DESSAS INTERRUPÇÕES

Parte I

Título da Publicação: A dádiva da vida

“O corpo diz o que as palavras não podem dizer. (Martha Graham)

Sempre me expressei melhor com o meu corpo do que com as palavras. Na maioria das vezes elas não são suficientes para expressar o que estou sentido. Mas aceitei o desafio pois eu realmente acredito que a causa valha a pena.

Me chamo Paola Zonta, sou bailarina, professora, coreógrafa e diretora de dança. Sou mulher, amiga, esposa, filha e mãe!

Na minha opinião, nós mulheres nascemos com um dom, que também é uma responsabilidade gigante, que se manifesta quase que por instinto desde muito cedo em nossas vidas. Desde criança ao pegarmos uma boneca, mesmo sem compreender muito bem qual o significado do gesto, nós a acomodamos nos braços e a fazemos ninar. Acredito que, por mais que algumas neguem, o desejo de ser mãe está presente em todas as mulheres. Para algumas, esse desejo demora em se manifestar, mas eu acredito que ele esteja, guardadinho em algum lugar. O meu estava gritando já fazia algum tempo.

Sempre acreditei me conhecer muito bem. Por trabalhar com o meu corpo, estar em constante contato com ele, eu sempre entendi os sinais que ele me dava. Logo, quando engravidei, a desconfiança surgiu extremamente cedo, quando comecei a sentir dor nos seios. Uma dor regular, constante e intensa. Depois veio o sono, demasiadamente exagerado. E por último, a fome. Comia tudo que via pela frente. Levei apenas três semanas para perceber as mudanças que estavam acontecendo, fiz as contas, e lembrei do aviso da minha médica: “você vai estar no período fértil nessa viagem”.

Ainda estava no prazo da minha menstruação, como pode? Era muito cedo para ter sintomas! Resolvi aguardar. A última semana de outubro de 2015 passou voando, na correria do dia-a-dia, com a agenda apertada de tantos compromissos, quando me dei conta, o mês já tinha virado e agora sim, de fato, eu estava atrasada. No quarto dia de atraso, antes de voltar para casa, passei na farmácia e comprei um teste. Após ler atentamente a bula, como se eu não soubesse como proceder, como se não tivesse feito dezenas deles nos últimos dois anos, optei por esperar a manhã seguinte e fazer o teste com a primeira urina da manhã, a mais recomendada. Acordei cedo e disparei para o banheiro com o coração acelerado. Aqueles 5 minutos não passavam nunca, 300 segundos de pura ansiedade. E ainda assim quando o tempo esgotou, tive medo de

olhar o pequeno bastão de plástico. Medo da frustração que já me era tão familiar, medo de que minha expectativa estivesse errada, e ao mesmo tempo, medo de que dessa vez fosse diferente.

E ali estavam, as duas linhas rosadas fortes o suficiente para não deixar dúvida. Peguei a bula novamente e li mais três vezes: uma linha – negativo; duas linhas – positivo; eu estava grávida! Automaticamente, minhas mãos foram em direção ao meu ventre e tive a incrível sensação de que minha barriga estava levemente mais saliente do que o habitual. Balancei a cabeça e sai rindo do banheiro.

Como uma mulher sensata que eu acreditava ser, sabia que antes de mais nada precisava de um exame de sangue. Mas como naquele dia eu trabalhava fora da cidade, ele teria que aguardar para o dia seguinte. Durante a manhã foi difícil me concentrar no trabalho, muita coisa passa pela cabeça de uma mulher quando ela descobre que está grávida. As dúvidas e os anseios de uma vida inteira te vêm à mente. De meio-dia consegui conversar por telefone com minha mãe, o que de fato ajudou, afinal, mãe é mãe.

Passei o que restava do meu horário de almoço pensando como faria para contar ao Ricardo a novidade, meu companheiro 12 anos. Primeiro pensei em esperar até o outro dia, para ter em mãos o resultado do exame de sangue, mas logo percebi que não ia aguentar, não tinha como chegar em casa à noite e fingir que estava tudo normal. Em seguida encaminhei para ele a foto que havia tirado mais cedo do “bastãozinho” com as duas faixas rosadas, mas a resposta dele foi: “?” Isso mesmo, um ponto de interrogação! Homens! Meio estressada com a falta de noção dele respondi: “Google”. E assim que apertei o enviar, me arrependi. Eu deveria ser mais delicada ao dar uma notícia dessas, mais romântica. Mas não existe um manual de “como contar a um homem que ele vai ser pai! ” Por fim, tive uma ideia.

