Do ventre para o coração

Trechos do relato da co-autora do livro “Histórias de Amor na perda gestacional e neonatal”- Cynara Brito
“A maternidade nunca fez parte dos meus anseios; nunca pensei em ter filhos e nunca me vi como mãe. Mas, aos 36 anos, a vida me surpreendeu: eu fiquei grávida. Descobri com cinco semanas de gestação, comuniquei ao meu psiquiatra e ele suspendeu toda a medicação que eu estava tomando, pois fui diagnosticada portadora de transtorno bipolar e vinha fazendo tratamento desde 2004.
…Com 23 semanas, fiz a ecografia morfológica. Estava ansiosa para saber o sexo, mas recebi notícias que poucas mães estão preparadas para receber: minha filhinha tinha defeitos considerados pela medicina como incompatíveis com a vida… Alertaram-me que ela corria o risco de morrer de três maneiras: dentro do útero – antes da gravidez chegar ao fim –, durante o parto ou horas após o parto. Eu tinha que me preparar para o pior, pois com a quantidade de problemas, ela não tinha chances.
…Depois de alguns dias, decidi que não podia viver um luto onde não existia; minha bambina estava viva e saltitante dentro de mim, e a partir daquele instante consegui dormir mais tranquila e conduzir a gravidez com dignidade. Melissa estava apenas começando a me introduzir uma gama de ensinamentos, quando finalmente meu momento de amadurecer havia chegado, e eu decidi agarrar a oportunidade.
…A dúvida, o medo, a impotência e a tristeza eram minhas constantes companheiras. Nunca na vida eu senti tanta solidão, por mais que estivesse cercada pela família e amigos. Aquela era uma situação solitária, aquele momento pertencia somente à minha filha e a mim. Foi um momento difícil, uma angústia tão cruel, que eu tinha a impressão de que nem a mão de Deus conseguiria me alcançar. Eu conversava muito com ela, dava carinho, dizia que era amada e querida. Ela era muito receptiva, mexia-se bastante e adorava a hora das refeições. As semanas avançavam e a expectativa me dominava. Crescia no meu coração a esperança de conhecê-la com vida. Ela estava lutando dentro de mim.
…No dia 30 de junho de 2015, faltando três dias para completarem 39 semanas de gestação, eu acordei e percebi que ela estava imóvel, achei estranho e estimulei a barriga de todas as formas, mas não havia movimentação. No hospital, foi constatado o óbito fetal e, embora eu estivesse preparada para aquele acontecimento, chorei muito. No ato da internação recebi uma camisola e, quando me despi, não contive o choro e desabei mais ainda ao ver minha barriga refletida no espelho. A jornada terrena da minha pequena havia se encerrado.
