momentos muito difíceis com a saúde de nossas mães, e isso seria para todos da família, um enorme motivo para nos trazer ânimo e muita, mas muita felicidade.

Foi em uma noite de abril de 2016, que fiz o exame de farmácia e deu positivo. Na verdade fiz, mas achei que não estava grávida. Quando olhei, me faltou ar, e não sabia o que fazer, pois me preocupava com a minha mãe, que sempre se preocupou demais comigo, por conta do Diabetes tipo 1 que tenho, e vira e mexe vivia descompensada. Minha mãe, estava tratando de um câncer, e eu de maneira alguma queria preocupá-la.
O que fiz então, foi contar para o Rafael (meu marido) , e juntos decidimos no dia seguinte fazer um exame de sangue para confirmar, e só ai decisir o que faríamos. No dia seguinte, as 6 da manhã, eu estava no laboratório e aí veio a confirmação (POSITIVO), não cabia em mim de tanta alegria , e tinha a consciência que o cuidado com a minha saúde deveria ser redobrada.
Logo marquei todas as consultas que precisava, e descobri que minha pequininha estava com sete semanas. Quando completei três meses, resolvemos que ai sim contaríamos para a nossa família. Minha mãe ficou sim preocupada, mas também muito feliz e isso me acalmou. Minha sogra, no primeiro momento, achou que estávamos brincando, mas depois acreditou, e não se continha de felicidade, afinal era sua primeira neta. Quinze dias após a notícia, minha querida sogra passou mal, e nós perdemos. Foi um “baque e tanto” .
Meu marido sentiu muito, mas se apegou no fato que seria pai. Logo após ao que aconteceu, ele veio morar comigo, para que pudesse cuidar de mim e da pequininha mais de perto. Os meses foram passando, encontramos um endocrinologista, que nos acompanhou de perto e com excelência. Cada vez que fazia o ultrassom ,e escutava aquele coração perfeito batendo, e a médica dizendo que estava tudo perfeito, a felicidade e ansiedade para conhecer minha pequena só aumentava. Descobri as cinco meses, que Deus iria me mandar a Lívia. Quando cheguei no oitavo mês, tive uma dor muito forte de estômago, tudo o que comia, voltava. Por conta dessa dor que era forte demais, procurei um hospital, e o médico de plantão resolveu me internar. Entrei no hospital dia 18/11/2016, dia sim dia não, eles faziam ultrassom e minha pequininha estava bem, mesmo eu estando com tanta dor. Fiz uma endoscopia sem anestesia, pois jamais aceitaria tomar alguma medicação que pudesse fazer mal a ela. O médico disse, que o problema era a minha esofagite, e minha  bebê acabava empurrando meu estômago, onde me dava mais dor.
Tudo bem, eu ia aguentar a dor, afinal, ela estava bem e isso me dava uma força enorme.
No dia 26/11/2016, comecei a sentir muita falta de ar, cheguei até a delirar, e se não fosse meu marido ali me acompanhando, as coisas poderiam ser muito piores.
Passei sexta,sábado e domingo com essa falta de ar insuportável, e os médicos diziam que era tudo psicológico. Por fim, no dia 29/11/2016 as 11:30, quando eu já estava fora de mim, a médica de plantão resolveu ouvir o coração da minha pequeninha que no dia anterior estava perfeito. A última coisa que lembro, foi ela mechendo a cabeça como negativa do coraçãozinho estar batendo. Depois disso, me entubaram. Eu acordei de um coma dois dias depois, toda amarrada, entubada e com a notícia que minha filha tinha partido. Quando fomos tentar entender o que tinha acontecido, descobrimos que os médicos ficaram por dias sem aplicar insulina, o que ocasionou em uma cetoacidose diabética, que mandou ácido para o sangue da minha filha, e que por ser tão pequena não resistiu. Meu marido chegou a pegá-la no colo, mesmo sem vida, e disse que ela era perfeita e linda. Eu nem pude ver minha filha, muito menos me despedir. Acredito não ter dor maior que a perda de um filho. O que aconteceu comigo, é até um alerta para mães diabéticas, que por ventura tenham que ficar internadas e o hospital seja negligente no tratamento. Eu tinha a minha própria insulina ( diferente da que fornecem no hospital) , que eles ao me internarem, me proibiram de tomar, alegando que não teriam controle da medicação, e que por esse motivo aplicariam a insulina deles o que não aconteceu. A todo momento, diziam ao meu marido, que era tudo psicológico, e nos corredores do hospital, os comentários era que eu estava dando “piti” . Estou falando tudo isso, pois peguei o prontuário médico levei para o meu endocrino para que ele analisasse, pois nem eu nem meu marido, queríamos levantar algo falso. Ele com todo seu conhecimento, pode nos afirmar que foi negligência.
Por algum tempo, eu cheguei até me culpar, se eu poderia ter aguentado mais a dor em casa, sem precisar do hospital, e assim não cairía nas mãos de profissionais negligentes. Mas o hospital que fui, era até referência, e jamais poderia imaginar, que deixariam uma diabética sem insulina. Qualquer estudante de medicina, sabe que a insulina é essencial. Enfim, dois meses depois de tudo isso, perdi minha mãe. Foi um final de ano e começo de ano muito difícil. Esse último dia das mães, tentei nem lembrar o que se comemorava. Ainda tá difícil de aceitar tudo o que aconteceu, me apego no fato que minha princesa está sendo cuidada pelas duas avós.
Aproveito aqui, para agradecer todo o apoio da minha família e principalmente da minha filha Lavínia e meu marido Rafael, que todo o tempo esteve ao meu lado com todo o carinho, amor e cuidado.
Relato da mãe Adriana Diniz Silva