Meia hora depois já tinha tomado todas as providências. Agora era só aguardar a reação dele. Eu mandara entregar em seu trabalho uma cesta com algumas flores, chocolates, velas aromatizantes e o mais importante, um sapatinho de bebê. No cartão dizia: “Parabéns! Você vai ser papai!

Passou uma, duas, três horas e nada. Nenhuma ligação, nenhuma mensagem. É estranha a velocidade com que somos capazes de gerar expectativa, e pior, como somos ainda mais rápidos em nos frustrar, quando a reação do outro não é aquela que estávamos esperando.

Cheguei em casa à noite frustrada comigo mesma e principalmente com ele. Logicamente que ele percebeu meu mau humor e sabia perfeitamente o motivo. Não lembro de suas palavras exatas, mas foi algo tipo: “Não se precipite meu amor, vamos primeiro fazer o exame de sangue, não cria expectativa antes de ter certeza. Mas eu tinha certeza! Essa foi a parte que ele não entendeu!

Na manhã seguinte fomos juntos ao laboratório fazer a coleta. O resultado sairia apenas às 14h e

como eu precisava viajar à trabalho naquela tarde, ele ficou encarregado de ir buscar o exame e me ligar. Já era 14:05 e nada do maldito telefone tocar! Não aguentei esperar e eu mesma liguei. Ele ficou cerca de 10 minutos me enrolando, dizendo que não tinha aberto, que não sabia ler o exame, inventou mil e uma desculpas, típico dele, até que por fim, sabendo que eu estava à beira de um ataque ele disse: “O que você quer saber mesmo?” Eu: “Se vamos ser papais!” Ele: Sim, vamos! Você está entre 4 e 6 semanas! Meu coração parecia que ia sair pela boca. Tudo bem que eu já sabia, mas ouvir ele falar foi emocionante demais. Era 06 de novembro, exatos 30 dias antes do meu aniversário de 29 anos e eu ia se mãe! E por esse motivo, foi mais um dia difícil de me concentrar no trabalho. Na verdade, parecia que nada mais importava, e apenas uma coisa merecia minha atenção, meu filho.

Ter o resultado do exame nas mãos desencadeou um dos sintomas que atormentam muitas mulheres durante a gestação, os enjoos. Eu tinha muito enjoo! Começou do nada, do dia para a noite comecei a ter nojo de coisas que sempre gostei… carne nem pensar. Estava cheia de cuidados, apesar das náuseas, nunca me alimentei tão bem. Sabe aquela coisa de fazer 6 refeições por dia? Pela primeira vez na vida eu estava fazendo isso! Estava sempre beliscando alguma coisa, tentava ficar menos em pé, mesmo que para uma professora de dança seja um tanto complicado, mas como sempre soube dos riscos da gestação nos 3 primeiros meses, eu não queria arriscar.

Eu e o Ricardo combinamos de não sair espalhando a notícia, nada de publicar na internet para todo mundo saber. Íamos esperar um pouco, aproveitar cada dia antes da barriga começar a aparecer e ter que dividir nosso “pequeno futuro” com todos os demais. Só as pessoas mais próximas sabiam. Porém, na minha profissão, e fazendo os ajustes que precisei fazer, logo os alunos começaram a perceber que eu estava diferente, começaram os questionamentos, e quando me dei conta, muita gente já sabia.

No dia 27 de novembro às 11:50 fiz minha primeira ultrassonografia endovaginal. O Ricardo não pode me acompanhar, então minha mãe foi comigo. Eu estava extremamente nervosa, mas quando vi aquela coisinha minúscula a piscar no monitor, tão pequena e já causando tanta mudança em mim e no meu corpo, foi algo mágico! Não consegui ouvir o coração porque segundo a médica era muito pequeno, media 5,4 mm, correspondente a 6 semanas e 2 dias com um desvio padrão de 7 dias para mais ou menos, mas piscava sem parar. É do tamanho de um grão de arroz” disse a médica. A partir daí comecei a chama-lo de “meu arrozinho”.

