A leoa que aprendi a ser

Relato extraído do livro Histórias de Amor na perda gestacional e neonatal”
Autora: Aracelli Pinheiro
Sempre programei tudo na minha vida. Só me casaria quando tivesse minha independência financeira, só engravidaria depois de ter curtido o casamento e quando tivesse condições para ter um filho. E assim foi. Até que a vida me mostrou que a controlamos só até certo ponto.
Demorei muitos meses até meu primeiro positivo. Com seis semanas de gestação, descobri que não havia embrião, apenas saco gestacional. A medicação que precisei tomar me deu contrações fortíssimas, que me doeram mais na alma do que no meu corpo. Seis longos meses depois, eu via pelo monitor um coração bater dentro de mim. Era o meu filho vindo à minha vida para me mostrar ainda muita coisa sobre ela.
Aos cinco meses de gestação, na Morfológica, constatou-se que o meu Miguel tinha duas más-formações: hidrocefalia leve e cardiopatia. Naquele 15 de agosto de 2014, achei que fosse perder o meu filho, desesperei-me, chorei, achei que fosse morrer junto a ele. Mas, ao mesmo tempo, vi surgir dentro de mim uma força que até hoje me domina. Algo que sinto vindo dele.
Miguel veio para me transformar na mãe leoa do meu leãozinho. Ele precisava de mim. Eu tinha que ser a melhor. Vivemos intensamente cada segundo de sua gestação. Era como se o meu subconsciente me dissesse que não teríamos uma vida longa juntos. Ligada às más-formações, descobrimos a Síndrome de Down. Ele vinha especialmente para mim.
Dez dias antes do esperado, ele nasceu. 27 de novembro de 2014. O dia mais feliz da minha vida. Já sabia que ficaria na UTI. Foram quarenta dias. E ao longo dessas cinco semanas, ele venceu a hidrocefalia e uma Leucemia Transitória (que apareceu após o nascimento), até fazer sua cirurgia cardíaca. Mas sua missão, aqui, terminara no dia seguinte após tal procedimento. Seu coração não reagiu após duas paradas cardiorrespiratórias. Na primeira, eu ainda tive a chance de vê-lo, de olhar seus olhinhos
procurando minha voz enquanto eu cantava para ele. Senti seu cheirinho de esparadrapo mais delicioso do mundo antes de ter que sair do seu box e nunca mais vê-lo daquele jeito. Tive a nossa despedida sem ao menos saber que era disso que se tratava.
Algumas horas depois, recebia a notícia de que meu filho partira para sempre.
E mesmo nesse momento, no abismo em que me encontrava, eu o sentia presente dentro de mim. Miguel deu ao pai  dele e a mim a força de que precisaríamos para passar por tudo aquilo. Fomos os pais leões do nosso leãozinho.
Desde então, me permiti passar pelo luto da maneira mais íntegra e digna possível. Aprendi com ele que devo me permitir chorar, ficar quietinha no meu canto, falar, fazer, ouvir aquilo que Eu desejar, do que realmente Eu necessito. Aprendi também, na terapia que comecei a fazer um mês depois da sua partida, que eu sou a Mãe, que só eu sei da Minha Dor. Que qualquer outra pessoa que esteja próxima pode tentar imaginar o que é, mas só uma Mãe de Anjo sabe o que temos para o resto das nossas vidas. Eu não perdi um parente, um amigo, um braço, ou perna – eu perdi um filho. E isso é muito. É tudo! É mais do que perder a própria vida.
E ressignificar tudo isso foi difícil, mas não impossível. Pelo contrário, senti a necessidade de fazê-lo. E dois dias após a nossa despedida, resolvi escrever. Escrever para mim. Para ele. Por mim. Por ele. Eu tinha a consciência de que não era só eu quem passava pelo luto. Meu marido, as avós, os tios, amigos, todos sofriam com a partida
do Miguel. Mas ao mesmo tempo precisava falaaaaar… E todas as vezes em que o fiz, vi o quanto eles sofriam. Escrever foi a solução mais saudável que poderia escolher. Revivi, reelaborei tudo o que vivemos.
 E ao final de três meses, tinha diante de mim uma linda história de amor, entre mãe e filho. Coração de Leão representa a minha forma de ver a vida a partir da existência do meu filho. Porque ele não vive, mas existirá para sempre dentro do coração de todos aqueles que o amam. Dessa forma, consegui superar pequenos grandes desafios. Entrei
no seu quarto desde o dia que voltei daquela maternidade sem ele. Cheirei suas roupinhas, mexi nos seus presentinhos, revi suas fotos, sentei ao chão do quartinho decorado e chorei todas as vezes que quis. Mas me recusei a participar de momentos que eu senti que me fariam sofrer. Criei os meus métodos. “Não criar bloqueios, mas não criar novos traumas”. Porque eu só conseguiria seguir em frente, dar um novo passo à minha vida, se realmente estivesse passando por tudo da maneira que considerei certa.
Eu consegui voltar à UTI onde cantei pela última vez para o Miguel. E meu coração só se encheu de muita emoção e alegria. Fui, junto a outras mães que têm seus filhos com coração especial, levar doações para bebês que ainda precisavam lutar pela vida. Foi uma das vezes que mais senti a presença do meu filho. Estava orgulhosa por eu poder proporcionar isso a nós dois. Foi a forma que encontrei de dizer a ele: “A mamãe vai continuar, por você, meu bem!”.
Quando dei por mim, estava envolvida em várias histórias, de várias mães, que passavam tudo o que eu sentira, e ajudá-las foi a outra forma que encontrei de me sentir perto do meu leãozinho. O Miguel está nos olhos emocionados de quem recebe um abraço enquanto se tem a maior dor do mundo no peito; está no sorriso de um bebê que luta pela vida; está na minha força de querer reaprender a viver.
Nos primeiros meses sem ele, eu sentia que nunca mais seria capaz de amar outra criança. Ali era eu passando pelo meu luto de forma plena. Não havia espaço no meu coração para mais ninguém. Mas com o tempo, depois de tudo que vivi, pedi a Deus e ao meu anjo que me mandassem mais um presente, porque eu me sentia pronta para amar mais uma vez. E agora escrevo estas linhas sentindo mexer meu segundo filho, Theo. Ele é a prova de que o que eu sentira no início (que havia sido abandonada por Deus) nunca acontecera. Deus não me abandonou. Ele me escolheu para ser a mãe de um anjo que tinha uma linda e importante missão, por algum motivo que eu nunca saberei. E me sinto honrada por isso. Eu sempre quis tudo do Miguel. Até mesmo suas malformações. Ele é meu de todo jeito. Eu o quero da maneira que tiver que ser. E ele sabe disso.
O Theo, hoje, é a prova de que nunca estive só, de que Deus sempre esteve ao meu lado, que só Ele sabe a dor que eu senti e que guardo para sempre dentro de mim. O Miguel veio para mudar nossas vidas! É dele que tiro essa força, é dele que sinto essa luz que me faz feliz. Há dor, há saudade, mas como sempre digo, nada nunca será maior do que o amor que sinto por você, Meu Filho.
Aracelli Moreira, mãe do anjo Miguel e do baby Theo
Autora do livroCoração de Leão
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