E continue a nadar, continue a nadar…

” ‘Viver’ é fazer o que nos agrada, como brincar no jardim, ler para mim mesma, subir ao alto da colina (…) Respirar somente não é viver.”

Eleanor H. Porter em: Pollyana.

 Quando eu era pequena minha mãe me deu este livro, Pollyana, de Eleanor H. Porter. A história de uma menina que via a vida sempre pela sua melhor perspectiva, jogando o “jogo do contente”.  Não importava qual fosse a situação, sempre havia uma forma de ver algo de bom nela. Inclusive na morte, na dor e na perda. Eu sempre achei essa história linda, mas um pouco forçada. Afinal de contas, como é possível ser contente o tempo todo? Minha mãe, sempre perspicaz, me deu esse livro na época que sofri um acidente que mudou todo o percurso da minha vida. Acho que a ideia dela era me mostrar que é possível sim ver luz no fim no túnel, reaprender a viver não importa o que tenha havido, ou mesmo aprender a conviver com a adversidade. E eu achava que havia aprendido todas essas lições. Mas hoje, fazendo um retrospecto e uma análise mais profunda, acho que a maior lição que aprendi é que a vida é muito dura quando precisa nos ensinar certas coisas. E ainda que a gente precisa ser forte e resistir, dando conta de tudo o que é possível, e talvez do impossível também. Foi nessa época em que comecei a lidar com cada situação adversa ou difícil como uma batalha, algo a ser conquistado, vencido e cumprido. Era preciso sempre seguir em frente. Usando um exemplo mais atual que o livro Pollyana, eu poderia dizer “continue a nadar, continue a nadar” (Procurando Nemo, da Disney).  Isso era (e é ainda, em tantos momentos) viver pra mim. Aprendi a levar a vida dando checks em tudo que era preciso ser feito: terminar a escola, fazer faculdade, arranjar um bom emprego, comprar uma carro, sair de casa. Check, check, check…

 Mas tempos depois, muitos anos depois, isso tudo começou a me incomodar. Gostaria de poder dizer que isso aconteceu porque dar checks deixou de ser suficiente. Mas a verdade não é bem assim. A verdade é que eu perdi o controle da minha vida. E isso aconteceu num momento muito único e muito especial, eu tinha tudo o que eu queria e sempre tinha sonhado, e o maior amor da minha vida ao meu lado.

Nessa época, se alguém me perguntasse uma palavra pra resumir minha vida, eu diria que era technicolor: colorida, e também diferente, intensa!

 Essa foto aí acima é de um momento desses bem intensos, um daqueles presentes que a vida dá e gente fica meio boba, meio deslumbrada. Nessa foto eu estava grávida. E imensuravelmente feliz. Sabe quando parece que tudo passa a fazer sentido? Ou melhor, sabe quando só o que faz bem passa a fazer sentido e se encaixar na sua vida? Eu tive a imensa alegria de saber o que é isso por algumas semanas. Era o momento perfeito para tudo isso acontecer, era esperado, era planejado, era muito desejado. E mesmo antes de descobrir-me grávida, eu já sabia que alguma coisa tinha mudado em mim. Eu estava mais tranquila, mais leve, mais distante do frenesi que me toma no fim das férias. Eu estava em paz. Sendo mega racional como sempre fui, fica difícil admitir, mas havia algo mais, além do meu próprio ser. Era uma energia muito diferente ao meu redor. Gostava de brincar que eu estava numa nuvem cor de rosa, porque não tinha como traduzir bem em palavras essa energia feminina que me envolvia. Ele era tão linda e tão intensa que muitas pessoas ao meu redor também foram capazes de sentir, e de me dizer isso. Só que um dia eu acordei, feliz como sempre acordava nessa época, mas senti falta de alguma coisa.  A luz tinha ido embora! Simplesmente tinha me deixado. Vazia. Eu sabia que algo não estava bem, e dois dias depois, na 2ª ecografia, lá estava um saco gestacional de 8 semanas sem um bebê. Ovo cego. Gestação anembrionada. Útero grávido. Mas vazio. E aí vieram as estatísticas: cerca de 30% das gravidezes diagnosticadas acabam em aborto espontâneo ou retido. Isso é normal (?!), cerca de 85% das mulheres que passam por esta situação engravidam normalmente e tem filhos saudáveis na próxima gestação (dados da OMS). E blá, blá, blá. Muitos relatos de mulheres na mesma situação, muitos livros, muitos artigos científicos e revisões bibliográficas, muitos meses depois. E a dor continou lá, e o vazio também. Saber disso tudo não diminuiu a dor. Saber que possivelmente a alteração genética é tanta que nem permitiu que um embrião se formasse adiantou ainda menos. Nada adianta porque nada disso é racional, é no emocional, na alma, onde reside a dor.