A minha vida estava uma correria, final de ano para quem trabalha com dança é uma loucura. Espetáculos de encerramento, muita coisa para resolver de última hora, mas eu ia me virando, sempre com muito cuidado, sempre me alimentando bem. Até fazia um soninho depois do almoço, quase todos os dias.

Passou o meu aniversário, passaram os compromissos profissionais. Dia 14 de dezembro tive a primeira consulta com minha médica. Já havia falado com ela por telefone inúmeras vezes, mas essa seria a primeira consulta da Paola já gestante. A consulta correu bem, ela me explicou que o ideal é fazer a primeira ultrassonografia entre a 8ª e a 10ª semana, nós fizemos antes por causa da data da minha última menstruação, que não batia com o período gestacional, então, ela pediu que eu fizesse uma nova ultrassonografia na semana seguinte para que pudéssemos escutar o batimento cardíaco e tirar essa dúvida do período gestacional. Sai do consultório com uma lista de coisas para comprar e também, com meu cartão pré-natal com a data do possível parto (DPP) 24 de julho de 2016.

A rotina de um casal muda quando “estamos grávidos”. Nossas conversas já tinham outro foco, tão pouco tempo e nosso pensamento já tinha mudado para muitas coisas. À noite, quando em casa, eu tinha que me cuidar o tempo todo senão Ricardo dizia: “olha o jeito que você senta” “olha o jeito que você levanta” “não deita de barriga para baixo”. Estava recebendo uma atenção que eu não estava acostumada, e eu estava adorando!

Lembro com clareza de uma noite que saímos jantar e o tema da conversa foi nome de crianças. Ele até puxou uma lista no celular de nome árabes, foi engraçadíssimo. Ricardo e suas ideias! A maioria das pessoas dizia que era menino, que tinha energia masculina, mas que se fosse menina ia ser forte e mandona! Nenhuma novidade para mim, puxaria a mãe! Mas a verdade é que eu não sabia, não tinha nenhum tipo de desejo nem de expectativa a esse respeito. Eu estava feliz de chamar de “meu arrozinho” e não me preocupava muito com o sexo.

No dia 21 de dezembro, fui para a segunda ultrassonografia, e dessa vez, ainda bem, o Ricardo conseguiu estar comigo. Não sei como teria sido caso ele não estivesse. Foram 46 dias de pura descoberta, e principalmente de muito amor! Mas como nem toda descoberta é boa, nesse dia receberíamos uma notícia nada agradável. A notícia que mudaria tudo!

Continua…

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Título: A dor imensurável

Eu logo percebi que o médico mexia demais no aparelho, percebi que o “meu arrozinho” não piscava como da outra vez. No entanto a gente nunca imagina o pior, na verdade, acredito que a gente sente, mas não quer de fato acreditar! Eu havia me sentido estranha alguns dias antes, até comentei com o Ricardo: “Estou me sentindo estranha”. Ele: “Estranha como? Eu: “Ah, não sei, diferente de como eu estava me sentindo”. Hoje, quando paro para pensar sobre isso, talvez aquele momento tenha sido o meu sexto sentido me dizendo “Paola, alguma coisa está errada”, mas como fisicamente eu não sentia nada, não dei bola. E eis que estávamos os dois ali, aguardando o parecer médico, que não parava de fazer perguntas para a assistente, que por sua vez não parava de olhar para a ultrassonografia anterior. Por fim ele me olhou e disse: “Não tenho boas notícias. Ele nem precisava continuar, poderia ter parado por ali. Eu queria sair correndo, queria sumir, queria que aquela maca me engolisse, não queria ouvir mais nada, mas ele continuou: “Infelizmente o embrião está sem vitalidade.

A gente ouve falar sobre abortos, mas quando é com a gente é totalmente diferente. Só quem passa sabe! Não tem explicação! Saímos os dois da clínica em silêncio, não havia palavra a ser dita. Apenas silêncio. Assim como o coração do meu filho, silêncio.

