Aborto retido – a perda silenciosa

Esta é parte do texto que escrevi pra minha bebezinha Stella… A filha que não vi, mas, sei que tive por 18 semanas e 5 dias.

…A gente tinha plantado uma sementinha de amor e em alguns meses teríamos uma parte de nós nos braços. Logo veio a confirmação pelo exame de sangue e uma alegria contagiante nos impulsionou a contar a novidade aos pais, aos irmãos… Ah como foi bom esses dias!

E aí vieram os primeiros exames, o mal estar que a gravidez traz consigo, as orações pela saúde daquele serzinho que se formava, que pulsava como música dentro de mim… Até que o dia mais escuro chegou… Era domingo e eu já havia sentido aquela mesma dor há dois dias. Era uma dor suportável, porém incomodava e me inquietava. Já era a semana 20, metade do caminho estava percorrido e até então estava tudo bem com nosso grãozinho de gente.

Fui a maternidade pra ter a receita, afinal não poderia tomar qualquer remédio sem conhecimento de um médico e lá naquele lugar cheio de maezinhas felizes, outras nem tanto… La estava eu ansiosa por atendimento. Jamais imaginava que uma sombra cobriria meu dia, que meus olhos se encheriam da lágrima mais amarga que minha boca já havia provado, que as forças iriam se esvair pelos meus dedos e que não tinha mais nada a ser feito.

Não ouvir o tum tum do coraçãozinho foi o baque mais insuportável que eu poderia sentir em meio ao entusiasmo que já tomava meu coração de mãe. Foi um silêncio ensurdecedor. Meu mundo ruiu e eu me via em cacos estilhaçados num chão que se abria embaixo dos meus pés e não via mais nada, não pensava mais nada…

Passar uma noite naquele lugar sem a certeza do que estava acontecendo. Como havia se passado “20 semanas com tudo perfeito e como de repente aquela lacuna se abriu?

**

Amanheceu lá fora, apenas o mundo alem das janelas do terceiro andar, porque eu continuava no escuro, eu continuava sem luz, eu continuava sem saber o que tinha acontecido. Saímos uma a uma dos quartos, entramos no elevador e o destino foi uma salinha lotada de outras mulheres a caminho do ultrassom. Nunca ansiei tanto pra ouvir chamar meu nome em uma sala de espera de hospital. Ate que me vi naquela cama, onde das outras vezes eu me deitei cheia de expectativas, cheia de sonhos, sorrindo e agora as lagrimas banhavam meu rosto e meus olhos embaçados não enxergavam nada alem do medo da decepção. Alguns minutos e o olhar piedoso e a fala esmorecida da medica descreve o veredito: Gostaria de te dar outra noticia meu amor, mas, realmente não esta vivo!

Saí da sala desolada, perdida… Embora a esperança fosse minima, mas, ainda havia ate aquele momento. Voltar ao quarto foi um caminho longo, tenso… O elevador estava cheio, mas, parecia que havia somente eu e aquela família transbordando alegria pelo nascimento do mais novo membro, que estava ali diante de mim, pequenino, indefeso e totalmente inerte aos meus sentimentos. Aquela cena acabou de rasgar o meu coração, a lembrança do meu bebe imóvel naquela tela e a visão daquele bebe que acabava de vir ao mundo não saiam da minha cabeça. Meus soluços ecoam no elevador e os poucos segundos ate chegar no terceiro andar pareceram uma eternidade.

*

Ele estava sentado na cadeira de acompanhante ao lado da janela, cabisbaixo, certamente ansioso com a espera. Eu só me lembro das palavras “nós perdemos ele” repetidas várias vezes como um eco no vácuo. Se ele falou algo, meus ouvidos e minha mente não captaram uma só palavra. Eu só queria seu abraço porque uma parte de nós não pulsava mais.

Terça feira, 24/01/17, eu não vi como estava o dia lá fora, mas, eu sabia que pra mim não tinha sol, luz, vida, pois a morte ainda  rondava minhas horas, o espírito do meu bebe já estava de volta com o Eterno, mas, o corpo estava ali e precisava ser tirado.

Já era a terceira dose do indutor de dilatação e nada de sangramento. Definitivamente, eu olhava aquilo e pensava “ele (a) não queria ir”.

Deus o que eu preciso aprender com isso?
Porque meu bebê não virá mais?
Estas foram 2 das muitas perguntas que ocuparam minha mente nos dias que vieram…

Hoje estou aqui, já se passaram 4 meses, vivendo um dia de cada vez e uma saudade imensa de alguem que meus olhos físicos não viram. Se saudade do que não se teve tivesse tamanho, fita métrica nenhuma alcançaria a medida.

Como foi duro, como está difícil ver que os dias passam e que a Stella não vai chegar… Ja chorei tanto que as lagrimas nem saem mais, papai tambem chora escondido e mamae sabe… Era pra VC ter chegado nestes últimos dias e nossa casa estaria repleta de novidades…

Que falta me faz! Papai e eu te amamos tanto…

Relato da mãe Tâmares Mendes

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