O dia em que o enxoval novo vai morar no brechó

 

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Hoje lembrei de Hemingway “Vende-se: sapatinhos de bebê nunca usados”

Há três anos resolvi que queria ser mãe. Engravidar nunca tinha sido o desejo, mas um dia a vontade chegou. Talvez seja o relógio biológico aos quase quarenta.

Como quase toda mulher olhei umas roupinhas. Um macacão vermelho para dar sorte. Um conjunto de sapo tão fofo. Uns dias depois um body, aliás, porque não dois? Com algumas semanas estava navegando na internet checando o enxoval básico. Comprei uma chupeta com termômetro rosa e um termômetro de testa azul. Quem será que vai vir, não é mesmo?

Outras semanas e mais uma visita na loja. Outro macacão, mais um conjunto de leão e um de girafa. Vantagem de resolver ser mãe mais velha: posso comprar sem pedir para ninguém!

Uma caixa de enxoval e a menstruação ainda insistia em vir todo mês.

Mudamos de casa e carregamos a caixa. Com dois anos já eram duas caixas de enxoval.

Parei de comprar roupinhas do mesmo modo que parei de controlar o ciclo menstrual.

Com três anos de tentativas e cansada de ouvir “uma hora vai dar certo” resolvemos como um casal que as roupinhas precisavam de uma criança. Aliás, como deveria ter sido desde o começo.

Hoje foi o dia do brechó. Curiosamente chamado O leãozinho, igual a roupinha que comprei.

As duas caixas de roupas foram avaliadas cuidadosamente pela funcionária simpática. Uma a uma. Demoradamente, talvez tempo demais para eu observar cada peça e lembrar da história.

– São novas? Sim, estão com as etiquetas.

– Nunca usou. Não…

O silêncio invadiu o brechó.

Eu e meu esposo demos as mãos. Perguntamos um ao outro se estava tudo bem. Estava quase t-u-d-o bem. Não era esse o plano quando cada uma daquelas peças chegou em casa, mas era o que tínhamos agora.

A funcionária simpática passa o valor. Aceitamos.

Ela sai para buscar o dinheiro e volta com olho vermelho. Disse que não iria perguntar o motivo da venda de tudo aquilo sem uso, mas só de pensar a história, não deu conta… Ela chorava. E muito.

Eu abracei a funcionária, disse que estava bem. Ninguém nasceu. Resolvemos que aquelas roupinhas lindas e desejadas precisavam de uma criança.

Ouvi, “Então está tudo bem. Uma hora vai dar certo”.

E assim sigo sem acolhimento da perda não gestacional…

Texto escrito pela nossa colunista mensal-médica-anestesista sensível Ursula Guirro.

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