De mãos dadas fomos caminhando as poucas quadras até o trabalho dele. Eu não lembro o que veio depois. Se não estou enganada, fui à casa de minha mãe dar a má notícia, mas não tenho certeza. Lembro pouquíssimas coisas dos dias seguintes. Lembro de ir comer sushi, já que grávida eu não podia. Lembro de tomar cerveja, já que grávida eu não podia. Lembro de ler três livros aquela semana, embora eu não lembre das histórias. Era quase como se não tivesse acontecido. Para quem olhava de fora, podia até parecer que eu estava feliz por ter acontecido, já que estava aproveitando para fazer tudo que grávida eu não podia. Mais tarde, na psicoterapia fui entender que eu estava em choque e que aquela era uma maneira de fugir da minha realidade, de não pensar no que tinha acontecido, no que estava acontecendo.

O “meu arrozinho” parou de se desenvolver na 6ª semana, talvez no mesmo dia da primeira ultrassonografia. Eu já estava na 9ª semana. Como pude não sentir nada? Porque não tive nenhum sintoma? Nenhum sangramento? Porque meus enjoos continuavam? Três semanas eu fiquei com meu filho morto dentro de mim sem perceber! O primeiro sentimento quando “caiu a ficha” foi culpa. Impossível não sentir culpa. Foi aquele dia. Aquele movimento. Aquela aula. Eu deveria ter me cuidado mais. Eu deveria ter feito aquilo. Não ter feito aquilo. É uma culpa esmagadora!

A minha médica achou melhor esperar mais duas semanas para ver se ocorria o aborto espontâneo, se meu corpo “expelia”, essa foi a palavra usada. Resumindo, eu passei o natal e a

virada de ano, que deveriam ser muito especiais para nós, tendo meu filho dentro de mim sem vida.

Foi aí que começaram as lágrimas. Foi nesse momento que eu comecei a entender a minha realidade. Aí que os dias voltaram a acontecer, mas eles passavam em câmera lenta. Eu queria que fossem mais rápidos e quanto mais eu desejava que tudo acabasse de uma vez, mais lentos os dias ficavam.

Raiva. O segundo sentimento foi raiva. O meu corpo havia me traído! Eu sempre confiei nele, eu conhecia ele, porque ele fez isso comigo? Porque não mandou um sinal? E agora, porque ele não “expelia” meu filho? Qual o problema? O ano virou e as pessoas encontravam-se na expectativa com a chegada desse novo ano. E eu? Eu havia perdido todas as expectativas! Nada mais importava!

Dia 04 de janeiro liguei para minha médica comunicando que não havia ocorrido o aborto espontâneo, nem sinal, nem uma única gota de sangue. Marcamos de nos encontrar no hospital no dia seguinte, em jejum, para o procedimento de curetagem. Minha mãe foi comigo, eu me sentia mais forte tendo ela perto de mim.

Foram horas de espera. Primeiro a médica que não chegou no horário marcado. Depois, precisei aguardar um encaixe na ultrassonografia para confirmar que estava tudo lá ainda. Então, tive que esperar a médica voltar do seu almoço, olhar o exame e dar seu aval para que prosseguíssemos com a preparação para o procedimento. Foi um dia inteiro de hospital. Na hora do procedimento, estava tão fora de mim que nem meu tipo sanguíneo eu soube dizer, e eles precisaram fazer o teste na hora. Recebi a anestesia geral e não vi mais nada.

Quando acordei da anestesia, já na sala de recuperação, um sentimento de vazio tomou conta de mim. Me sentia uma casca seca, oca por dentro! Eu não tinha forças para ficar acordada, ou, eu não queria ficar acordada, não sei! Os enfermeiros falaram que eu passei bastante mal, vomitei muito, tiveram que me dar remédio para cessar o vômito o que proporcionou mais sonolência ainda. Eram quase 21h quando finalmente consegui me manter acordada, tomar a sopinha do hospital, ir ao banheiro e então receber alta. Ricardo já me aguardava apreensivo. Passamos na farmácia pegar alguns remédios e seguimos para casa. Eu só queria chegar em casa. Queria dormir e esquecer tudo. Como se fosse possível!