As médicas tiveram todo um cuidado comigo; não queriam me submeter a uma cesariana, pois seria uma recuperação lenta, dolorosa e talvez traumática. Foram 24 horas de indução de parto. Quando eu já não aguentava mais, chamei a obstetra, ela fez o toque e eu estava com nove centímetros de dilatação, ou seja, já se aproximava o momento de conhecer minha filhota. Antes do parto, veio ao meu leito a Dra. Manuela e perguntou se eu queria conhecer a bebê, eu disse que entendia que as mães não quisessem ver os filhos já sem vida, mas se eu não a conhecesse seria como se a estivesse rejeitando. Disse que precisava recebê-la nos braços. A obstetra começou a chorar, secou as lágrimas e pediu desculpas, dizendo estar muito emocionada. Ela disse que Mel havia cumprido sua missão e eu não pude deixar de concordar.
Não fui para o centro cirúrgico; toda a equipe se deslocou até meu quarto e o parto aconteceu ali mesmo. Parto humanizado, com três obstetras, uma enfermeira e uma doula maravilhosa – todas foram extremamente carinhosas comigo. Entre uma contração e outra, nós conversávamos e eu agradeci a elas pelo bem que estavam fazendo a mim. Pari sentada na banqueta com uma força que só poderia vir de Deus. Uma hora depois, minha guerreira saiu do meu ventre direto para os meus braços. Ela media 48 cm e pesava quase três quilos. O parto foi tranquilo, sem episiotomia; não tive laceração, nem levei pontos. A equipe deixou o quarto e disseram que eu poderia ficar com ela o tempo que eu quisesse. Foi sublime. Ficamos juntas por meia hora. Com ela no colo, eu fiz uma prece, conversei, declarei meu amor, acariciei o corpinho e chorei. Aquele era o nosso momento. Eu senti uma paz enorme me invadir e naquele instante, eu pensei: “Fiz o que pude”.
…A gravidez mexeu comigo. Ela com certeza é um anjo que Deus enviou para me fazer enxergar coisas que estavam ofuscadas. Melissa me fez viver novamente, ela me salvou e me transformou em gente. Deus me deu um presente e eu devolvi a Ele. No início da gestação, eu achava que tinha muito a ensinar a ela, mas descobri que a aprendiz era eu. Ela me ensinou, em nove meses, coisas que eu levaria uma vida inteira para aprender. Foram 256 dias de amor, ensinamentos e paciência. Ela me amou e eu a amei mais do que tudo. Ela me ensinou a ter fé, a confiar em Deus e depender Dele. Ela me mostrou que na vida as coisas nem sempre são como desejamos.
Se me fosse dada uma oportunidade de voltar atrás, eu voltaria e faria tudo outra vez. Ela é sem dúvida a melhor pessoa que já conheci. Agradeço a Deus por ter tido a oportunidade de conviver com um de seus anjos. Ela abençoou meu ventre e nunca mais serei a mesma. Os laços que nos unem nunca se romperão e minha existência será plena
de felicidade, pois de onde ela estiver estará zelando pela minha vida. A saudade é enorme, mas o amor é maior.”
Trechos do relato da co-autora do livro “Histórias de Amor na perda gestacional e neonatal”- Cynara Brito
Para adquirir a versão digital deste livro, clique no link abaixo da loja Kindle da amazon. Em breve, a versão impressa do livro também estará disponível na mesma loja.