 E é muita dor, ela não passa, nem abranda. Só fica. Dia e noite, semana após semana. Mergulhada na dor. Mas, pra que? Lá no fundo eu sabia, mas era difícil admitir. Achei que dessa vez não era hora de superar a seguir em frente. Porque na verdade eu nunca superei nada! Só engoli e guardei numa caixinha, sem digerir. Pra mais tarde. Pra nunca mais, na verdade. E continue a nadar, continue a nadar…

 Porém achei então que dessa vez não, eu precisava viver essa dor, sentí-la em todo meu ser-corpo-alma. Achei que precisava mergulhar na dor para exterminá-la. No entanto, a verdade é que ela que me engoliu e em muitos momentos eu me afoguei. Passei muito tempo assim, com a vida em technicolor agora cinza. Em cinzas e em brasa, dependendo do dia. Mesmo as risadas, os bons momentos, o amor, os amigos, a vida tinha sempre nuances acinzentadas.

 Tem sido assim desde então, quase seis meses. Levei muito tempo percebendo que mergulhar no luto tão fundo que a luz deixe de te tocar é o mesmo que guardar tudo numa caixinha bem fechada. Não há luz, nem esperança nos dois casos. São diferentes versões da mesma coisa. E foi só quando admiti isso para mim mesma, que finalmente fui capaz de colocar a cabeça fora desse mar de tormenta. Imersa ainda, mas respirando na atmosfera ao menos. É um respirar difícil porque tenho a sensação física de que algo me aperta firmemente no tórax. Sei que minha capacidade pulmonar e meu diafragma vão bem, obrigada. Mas a sensação de asfixia se recusa a ir embora. E torna o respirar difícil. E o viver também.

 No fim das contas, acho que eu tinha mais umas lições pra aprender, ou talvez eu ainda não tivesse aprendido bem aquela lá do começo, de anos atrás. Acho que não aprendi a viver ainda. Por que, afinal de contas, o que é viver? É ter um organismo funcionando e presente no mundo, dando conta do que é preciso? É só isso?!

 Acho que não. Nessas últimas semanas com a cabeça fora d’água ando dormindo e acordando cedo com ânsia, com pressa, com necessidade de vida. Mas não da vida do cumpra-se, mas da vida do viva-se! Aproveite-se, deleite-se, tenha prazer. E aí hoje acordei com essa frase na cabeça:

 ” ‘Viver’ é fazer o que nos agrada, como brincar no jardim, ler para mim mesma, subir ao alto da colina (…) Respirar somente não é viver.”

 Decidi que preciso viver, porque entre me entregar à dor desprezando todo o resto de bom que vida tem e conviver com ela, aceitando que um dia há de passar e que ainda há muito por vir, fico com a segunda opção. Acho que prefiro mesmo jogar o jogo do contente, afinal de contas.

 É um caminho longo pois é uma releitura da vida, um re-olhar presente de fato no aqui e no agora. É um reviver. E continuemos a nadar.

 Relato da mãe Juliana Dissenha Bürer Rengel.

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