Recebi muitas ligações e algumas visitas. As pessoas se preocupam conosco, com nossa saúde física e mental, querem saber como você está, querem ajudar. E a gente de fato precisa de ajuda! Mas o fato é que as pessoas não sabem como ajudar, nem a gente sabe como receber a ajuda. A verdade é que as palavras não bastam, não preenchem o vazio. Frases do tipo “você é jovem, logo engravida de novo ouo feto deveria ter algum problema, foi melhor assim” elas não ajudam!

Na hora, nós mesmos tentamos nos convencer de que isso é verdade! Mas conforme os dias

vão passando aquilo que deveria consolar se torna algo dolorido demais. Piora ao invés de melhorar a situação. A triste realidade é que as pessoas não sabem como lidar conosco, nem os médicos sabem, e tampouco nós sabemos.

Era janeiro, eu estava de férias, mas em casa, por causa do atestado médico. Tínhamos uma viagem programada que teve que ser cancelada. Para não ficar 100% do meu tempo trancada dentro de casa eu procurava sair, fui visitar alguns parentes, alguns amigos, a fim de ocupar meu tempo, evitando ficar sozinha e me lamentado demais.

Do nada, às vezes me pegava chorando, eu nem percebia como começava. Quando me dava conta lá estavam as lágrimas. Lembro-me de assistir o capítulo final de um seriado que gostávamos bastante, terminei chorando porque de fato foi bem emocionante, mas depois eu não conseguia mais parar de chorar. As lágrimas que iniciaram pelos personagens fictícios cessaram e deram espaço as minhas próprias lágrimas, ao meu próprio sofrimento.

Começaram as insônias, deitar na cama era um martírio. O sono levava horas para chegar. Várias noites eu chorava baixinho com o rosto enfiado no travesseiro para não acordar o Ricardo. Às vezes eu chorava de ódio por não conseguir dormir. E às vezes as lembranças me viam à mente e eu chorava de tristeza mesmo. No início eu tinha vergonha de chorar, principalmente na frente das pessoas, me parecia uma fraqueza, e como todos estavam o tempo todo a dizer que eu era forte, e eu queria de fato ser, não queria demonstrar fraqueza, por mais que me sentisse extremamente fraca, por mais que tivesse vontade de gritar: “Eu não quero ser forte!Chega de ser forte! “Já fui forte por tempo demais! Com o tempo, eu descobri que chorar ajudava, aliviava. Então, quando as lágrimas vinham eu deixava elas livres a transbordar pelos meus olhos, sem medo, sem vergonha, sem limites.

Já tinham se passado 17 dias da curetagem quando começou o sangramento. No princípio pensei que já fosse o primeiro ciclo menstrual pós gestação, mas quando a intensidade do sangramento aumentou muito além do que eu estava acostumada, comecei a ficar preocupada. Tentei falar com minha médica, mas não consegui. Fui para o pronto socorro, expliquei tudo desde o início e fui liberada com a receita médica de um medicamento que deveria diminuir o sangramento, um desses remédios que são receitados após cirurgias para evitar hemorragia. Naquela noite minha médica retornou minha ligação e pediu que eu dobrasse a dose do medicamento que haviam me receitado. O sangramento diminuiu um pouco no dia seguinte e eu fiquei aliviada.

Naquele mesmo dia, à noite, saímos jantar com um casal de amigos e quando levantamos para pagar a conta eu senti algo descer, foi uma sensação horrível. Corri para o banheiro e um coágulo de sangue do tamanho de um ovo de galinha tinha saído de dentro de mim. Eu fiquei ali um tempo, sentada e olhando para aquilo tentando entender, mas não consegui.

Devo ter saído pálida do banheiro porque a cara do Ricardo ao me ver foi de pura preocupação.

Consegui falar com minha médica que me mandou fazer uma ultrassonografia. Meu útero estava cheio de “sujeira“. Logicamente que culpei minha médica. O que ela tinha feito de errado? Porque não tirou tudo que precisava? Depois, quando estive pessoalmente com ela para lhe mostrar o exame, ela me explicou que quando se trata de uma curetagem de primeira gestação, o procedimento padrão é apenas retirar o saco gestacional que abriga o feto, e meu corpo deveria expelir o resto. O que mais uma vez não aconteceu. Ou seja, mais uma vez o problema sou eu! Porque meu corpo não tem a capacidade de expelir as coisas? Essa história toda estava me cansando, parecia que conforme eu ia me recuperando, aparecia um novo problema, mais uma notícia ruim para me puxar para baixo.