Meu Anjo Gabriel

Trechos do relato da co-autora do livro “Histórias de Amor na perda gestacional e neonatal”- Cristiane Leite
“Carta a Gabriel
17 de dezembro de 2015.
Meu amado filho, esta carta não é só para você, é também em especial a todas as mães que, assim como eu, tiveram a perda do seu filho em tenra infância, seja dado como aborto, natimorto ou morte pré-matura. A perda de um filho é algo sem explicação, mas
resolvi escrever após três anos da sua partida, porque meu coração avisa que posso e devo ser útil. Não quero aqui tirar dor nenhuma de uma mãe que perde seu filho, apenas quero mostrar caminhos a qual cada uma, em seu momento, poderá seguir para se sentir melhor ou menos só nesta dor, e também, poder nos ajudar mutuamente.
Escutei na primeira semana após a perda de Gabriel uma das frases mais significativas e que me acalantaram genuinamente na minha dor: “Mãezinha, este foi o tempo de Gabriel, você cedeu seu ventre para que ele recebesse todo este amor e isso ele jamais vai esquecer”.
…Foi no dia 17 de dezembro de 2012 – a data seguinte é a data em que eu e meu esposo celebramos o nosso aniversário de casamento. E pensar que nós dois queríamos celebrar dois acontecimentos tão significativos no mesmo ano, era de encher nossos corações de alegria; no entanto, após a última consulta que fiz antes do parto, a minha vida ficou sem cor. Daí em diante, houve alguns acontecimentos, mas eu apaguei da minha mente e ficaram alguns flashes.
…Eu pude ter um acompanhamento singular, tão humano como as amizades e familiares, bem como tão profissional e próximo, que foi o da minha terapeuta. Todos respeitaram a minha dor, o meu silêncio e o meu tempo. Os flashes da perda de Gabriel que me vêm à memória levaram-me a questionar uma maior humanização dentro dos hospitais para esse tema. As situações aqui relatadas, que aconteceram comigo, representam mais um caso dentre outros tantos que acompanho em redes sociais, vindos de diversos locais (não apenas em Recife).
Faltou cuidado em querer colocar a mãe (no meu caso) no mesmo ambiente (ala do hospital) onde as outras mães acabaram de dar à luz.
… “E fazer o velório, é de fato necessário?” – a pergunta vinha de uma profissional de saúde do hospital, mas eu não tinha a mínima condição de respondê-la na hora, até porque, antes de entrar no bloco cirúrgico, eu queria acreditar que meu filho estava vivo.
…Meu anjo chamado Guanay (meu esposo), o pai de Gabriel – que eu sentia que queria tirar esta dor de mim e carregar com ele – chorou muito comigo. Cada um soube reerguer o outro; tivemos tempos diferentes na elaboração da perda e nos respeitamos com a nossa forma de lidar com isso; foi o melhor pai que Gabriel poderia ter tido. Nós dois fortalecemos nossa fé e não deixaremos de fazer os nossos planos familiares.
…Eu me sinto mais fortalecida até para dizer a outras mães que procurem seu caminho, o seu tempo de usar esse amor – e sim, o verbo é usar! Use-o com toda força para quem precisa, não o guarde, porque esse amor é lindo, é enorme, é humano. Não digo apenas para usar esse amor para outras crianças, pode ser para idosos, para outra pessoa da família que precisa, para quem nem sabe o que é receber amor… Se digo isso, é porque sinto que anjos existem – e eles não precisam ter asas. São eles a quem devemos pedir ajuda ou nos deixar ser ajudadas. E, com certeza, nossos filhos vão ficar felizes em saber disso.
Bem, e o que posso ainda fazer com tanto amor? Muito eu sei, e ainda faço pouco. Acho que, por isso, eu decidi não só escrever para o meu filho Gabriel, e sim, principalmente, para outras mães, com a intenção de fazê-las se sentirem acolhidas e amadas. Eu espero, de coração, poder ajudá-las de alguma forma. Conte comigo, mãe!
Forte abraço,
Cristiane
A carta abaixo foi a que escrevi logo após acordar da cesariana e saber que, no dia seguinte, seria o velório do meu filho (li na nossa despedida).
Meu Anjo Gabriel
Não cheguei a colocá-lo em meus braços, mas cheguei a sentir seu movimento em meu ventre a cada momento. Não sei o formato do teu corpinho, mas sei o quanto és divino por ter vivenciado nove meses tão intensos conosco. Posso não ter sentido teu cheiro, mas sentirei para sempre sua presença no meu lado. Nosso anjinho Gabriel, és agora uma Luz, uma estrela, ou melhor, um anjo que está no céu e na terra para nos proteger, nos dar força para dar novos passos. Meu ventre concebeu um anjo, que a cada dia vai me dar mais FÉ para vencer os desafios e celebrar as dádivas da vida.
Te amaremos para sempre, nosso filho, nosso ANJO GABRIEL!
Cristiane e Guanay”
Trechos do relate da co-autora do livro “Histórias de Amor na perda gestacional e neonatal”- Cristiane Leite
Para adquirir a versão digital do livro, clique no link da loja Kindle da Amazon abaixo. Em breve, a versão impressa também será vendida pela mesma loja.

O dia em que o enxoval novo vai morar no brechó

 

images (8)

Hoje lembrei de Hemingway “Vende-se: sapatinhos de bebê nunca usados”

Há três anos resolvi que queria ser mãe. Engravidar nunca tinha sido o desejo, mas um dia a vontade chegou. Talvez seja o relógio biológico aos quase quarenta.

