Carta para o Dan….

Meu amor…

Há 1 ano mamãe achava que estava vivendo o momento mais difícil da vida dela, a dor mais dilacerante, o momento em que questionamos Deus e falamos que não é justo passar por tamanha provação. Doeu. Muito. Doi. Muito. Todos os dias. Mas hoje, apesar da dor e do choro, enxergo a maior lição de amor que você me deixou.

Nossa despedida, se é que tivemos uma, não começou no derradeiro dia 25 de julho… Mas no dia 24. Naquele final de semana você cansou a mamãe. Cansou porque dali uma semana faríamos o nosso Chá de Bebê, e confesso (e seu papai disso isso: “Um barrigão daquele andando no Alecrim…..”) foi cansativo procurar cada detalhe. Mas foi deliciosamente cansativo. Um cansaço de alegria e ansiedade. De vontade de te ver chegando logo.

Você sabe que mamãe não lida bem com perdas, não gosto. E te perder? E pior, saber que estava te perdendo? Nunca! Isso eu não aguentaria! Te sentir indo embora? Me despedir aos pouquinhos? Eu enlouqueceria! E ninguém conheceu a mamãe como você. Por 33 semanas e 4 dias fomos um so. Somente você sabia meus medos, minhas ansiedades. E eu te conhecia em detalhes antes de qualquer um. E você sabia tanto, me amava tanto, que cuidou direitinho de mim. Invertemos os papéis. Você cuidou de mim! Se despediu de todos ao longo do dia sem que soubéssemos. Às 21h30 mandou a mamãe para a cama, num cansaço absurdo, num sono poucas vezes visto… Brincamos ali pela última vez! Nos despedimos. Demos “Boa noite”… para o que imaginava ser apenas mais uma noite!

Às 5h do dia 25 de julho, quando pela primeira vez nos últimos 4 meses acordei “depois de você”, me senti sem chão. Uma dor no peito, uma falta de ar. Mas não era físico. Era na alma. Acordei e te procurei. Onde você estava? Ainda dormia? Tentei te acordar: caminhadas, água, comida… Nada! Eu já sabia! Uma mãe sempre sabe. Você tinha ido embora!

No hospital, exames, ultras…aquele silêncio… Sem batimentos. Óbito fetal. Nosso choro ecoava naqueles corredores. Médicos, enfermeiras e técnicas se olhavam…e nos olhavam.. Ali era lugar de vida. Eles deveriam, mas não sabiam lidar com a morte.

Passamos mais 4 horas e meia juntos. Não me lembro como. Para mim, foram minutos. Tanta gente ali. Tanto carinho e amor, alternados pela perplexidade com o que havia acontecido.

Apesar de tudo, eu sabia que viveríamos mais algumas provações. Uma sala de parto, uma gestante e o silêncio.  Um quarto, um pós operatório de uma cesárea e o silêncio. Sair daquele hospital sem você nos braços, sabendo que você havia saído em um caixãozinho branco. Isso eu esperei. Esperei o primeiro dia dos pais, das mães, das crianças, natal, meu aniversário, seu, do papai….. Mas descobri, na marra, o quanto o mundo é cruel.

Você tinha/tem nome. Mas na sua certidão tive que aceitar um frio “Natimorto”. Você existiu e existe, mas uma simples declaração sócio – econômica reduz a “Filhos? Sim? Nao? Idade?”

As provações são diárias. Ainda evito lugares, pessoas, ainda leio textos, ainda tenho pesadelos, ainda me desespero, ainda busco entender, ainda tenho vontade de fugir quando me perguntam por você…. Ainda não aprendi a ser eu sem você.

E acho que esse “Ainda” será para sempre meu companheiro, porque perder um filho é, de verdade, perder uma parte de você. E ninguém se refaz disso. Se aprende a conviver, mas a lembrança sempre estará ali: Viva. Porque ali existiu e existe amor. E você, meu amor maior do mundo, me deu a maior de todas as lições de amor: Você, meu filho, cuidou de nós até o último segundo, foi nosso herói, se despediu sem que soubéssemos. Isso é amor. Amor de mãe/pai/filho.

À Deus, por quem tanto roguei ao longo desses 365 dias, peço forças nos momentos de desespero, eles se tornaram parte de mim,  me derrubaram e me levantaram ao longo desse primeiro ano.

À você, meu filho, sonhamos todos os dias com o dia em que vamos nos conhecer!

Te amamos! Pra sempre!

Mamãe e Papai

Relato enviado pela mãe Mayara Acipreste

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Um comentário em “Carta para o Dan….

  1. Ô Mayara… tanta dor… tanto sofrimento. Impossível não chorar lendo suas palavras!
    Muitos dos relatos que leio aqui me fazem pensar que poderiam ter sido escritos por mim. Mas ainda não consegui colocar em palavras a minha tristeza. Já faz um ano e quarentena e um dias que meu filho se foi. Um dia conseguirei escrever para ele.

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