A médica deixou claro que meu útero precisava ficar limpo, tudo aquilo precisava sair, e que se não saísse naturalmente eu precisaria de uma nova curetagem, e dessa vez seria necessário fazer a raspagem completa, e que isso apresenta um risco maior, pois poderia machucar meu útero, me impedindo de ter outros filhos.

Espera aí? É isso mesmo que eu estou ouvindo? Acabei de perder um filho, e corro o risco de nunca mais poder engravidar? É isso mesmo? Saí do consultório em pânico, com uma receita para um medicamento que poderia me ajudar, mas que a médica não sabia se eu iria encontrar. Fui em todas as farmácias da cidade e não encontrei. O medicamento não é mais vendido já há algum tempo. Comecei a apelar para os chazinhos das vovós. Procurei na internet todos os possíveis chás abortivos que vocês possam imaginar. E tomei todos eles! Uma mistura pior do que a outra. Tentei de tudo! Eu não queria de jeito nenhum fazer uma segunda curetagem.

Algumas pessoas me diziam que era eu que estava retendo, que inconscientemente eu não queria que saísse, eu estava segurando. Ou seja, a culpa era minha. De novo! Muito bem minha gente, vocês conseguiram me deixar ainda pior!

O Ricardo foi a pessoa que mais ajudou. Várias vezes ele apenas me abrigava em seus braços e cuidava de mim, não dizia muita coisa, mas estava sempre ali. O olhar de apreensão dele com meu desespero em certos momentos, era algo que doía. E eu sentia que ele queria poder ajudar mais, mas que não sabia como fazer. Hoje analisando, me sinto um pouco egoísta, porque a perda não era só minha, era dele também, mas eu não conseguia enxergar além da minha própria dor.

Continua…

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Título: O recomeço

A psicoterapia ajudou muito. As sessões semanais me faziam entender que por mais que queiramos, não temos controle sobre tudo. Me fez aprender a olhar para o outro lado das coisas. Não eram só coisas ruins que estavam a acontecer. Por mais estranho que possa parecer para algumas pessoas, muita coisa boa veio junto com a perda.

Os dias que seguiram foram da total incompreensão à aceitação. Aceitei que teria que fazer uma nova curetagem. Aceitei que eu iria ter que esperar mais um tempo para poder ter um filho nos braços. Aceitei o que tinha acontecido como uma forma de amadurecimento pessoal. Compreendi que cada coisa tem seu tempo. E que embora meu filho tenha vindo e não tenha ficado, isso não faz de mim uma pessoa ruim, ou menos digna de ser mãe. Pelo contrário, esse filho veio para me mostrar como o amor de mãe é incondicional. A dor não passa, e eu sei que ela nunca vai passar, ela está ali, no cantinho dela. A gente se obriga a aprender a conviver com ela, e cada dia fica mais fácil. Cada vez que contamos para alguém nossa história fica mais fácil de falar. E precisamos fazer isso, por nós e pelos nossos filhos que não ficaram, em memória a eles e ao amor que sentimos mesmo eles não estando aqui conosco.

Uma amiga passou um tempão me dizendo que eu precisava ressignificar a minha perda. E eu confesso que demorei para entender como fazer isso. Então, um outro amigo artista, me disse: “Paola saiu o edital das linguagens* e eu acho que você deveria escrever um projeto. Naquele momento eu entendi de que maneira eu iria ressignificar a minha perda. Resolvi que era o momento de dar voz a minha dor e ao meu amor. Resolvi que gritaria ao mundo a minha história e quem sabe, através dela, ajudaria outras mulheres e outras famílias a passarem por suas perdas.