Como quase toda mulher olhei umas roupinhas. Um macacão vermelho para dar sorte. Um conjunto de sapo tão fofo. Uns dias depois um body, aliás, porque não dois? Com algumas semanas estava navegando na internet checando o enxoval básico. Comprei uma chupeta com termômetro rosa e um termômetro de testa azul. Quem será que vai vir, não é mesmo?

Outras semanas e mais uma visita na loja. Outro macacão, mais um conjunto de leão e um de girafa. Vantagem de resolver ser mãe mais velha: posso comprar sem pedir para ninguém!

Uma caixa de enxoval e a menstruação ainda insistia em vir todo mês.

Mudamos de casa e carregamos a caixa. Com dois anos já eram duas caixas de enxoval.

Parei de comprar roupinhas do mesmo modo que parei de controlar o ciclo menstrual.

Com três anos de tentativas e cansada de ouvir “uma hora vai dar certo” resolvemos como um casal que as roupinhas precisavam de uma criança. Aliás, como deveria ter sido desde o começo.

Hoje foi o dia do brechó. Curiosamente chamado O leãozinho, igual a roupinha que comprei.

As duas caixas de roupas foram avaliadas cuidadosamente pela funcionária simpática. Uma a uma. Demoradamente, talvez tempo demais para eu observar cada peça e lembrar da história.

– São novas? Sim, estão com as etiquetas.

– Nunca usou. Não…

O silêncio invadiu o brechó.

Eu e meu esposo demos as mãos. Perguntamos um ao outro se estava tudo bem. Estava quase t-u-d-o bem. Não era esse o plano quando cada uma daquelas peças chegou em casa, mas era o que tínhamos agora.

A funcionária simpática passa o valor. Aceitamos.

Ela sai para buscar o dinheiro e volta com olho vermelho. Disse que não iria perguntar o motivo da venda de tudo aquilo sem uso, mas só de pensar a história, não deu conta… Ela chorava. E muito.

Eu abracei a funcionária, disse que estava bem. Ninguém nasceu. Resolvemos que aquelas roupinhas lindas e desejadas precisavam de uma criança.

Ouvi, “Então está tudo bem. Uma hora vai dar certo”.

E assim sigo sem acolhimento da perda não gestacional…

Texto escrito pela nossa colunista mensal-médica-anestesista sensível Ursula Guirro.

Mãe de um anjinho

Me Chamo Mariana, tenho 26 anos, sou casada e tenho uma filha de 4 anos. Bom td começou em fevereiro do ano passado, quando, depois de tanto tentar engravidar, resolvi ir ao medico. Ao fazer alguns exames, descobri que tenho Hipo e com o tratamento logo engravidei em junho de 2016. Foi uma felicidade enorme em saber q dentro de mim tinha mais um sonho a se realizar.

Curti muito cada enjoo, mas no dia 22 de agosto, com apenas 8 semanas… Após uma ida ao medico, fiz o exame de ultrassom e logo costataram q meu bebe nao havia desenvolvido e ja nao tinha mais vida. Foi como se o mundo caisse na minha cabeça. No msm dia, fiquei internada e fiz a curetagem..

Mas segui confiante e logo me fortaleci, gracas a minha familia. Quando foi no comecinho de abril de 2017, minha menstruaçao atrasou. Aí veio aquele desespero , aquela angustia, aquela alegria – uma mistura de sentimentos e dois dias apos o atraso menstrual a confirmaçao com um exame de farmacia.. SIM  eu estava gravida. Que Alegria, meu Deus! Guardei em segredo por 3 meses pois tinha muito medo… mais logo pude contar e comemorar foi uma felicidade cada dia era uma vitoria. Eu estava curtindo muito. Fiz dois ultras e  tava td bem com o bebe.

