Sobre decisões e revisões

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Um luto que nãos se fala e não se acolhe: o não engravidar.

Uma vida inteira afirmava que não desejava ser mãe.

Há quase três anos mudei de ideia.

Aliás, mudamos de ideia. Filho se faz em dois. Ou pode ser em muita gente como fui descobrir depois.

Criança dá trabalho, gravidez modifica o corpo e exemplos que não agravadam faziam eu pensar assim. Até que uma amiga engravidou e conheci a beleza da maternidade: o amor incondicional nasceu ali junto da transformação de um casal.

Eu e meu marido conversamos por meses. Não contamos para ninguém. Era nosso segredinho!

Ácido fólico e tirei o DIU. Tive a certeza de que engravidaria no primeiro mês. Só que não aconteceu. “Normal, vai acontecer no mês que vem…”

No mês seguinte, eu que não sou ansiosa e nunca controlei dia de ovulação, me vi contando os dias. Exame de sangue precoce e beta HCG baixo. “Normal, às vezes demora…”

E como assim, DEMORA? Antes eu não queria, agora não consigo? Descobri que não controlamos nada.

A culpa chegou por aqui. Será que não desejar ser mãe por uma vida toda muda as nossas chances de engravidar?

Meses se passaram. Com cerca de seis meses o primeiro problema apareceu. Baixa contagem de espermatozoides. Solução? Fertilização in vitro.

Sério que teremos que colocar mais algumas pessoas na nossa relação para conseguir algo que a natureza poderia dar?  Médico, enfermeira, biólogo, biomédico… Teríamos que transformar nossa relação em poligamia?

Um ano passou. Outra clínica e novos exames. Agora tenho trompas obstruídas e baixa contagem de óvulos. A gravidez aos trinta não tinha nada de romântico. A naturalidade da equipe explicando o que era a fertilização assustou. Sou médica, mas ali queria ser uma pessoa acolhida e não uma sequência de procedimentos, hormônios e agulhas.

Sabe aquele dia que muitas mulheres descobrem um atraso menstrual? Isso nunca aconteceria para mim porque tudo seria vigiado. Meu útero seria um Big Brother.

Isso era demais par aa gente neste momento. Resolvemos dar um tempo para a ideia assentar.

Quem sabe o tempo nos ajudará ou quem sabe adotar uma criança não seja uma boa ideia?

Seguimos por aqui, deixando o destino resolver como ele quiser.

 Texto escrito pela nossa colunista mensal, médica-anestesista sensível, Ursula Guirro

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