Com a ajuda de muita gente eu consegui escrever o projeto que se trata da montagem de um espetáculo solo de dança intitulado “Dessas Interrupções”. A ideia do espetáculo é expressar através da dança momentos da gravidez, o dom de gerar vida e as múltiplas conotações acerca do aborto espontâneo. O debate diante do tema aborto é amplo, pois é um assunto cercado de questões de cunho ético, moral, cultural e religioso, que geralmente se sobressaem à discussão sobre o papel da mulher em meio a todo esse panorama, o turbilhão de sentimentos que cada gestante sente de maneira única ao confirmar que está grávida e posteriormente, a notícia de um aborto.

Falar sobre a perda de um bebê ainda é um tabu cultural na nossa sociedade. Ninguém quer falar sobre isso, mas ao mesmo tempo, as mulheres que passam por tal situação precisam saber que não são as únicas com essa dor e principalmente, que não estão sozinhas. As pessoas não compreendem porque choramos por um bebê que não nasceu. O silêncio que permeia o tópico causa muita dor psicológica para a mulher, porque não podemos sofrer de forma aberta e própria.

Por isso, nos sentimos completamente à margem do processo de luto.

Quem passa por isso, sente e vive as inúmeras emoções e sensações desse momento difícil, mas que traz consigo a oportunidade de evolução, de instruir-se. Eu pretendo compartilhar não só a minha experiência, como a de tantas outras mulheres, expressando na arte da dança, os múltiplos sentidos que envolvem o momento de concepção da vida e o aborto espontâneo.

Eu convido vocês a acompanharem através dessa coluna aqui no blog Do Luto à Luta todo o processo de pesquisa e produção do espetáculo. Estarei relatando mensalmente o andamento do trabalho, as facilidades e dificuldades, as entrevistas com outras mulheres e profissionais engajados na nossa causa, as discussões com meu diretor e o desenrolar da concepção coreográfica. Trarei além dos relatos escritos, fotos e vídeos para que vocês possam se sentir mais próximos e também para que possam dar suas contribuições a fim de um resultado final que possa realmente contribuir com nossa causa!

Até breve, Paola Zonta.

*Nota: A Prefeitura Municipal de Chapecó através da Secretaria de Cultura, do Fundo Municipal de Cultura e do Conselho Municipal de Política Cultural dispõe de concurso público denominado Edital das Linguagens, que é um edital municipal de fomento e circulação das linguagens artísticas do município. O projeto Montagem do espetáculo solo de dança “Dessas Interrupções” foi contemplado no Edital das Linguagens 2015 para execução no ano de 2016.

Tirada com Lumia Selfie
Tirada com Lumia Selfie

 Título: Iniciada a travessia

Já estava com saudades de conversar com vocês e adianto que muita coisa aconteceu desde a minha última publicação. A produção do espetáculo Dessas Interrupções saiu da minha cabeça, da tela do meu computador e começou a ganhar vida. Ele está agora ganhando meu corpo!

Após a aprovação do meu projeto, eu dei início ao processo de pesquisa para o espetáculo. Precisei pesquisar muito, pois eu pouco sabia sobre o assunto, ainda sei pouquíssimo, por isso estou constantemente buscando mais e mais informações. O meu referencial era a minha própria experiência, mas eu quero mais do que isso para o espetáculo. A minha vida diz respeito a mim, a obra que eu produzir diz respeito a uma coletividade. Quando a luz do palco ascender, eu não quero ser apenas a Paola, quero ser as Marias, as Joanas, e as Carolinas... Quero que todas as pessoas que estiverem na plateia e que passaram por uma perda similar se identifiquem e se vejam em mim e através de mim. Aos que não passaram, que possam compreender um pouco mais os conflitos físicos e emocionais pelos quais passamos.

Uma das primeiras coisas que fiz após sair o resultado do edital foi publicar em meu perfil do Facebook uma nota de agradecimento dizendo que meu projeto havia sido aprovado e que eu buscava mulheres que estivessem dispostas a dividir suas histórias comigo. Em respeito a elas a identidade de todas seria mantida em sigilo. Até o presente momento eu não tinha conhecimento do grupo de apoio Do Luto à Luta. Uma ou outra pessoa do meu convívio digital se manifestou, para essas poucas, eu enviei o projeto explicando todos os detalhes e pedindo se a pessoa queria de fato participar. Algumas me retornaram, outras não.