A vida de gravida seguia bem ate o dia 28 de junho de 2017. Senti uma dorzinha na barriga, fui no banheiro fazer xixi e pro meu desespero saiu sangue. Meu Deus, de novo nao.. mais segui confiante.  Fui ao ps, fiz um exame e la estava o coracaozinho batendo.. o medico me aconselhou a voltar no outro dia para fazer uma ultra. Ok. Naquela mesma noite, o bebe mexeu muito, ate achei q era fome kkk.. Fui dormir confiante. No outro dia, como foi orientacao medica, fui ao ps fazer a ultra super feliz e alegre, confiante q estava td bem. Fiz a ultra e logo fui encaminhada ao medico ninguem me falava nda a angustia e o medo tomo conta.. Apos ser chamada na sala, a confirmaçao daquilo q meu coraçao tanto temia: o meu bebe ja nao tinha batimento cardíaco.

Foi um desespero e naquele msm dia fiquei no hospital para o procedimento. Na mesma tarde foi colocado um comprido as 15 hrs para dilataçao do utero. As hrs foram passando e a dor do parto veio a cada min mais forte e mais forte.. Quando foi as 22hrs, a enfermeira veio pra colocar o segundo comprimido e meu nenem estava la. Ele ja tinha saído. Nao quis ver, nao quis saber. O choro vinha a cada momento, a vontade que td aquilo fosse mentira. Mas era real, era meu maior pesadelo acontecendo. Em 5 min a medica veio ate o quarto, tirou o meu bebe e levou para o laboratório. No outro dia de manha, foi feito a curetagem e a noite recebi minha alta.

Nossa, como essa dor nao tem fim. Estava td indo tao bem. O que aconteceu com meu bebe? Estava td sendo tao planejado. Eu iria fazer uma ultra e ia ter ate achar revelação. Ia ser td tao lindo…

No dia 10/07, voltei ao medico para pegar o laudo da biopsia do meu bebe. La estava escrito q tive um infarto na placenta e meu bebe era um menino. Era meu Luan, era meu maior sonho de mae. Queria poder viver naquele mundo azul. Mas a vontade de Deus era outra. Estou confiante. Será que meu sonho se de ser Mae novamente irá se realizar? Ainda nao sei, só nos resta esperar… E essa dor q nao passa, sera que um dia vai passar?….

Hj tenho um anjinho q cuida de mim a cada momento. Sei q ele esta bem e eu tb vou ficar bem. Afinal, tenho uma filha q depende da minha força. Um dia, o meu Milagre vem do jeito mais lindo, do jeitinho que Deus quiser. Eu vou esperar…

Relato da mãe Mariana Costa Araujo

Minha carta de despedida

Ontem dormi radiante porque te veria hoje pela manhã, numa ultrassonografia. Eu sabia que daria pra ver mais formadinho, coração mais forte. Eu estava tranquila, sem dor ou sangramento. Eu tive muito medo no início da gestação, depois de todo o sofrimento com as fertilizações in vitro, mas com 8 semanas, eu sentia que a fase mais perigosa estava passando.

Hoje de manhã, eu te vi e ouvi seu coração forte, me enchendo de orgulho. Que felicidade. Tinha aparecido um pequeno hematoma, mas você parecia tão bem.
De tarde, fui a emergência buscar um atestado para repousar enquanto esperava esse hematoma curar. Na repetição da ultrassonografia, senti caindo num abismo: seu coraçãozinho estava parando. Ali, na minha frente, na tela da sala de exame, ele estava cada vez mais fraco.

Meu filho, te assistir ir embora foi a pior dor que já senti. Mas saiba que você foi esperado e amado todos os dias. Trouxe alegria e amor pra nossa casa com sua breve vida. Mas nunca te esquecerei. Deus sabe o motivo de ter te levado, e um dia nos encontraremos.

Te amo,
Da sua mamãe já com saudade,
Laura (Laura Magueli)

Letícia – nossa Alegria

Eu agradeço a Deus todas manifestações de força que venho recebendo neste um ano. Há um ano em 11/07 completei meus 30 anos, tão esperados 30. Meu dia amanheceu lindo e feliz, estava plenamente realizada nas minhas 32 semanas de gravidez. Meu dia não terminou da forma sonhada – na minha consulta de pré natal percebemos que nada estava bem e uma ecografia confirmou o que eu jamais queríamos acreditar: minha filha tinha morrido.

