Do ventre para o coração

Trechos do relato da co-autora do livro “Histórias de Amor na perda gestacional e neonatal”- Cynara Brito
“A maternidade nunca fez parte dos meus anseios; nunca pensei em ter filhos e nunca me vi como mãe. Mas, aos 36 anos, a vida me surpreendeu: eu fiquei grávida. Descobri com cinco semanas de gestação, comuniquei ao meu psiquiatra e ele suspendeu toda a medicação que eu estava tomando, pois fui diagnosticada portadora de transtorno bipolar e vinha fazendo tratamento desde 2004.
…Com 23 semanas, fiz a ecografia morfológica. Estava ansiosa para saber o sexo, mas recebi notícias que poucas mães estão preparadas para receber: minha filhinha tinha defeitos considerados pela medicina como incompatíveis com a vida… Alertaram-me que ela corria o risco de morrer de três maneiras: dentro do útero – antes da gravidez chegar ao fim –, durante o parto ou horas após o parto. Eu tinha que me preparar para o pior, pois com a quantidade de problemas, ela não tinha chances.
…Depois de alguns dias, decidi que não podia viver um luto onde não existia; minha bambina estava viva e saltitante dentro de mim, e a partir daquele instante consegui dormir mais tranquila e conduzir a gravidez com dignidade. Melissa estava apenas começando a me introduzir uma gama de ensinamentos, quando finalmente meu momento de amadurecer havia chegado, e eu decidi agarrar a oportunidade.
…A dúvida, o medo, a impotência e a tristeza eram minhas constantes companheiras. Nunca na vida eu senti tanta solidão, por mais que estivesse cercada pela família e amigos. Aquela era uma situação solitária, aquele momento pertencia somente à minha filha e a mim. Foi um momento difícil, uma angústia tão cruel, que eu tinha a impressão de que nem a mão de Deus conseguiria me alcançar. Eu conversava muito com ela, dava carinho, dizia que era amada e querida. Ela era muito receptiva, mexia-se bastante e adorava a hora das refeições. As semanas avançavam e a expectativa me dominava. Crescia no meu coração a esperança de conhecê-la com vida. Ela estava lutando dentro de mim.
…No dia 30 de junho de 2015, faltando três dias para completarem 39 semanas de gestação, eu acordei e percebi que ela estava imóvel, achei estranho e estimulei a barriga de todas as formas, mas não havia movimentação. No hospital, foi constatado o óbito fetal e, embora eu estivesse preparada para aquele acontecimento, chorei muito. No ato da internação recebi uma camisola e, quando me despi, não contive o choro e desabei mais ainda ao ver minha barriga refletida no espelho. A jornada terrena da minha pequena havia se encerrado.
As médicas tiveram todo um cuidado comigo; não queriam me submeter a uma cesariana, pois seria uma recuperação lenta, dolorosa e talvez traumática. Foram 24 horas de indução de parto. Quando eu já não aguentava mais, chamei a obstetra, ela fez o toque e eu estava com nove centímetros de dilatação, ou seja, já se aproximava o momento de conhecer minha filhota. Antes do parto, veio ao meu leito a Dra. Manuela e perguntou se eu queria conhecer a bebê, eu disse que entendia que as mães não quisessem ver os filhos já sem vida, mas se eu não a conhecesse seria como se a estivesse rejeitando. Disse que precisava recebê-la nos braços. A obstetra começou a chorar, secou as lágrimas e pediu desculpas, dizendo estar muito emocionada. Ela disse que Mel havia cumprido sua missão e eu não pude deixar de concordar.
Não fui para o centro cirúrgico; toda a equipe se deslocou até meu quarto e o parto aconteceu ali mesmo. Parto humanizado, com três obstetras, uma enfermeira e uma doula maravilhosa – todas foram extremamente carinhosas comigo. Entre uma contração e outra, nós conversávamos e eu agradeci a elas pelo bem que estavam fazendo a mim. Pari sentada na banqueta com uma força que só poderia vir de Deus. Uma hora depois, minha guerreira saiu do meu ventre direto para os meus braços. Ela media 48 cm e pesava quase três quilos. O parto foi tranquilo, sem episiotomia; não tive laceração, nem levei pontos. A equipe deixou o quarto e disseram que eu poderia ficar com ela o tempo que eu quisesse. Foi sublime. Ficamos juntas por meia hora. Com ela no colo, eu fiz uma prece, conversei, declarei meu amor, acariciei o corpinho e chorei. Aquele era o nosso momento. Eu senti uma paz enorme me invadir e naquele instante, eu pensei: “Fiz o que pude”.
…A gravidez mexeu comigo. Ela com certeza é um anjo que Deus enviou para me fazer enxergar coisas que estavam ofuscadas. Melissa me fez viver novamente, ela me salvou e me transformou em gente. Deus me deu um presente e eu devolvi a Ele. No início da gestação, eu achava que tinha muito a ensinar a ela, mas descobri que a aprendiz era eu. Ela me ensinou, em nove meses, coisas que eu levaria uma vida inteira para aprender. Foram 256 dias de amor, ensinamentos e paciência. Ela me amou e eu a amei mais do que tudo. Ela me ensinou a ter fé, a confiar em Deus e depender Dele. Ela me mostrou que na vida as coisas nem sempre são como desejamos.
Se me fosse dada uma oportunidade de voltar atrás, eu voltaria e faria tudo outra vez. Ela é sem dúvida a melhor pessoa que já conheci. Agradeço a Deus por ter tido a oportunidade de conviver com um de seus anjos. Ela abençoou meu ventre e nunca mais serei a mesma. Os laços que nos unem nunca se romperão e minha existência será plena
de felicidade, pois de onde ela estiver estará zelando pela minha vida. A saudade é enorme, mas o amor é maior.”
Trechos do relato da co-autora do livro “Histórias de Amor na perda gestacional e neonatal”- Cynara Brito
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