Uma amiga escreveu: “Entra em contato com a Flavia Camargo, acredito que ela poderá te ajudar”. E assim eu fiz. Flavia foi super receptiva comigo, e foi ela quem me indicou o Do Luto à Luta. Enviei no mesmo dia meu projeto para o e-mail do grupo e a resposta veio mais rápida e muito mais empolgante do que eu poderia ter imaginado. Em poucos dias eu já havia conversado por Skype tanto com a Flavia quanto com a Larissa Rocha Lupi, e foi ótimo. Elas me deram um norte! Por terem passado pela experiência e por estarem focadas nessa causa tão nobre tanto tempo, elas conseguiram me dar uma direção, e então o processo começou a se desenrolar.

Comprei livros, assisti documentários, li artigos, e o maior número possíveis de relatos do blog. Sempre tinha comigo um bloco de anotações e as coisas que mais me chamavam a atenção eram anotadas, às vezes era uma frase, ou então um sentimento, e por vezes uma analogia. Os livros, estão todos marcados, com meu pincel marca texto verde limão, e com minhas lágrimas, pois em muitos momentos era impossível contê-las.

Comecei a entrevistar as mulheres que se dispuseram a me ajudar, algumas consegui fazer pessoalmente, olho no olho, outras fiz por Skype, ou por WhatsApp. Achei engraçado o fato de que quando a pessoa realmente tem interesse, quer ajudar – ou ser ajudada, pois eu descobri mais tarde que essa era de fato uma faca de dois gumes – não importa o meio utilizado, a coisa acontece. E confesso que me surpreendi com o número de pessoas que não desejam, não gostam, ou não conseguem falar sobre.

Conforme me inteirava do assunto, percebia como muitas situações se repetiam, inclusive os sentimentos se repetiam. Me identifiquei com muitas histórias, me comovi diversas vezes e sentia uma vontade louca de abraçar cada uma dessas mulheres.

Lembro-me com clareza de algumas passagens que com certeza estarão presentes no

espetáculo. Em determinado momento, entrevistando uma mulher de 40 anos, que teve sua primeira filha aos 30, um aborto aos 34 e depois um terceiro filho, surpreendeu-me quando após aproximadamente 2 horas de conversa ela levantou, me deu um abraço e disse: “Muito obrigada”. Eu fiquei meio confusa e disse: “Obrigada você por ter se disposto a colaborar com meu projeto”. Sua resposta foi: “Obrigada por você ter me ouvido… 6 anos se passaram e eu nunca falei sobre isso, nem mesmo com minha família, as pessoas não querem saber, e eu sentia muita necessidade de falar!” Foi nesse momento que eu percebi a importância do que eu estava fazendo, o quanto realmente precisamos quebrar o silêncio, dar voz a nossa dor, fazer com que as pessoas entendam e aceitem o nosso luto.

O convite para ser colunista do blog Do Luta à Luta foi uma surpresa para mim, eu não almejava isso, apenas buscava ajuda para elaboração do meu espetáculo. A ideia de dividir o processo de criação de um trabalho novo, íntimo, e tão desafiador para mim, me deixou extremamente ansiosa. Não sou escritora, não tenho o dom das palavras, escrevo sim de vez em quando, mas porque gosto de registrar alguns momentos da minha vida, e só, nada além disso.

Atualmente eu tenho em mãos uma quantidade enorme de material, e agora darei início ao processo criativo, o desafio maior que é transformar todos esses relatos, todas essas palavras, esses sentimentos, em movimento, em dança. Às vezes me pego pensando no tamanho da responsabilidade que tenho em mãos... O quanto esse projeto já não é mais meu, é do mundo! E quando penso nisso, se torna quase impossível não sentir um frio na barriga!

No nosso próximo encontro vocês conhecerão o meu diretor e já terão acesso ao início do processo coreográfico.

Até lá, Paola Zonta.

Foto: Em visita ao Rio de Janeiro em Julho desse ano tive o prazer de conhecer a idealizadora do grupo de apoio Do Luto à Luta: Apoio à Perda Gestacional e Neonatal Larissa Rocha Lupimomento esse que não poderíamos ter esquecido de registrar.

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