O clube secreto

Trechos do relato de uma das co-autoras do livro “Histórias de Amor na perda gestacional e neonatal”  Clarissa Meneses Cavalcanti
“Sem receber convite, eu entrei para um clube secreto de mulheres. Um clube do qual eu até já tinha ouvido falar, algumas pessoas da família e amigas participavam, mas que eu nunca soube muito a respeito. Depois que eu fui forçada a entrar, descobri que milhares de mulheres fazem parte, mas todo mundo faz questão de manter tudo secreto.
Eu entrei para esse clube secreto pela primeira vez em março de 2015. Foi quando tive meu primeiro aborto retido – aborto involuntário, que acontece quando uma mulher não consegue manter a gestação.
…Nesse período, muita gente veio comentar comigo que tinha passado por algo parecido, que era comum. Gente que eu nunca imaginei. E aí eu me perguntava: “Se toda essa gente passou ou conhece alguém que passou por isso, por que ninguém fala nada? Por que o aborto é um tabu, mesmo quando ele não é uma escolha da mulher?”. Todos falavam comigo como se estivesse compartilhando o maior dos segredos, como se fosse um crime ter perdido um bebê… E aí a nossa culpa só aumenta. Quem passou por isso sabe que os sentimentos de culpa, raiva, revolta e tristeza se misturam e demoram a passar. E existe uma regra social não escrita, que determina que devemos superar rápido.
…Além disso, o hospital me colocou no mesmo andar do berçário. Eu tinha acabado de perder um filho e estava no mesmo corredor dos quartos onde ficavam as placas com nomes dos bebês nas portas, os pais recebiam visitas de amigos e familiares, bebês chegavam para ser amamentados… E eu ali vendo tudo aquilo. Isso não seria uma violência psicológica? Mas como ninguém fala disso, como é considerado uma coisa “normal” perder um bebê e há um pacto silencioso da sociedade, tudo fica por isso mesmo.
…Em novembro de 2015, descobri que estava grávida novamente. A felicidade voltou. Dessa vez, na primeira ultrassonografia, eu ouvi os batimentos cardíacos, a barriga estava crescendo e não conseguia nem disfarçar. Como tinham me falado que depois de ouvir o coração tudo ia ficar bem, eu estava confiante. Mas um sangramento mudou tudo e perdi meu bebê novamente, no começo de janeiro. Fui arrastada para o clube secreto novamente. Dessa vez, de forma até mais abrupta, ganhei a segunda carteirinha.
…É muito difícil para uma mulher passar por tudo isso, mas não só para as mulheres. Existe outro clube secreto: o dos pais. E esse então, é mais secreto ainda. É quase impossível tirar algo positivo disso tudo. Talvez o fato de descobrir que somos mais fortes do que imaginamos. E no meu caso, surgiu uma vontade grande de discutir o tema, ajudar outras mulheres e homens, e principalmente, para que a perda gestacional seja tratada de forma melhor nos corredores dos hospitais.”
Trechos do relato de uma das co-autoras do livro “Histórias de Amor na perda gestacional e neonatal”  Clarissa Meneses Cavalcanti
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