Bom tudo que se passou desde a confirmação da sua partida é vago – minha mente bloqueou. Lembro de termos implorado a Deus para ela viver. As horas que sucederam até o seu nascimento foram de muita dor e esperança, pois rezávamos e implorávamos a Deus um milagre que ao nascer ela chorasse e vivesse. Não foi o que aconteceu.

A previsão é de que, induzindo o parto prematuro, ela nascesse em alguns dias. Mas não, na manhã do dia 12/07, aniversário do papai Maikel, ela nasceu como um presente pra nós, sem vida, sem choro, uma sala de parto silenciosa, tudo que nenhuma mãe e pai planeja. Pudemos pegar, beijar o quanto deu, acariciar a nossa princesinha, mas não pudemos ficar com ela, aliás ela nem estava mais ali. Sabemos que ela ta no céu num lugar lindo muito melhor e que um dia vamos nos encontrar, mas não imagine ser fácil enterrar uma filha, tão amada, tão planejada e esperada.

Os dias foram passando em um misto de enorme saudade, saudade até do que não vivemos, raiva, pois em muito momentos me culpei, culpei o mundo e até a Deus. Nada disso trouxe paz. A paz veio vindo com as lembranças boas que ficaram, com a esperança de que a passagem da Letícia não poderia ter sido em vão.

Levamos mais de 7 meses investigando para então chegarmos ao diagnóstico de que a trombofilia causada pela SAAF em mim foi a causa – minha filha morreu e me salvou. Deveria ser o contrário e daria tudo para que tivesse sido assim, a ordem inversa da natureza é cruel.

De lá pra cá exige-se viver de outra forma, com outro significado.Nossa filha nos ensinou e continua a nos ensinar – temos um anjo no céu zelando por nós.

Então este ano ao completar 31 sou eu, mas diferente. Hoje é um dia especial 12/07 é a data dos meus dois amores, Pai e filha com mesma data de aniversário. Com um eu comemoro na Terra e a outra basta eu olhar pro céu. Comemorar aniversário pra nós dois é um pouco diferente agora. Os dias 11 e 12/07 nunca mais serão os mesmos em minha vida e do Maikel. Como ele me diz: acho que somos predestinados e quis Deus que nossos aniversários também ficassem marcados para sempre com a nossa anjinha Letícia. Passamos por uma tempestade e agora vamos atrás do nosso arco iris, a chegada de um novo ano pra nós é um novo cliclo, um recomeço.

“Quando a vida bater forte e a sua alma sangrar.
Quando esse mundo pesado lhe ferir, lhe esmagar.
É hora do recomeço. Recomece a lutar.
Quando tudo for escuro e nada iluminar.
Quando tudo for incerto e você só duvidar.
É hora do recomeço. Recomece a acreditar.
Quando a estrada for longa e seu corpo fraquejar.
Quando não houver caminho nem um lugar pra chegar.
É hora do recomeço. Recomece a caminhar.
Quando o mal for evidente e o amor se ocultar.
Quando o peito for vazio e o abraço faltar.
É hora do recomeço. Recomece a amar.
Quando você cair e ninguém lhe amparar.
Quando a força do que é ruim conseguir lhe derrubar.
É hora do recomeço. Recomece a levantar.
E quando a falta de esperança decidir lhe açoitar.
Se tudo que for real for difícil suportar.
É hora do recomeço. Recomece a sonhar.
É preciso de um final pra poder recomeçar.
Como é preciso cair pra poder se levantar.
Nem sempre engatar a ré significa voltar.
Remarque aquele encontro. Reconquiste um amor.
Reúna quem lhe quer bem. Reconforte um sofredor.
Reanime quem tá triste e reaprenda na dor.
Recomece! Se refaça! Relembre o que foi bom.
Reconstrua cada sonho. Redescubra algum dom.
Reaprenda quando errar. Rebole quando dançar.
E se um dia lá na frente, a vida der uma ré,
Recupere a sua fé, e recomece novamente.”

