Tudo bem?!

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Acho que a pergunta mais difícil de responder depois que perdi meus bebês foi o banal “tudo bem?”. Como que se responde isso?

Primeiro, como se sabe que está tudo bem depois? Qual o parâmetro?

Eu fiquei sem nenhum. Já perdi pessoas importantes e queridas na vida, já conheci lutos diferentes, pela morte do meu avô, avó, tia, prima, amiga, uma “paixão”, meu cachorro. Sim, tenho certa experiência no assunto, mas nenhuma pode ser referencia para essa perda.

Todas essas pessoas (para mim meu cachorro era uma pessoa!) quando partiram levaram uma parte minha, da minha história, me tiraram a possibilidade de viver o que só era vivido com cada uma. Mas nenhuma foi a minha própria morte, com nenhuma dessas perdas eu perdi literalmente uma parte de mim sem nem mesmo poder conhecer como outra pessoa. Minhas filhas não chegaram a contar minha história como parte da delas, não construíram as próprias histórias a partir da minha. Existiram e deixaram de existir dessa forma, como meu corpo, como partes de mim. Partes do meu corpo que não eram só meu corpo, não eram um órgão que nasceu comigo e precisou ser retirado por terem adoecido e deixado de realizar sua função.

A única função que elas tinham nesse momento era realizar o nosso desejo de sermos pais. Começaram a existir como partes nossas no meu corpo exclusivamente por esse desejo. Por isso, quando elas morreram dentro de mim, eu morri um pouco também.

Em que outra situação em vida experimentamos a própria morte e apesar disso continuamos vivendo “normalmente”?  Sim, minha vida continuou, trabalho, me divirto, faço planos… Então está tudo bem. De verdade.

Ao mesmo tempo em alguns momentos não está. Acho que se respondo que está tudo bem para alguém e essa mesma pessoa me vê em um desses momentos vai pensar que estou mentindo e que estou prestes a cortar os pulsos, que preciso de antidepressivos, ansiolíticos ou qualquer outra coisa que costumamos pensar que ameniza essa dor.

Eu, particularmente, acho que não. Tudo o que eu preciso agora é disso, de poder viver o “tá tudo bem” e viver toda essa avalanche de sentimentos da forma que eles vêm. Assim a gente consegue negociar, eu não finjo que eles não existem e eles deixam todo o resto existir também.

Claro que não é assim tão simples, as pessoas não se contentam com qualquer resposta e já me vi em situações desconcertantes. Por exemplo, resolvi responder a essa pergunta contando, brevemente, o que tinha me acontecido. Não foi uma boa ideia, acabei precisando consolar a outra pessoa pelo o que eu tinha passado.

Outra tentativa foi responder a uma pessoa que notou a ausência da minha barriga, dizendo que perdi com sorrisos! Na mesma hora, enquanto falava, pensei “Oi? De onde saiu isso!?”, mas já era tarde demais. Também não funcionou.

Na verdade acho que não tem nada que funcione, tudo vai ser uma tentativa frustrada de responder a uma pergunta que não tem como ter resposta agora. Pelo menos não uma que seja honesta e que dê conta da complexidade desse momento, mas continuo buscando uma. Acredito que nessa tentativa vou encontrando respostas para mim também, afinal é uma forma de aos poucos ir conhecendo quem sobreviveu e de ir acomodando esse vazio até conseguir encontrar algum sentido para ele.

Texto escrito pela nossa colunista

 

 

psicóloga Andréa Vogel

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