A dor não reconhecida

Meu nome é Tais Vargas, tenho 28 anos, hoje dia 09 de junho faz um mês que passei por um dos piores momentos da minha vida, um aborto retido de 6 semanas e 3 dias.

Meu marido e eu queríamos muito ter um filho, já estávamos tentando há alguns meses, acredito que por nossa ansiedade acabamos pensando que talvez não pudêssemos ter filhos biológicos, fizemos exames e os resultados sempre muito bons.
Confirmamos nossa gravidez no inicio de abril, foi muito emocionante e confesso que não conseguia acreditar que seríamos pais. Nossa família e amigos ficaram super felizes e eu pude sentir muito o carinho e o cuidado deles com minha gestação.
Os nomes já estavam escolhidos a bastante tempo, mesmo antes de termos planejado aumentar a família: se fosse menino se chamaria Felipe, se fosse menina seria Laura. Esses nomes são especias pra mim, quando escuto ou até mesmo quando os pronuncio sinto algo diferente, não sei bem explicar, eles vem acompanhado de um afeto, mesmo não havido tempo de saber quem chegaria pra nos alegrar.
Estava tudo tranquilo com minha gravidez, não tinha enjoos, nem me sentia mal. Meu aniversário se aproximava, era dia 12 de maio, numa sexta feira, e domingo seria dia das mães, me sentia bem e entusiasmada para comemorar essas duas datas, até porque não tenho mais minha mãe comigo, e no ano passado foi super doloroso passar essas datas sem a presença física dela.
No dia 09 de maio, terça feira, logo após o meio dia, fui ao banheiro urinar e quando percebi tinha um pequeno corrimento com sangue, não era um fluxo de sangue muito grande e quando fui tomar banho para ir na minha médica vi que já estava parando, mesmo assim fiquei bastante nervosa e com medo. Graças a Deus, moramos próximos da família do meu marido, minha cunhada me acompanhou até minha médica, que pediu uma eco de urgência para ver o porque daquele sangramento. Eu não achava que havia perdido meu bebe, pensava que podia estar com uma ameaça de perda, um deslocamento de placenta, qualquer coisa que com cuidado e repousa pudesse resolver.
Durante a eco a médica parecia não estar encontrando nada, a expressão da minha cunhada era de seriedade, e eu estava na expectativa para ouvir pela primeira vez o coraçãozinho do meu bebe, pois na primeira eco que fiz não pude ouvir, o médico disse que era estava muito no inicio e nesses casos nem sempre é possível escutar os batimentos cardíacos.
A médica começou a fazer perguntas e ao final do exame, falou que meu embrião não tinha mais vida, naquela mesma semana eu estaria completando 10 semanas de gestação, porém o tamanho dele era de apenas 6 semanas. No momento me mantive forte e segurei as lágrimas, meu marido me ligou logo após e eu não queria contar nada, só conseguia dizer pra ele que em casa conversávamos. Na verdade, não tinha coragem de contar a ele, porque ter esse filho era o sonho da vida dele foi depois ter nos conhecido que brotou esse sonho em mim de me tornar mãe, acabei pedindo para minha cunhada contar a ele por telefone mesmo.
Chegar em casa com essa noticia é horrível, e os sentimentos são todos indescritíveis, não sabia como contar, não sabia o que pensar, tinha acordado grávida e no mesmo dia estava indo dormir sem meu bebe na barriga, em um único dia havia experimentado sensações de felicidade e dor em relação a maternidade. E os outros dias que se passaram foram bem piores, nossa, como foi difícil ver minha médica, ir ao consultório, que antes era de expectativa para nova consulta e agora era para decidir o que iriamos fazer.
Meu marido me deu muita força, deixou a dor dele de lado e cuidou integralmente de mim, decidi não esperar para começar o processo de limpeza do meu útero, porque psicologicamente pra mim seria insuportável, então internei dia 11 de maio, para acelerar essa limpeza, fiz uso de medicação, e posso dizer que a dor foi insuportável, muita contração, desesperador quando começaram os sangramentos e o sofrimento é muito grande porque ficamos na maternidade, escutando o choro das crianças que nasciam saudáveis e pudiam ficar com suas famílias, em um certo momento depois de ter perdido bastante sangue, acabei desmaiando, já não tinha mais forças…
O que eu menos queria naquele momento era realizar a curetagem, tinha muita esperança de que conseguiria eliminar o saco gestacional e todo o resto da minha gravidez apenas com uso de medicação, mas minha médica viu que ainda havia restos de placenta e que seria necessário realizar este procedimento, então com medo fui para o bloco, onde guardo lembranças muito tristes de quando minha mãe precisou ser operada e veio a falecer logo após. Realizei a curetagem no dia do meu aniversário. Vazio é a sensação que melhor define o que eu senti depois de tudo.
É muito difícil passar por tudo isso, o aborto acontece com muita frequência, mas não é debatido e divulgado na sociedade, e por conta disso acabamos ouvindo frases de consolo do tipo: “Não era nem um feto” ou “Não vai fazer um velório por causa disso né”, as pessoas são muito cruéis sem se dar conta.
Hoje faz um mês, não culpo ninguém, nem me revolto, sofro sim, e sei que tudo que passei nunca será esquecido, porém confio muito em Deus e sei que tudo tem um propósito mesmo que no momento não consigamos entender, quero muito agradecer a este grupo de apoio a tantas mulheres que assim como eu também passam por momentos de muito dor e muitas vezes acabam se sentindo perdidas em meio a tanto sofrimento e dúvidas, não vou desistir de ter meu filho comigo, a fé e a esperança de realizar este sonho junto com meu marido é o que mais motiva e da animo a minha vida.
Que Deus abençoe todas vocês.
Relato da mãe Tais Vargas
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