Bráulio Bessa

Relato da mãe Débora de Vargas Schütz

A narrativa de uma perda!

img_1717

Demorei um tempo em decidir escrever sobre a perda que tive. Talvez eu achasse que estivesse desmerecendo a dor de outras mulheres, como se a minha fosse pequena por eu ter dois filhos após o aborto. O que fez eu desejar compartilhar não foi apenas sentimento de luto, mas sim o medo, algo que muitas vezes suprimimos de nossa narrativa.

Medo de não conseguir engravidar novamente, medo de conseguir e perder novamente, o medo da espera. São tantos e são tão pessoais que enumerá-los é quase impossível.

A perda pode não ter me marcado enquanto aborto, apesar de eu lembrar da dor e sofrimento que senti quando não ouvi o coração batendo. O que me marcou foi o medo. O medo determinou todo o andamento da minha gestação posterior. Eu não consegui me conectar com o bebê no meu ventre porque a sombra da perda estava ali… Eu poderia perde-la a qualquer momento e queria me blindar da dor de amar aquela criança para ver esse desejo escorregar entre meus dedos.

Eu e meu companheiro estávamos decididos a ter nosso bebê. Oito meses depois, recebi os dois palitinhos do teste… Até chegar o fatídico dia 11 de setembro de 2012, o dia em que não ouvi um coração batendo, o dia que iniciou um sangramento, o dia que senti meus sonhos desabarem, assim como as torres gêmeas há mais de 1 década desabaram. Eu chorei minha dor. Eu chorei pela perda da ideia. Eu gritei pela espera. E eu fui ferida com aquela pergunta que os médicos pouco sensíveis adoram fazer: “O que você fez para provocar a perda?”. Eu não lembro a resposta que dei, mas acredito que deva ter sido tão enfática que o médico calou e não tornou a perguntar. Eu queria aquele bebê com tanta força que doeu ouvir a menção de que perde-lo foi minha culpa.

Ah… e aqueles que sabiam da perda vinham com o mesmo discurso que tanto conhecemos: “Você é jovem”, “Daqui a pouco vem outra criança”, desmerecendo minha dor por ter perdido tão cedo. E de fato engravidei rápido, sem tentar de fato, pois era 30 de outubro do mesmo ano que peguei um novo positivo. Eu não consegui ficar feliz. O meu luto durou minha gestação toda, em uma intensidade mais branda porém estava lá. Não porque eu não desejasse esse novo bebê, eu o desejava tanto que chegava a doer. Mas porque o luto e medo me faziam temer por esse bebê. Era quase uma relação de obsessão a cada nova fase, pesquisar e saber se estava tudo bem. A cada intercorrência fora do comum me fazia esperar o pior.

Era um alivio e felicidade saber que estava tudo bem, e dai a minha depressão – da qual trato faz alguns anos, batia à porta e me fazia ter certeza que eu não era merecedora daquela criança. Ela nasceu bem e o amor floresceu com a força que deveria ter.

Então minha perda determinou todo um percurso, aquele bebê não nascido que de tão pequeno era uma ideia, fortaleceu as sombras da minha mente. A perda em si é devastadora mas me preocupa mais é como lidamos com essa perda. Se eu pudesse dar um conselho a cada mãe que perdeu seu bebê seria para viver o luto para ele não se transformar em medo. Porque o luto entristece, nos derruba, porém ele diminui e nos acostumamos com a dor, talvez não com a saudade. Agora o medo… esse nos paralisa e impossibilita de vivermos com plenitude uma alegria pura e verdadeira.

Ao bebê que “não foi”, agradeço o aprendizado. Porque hoje consigo lidar com o medo muito melhor do que lidava antes. Foi uma lição longa e dolorida, mas aprendi, ainda que alguns anos depois.

Relato da mãe Daniella Talarico