Beatriz – aquela que traz felicidade

Relato extraído do livro “Histórias de Amor na Perda gestacional e neonatal”

Autora: Luiza Junqueira – mãe da Bia, do Gabriel e do Dante
Foi no dia 23 de maio de 2014. Saí mais cedo do trabalho, e meio sem saber o porquê, resolvi fazer um teste de gravidez de farmácia. Meu marido achou que eu estava meio maluca. Para minha surpresa, surgiram as duas listras rosa escuro. Um misto de felicidade e nervoso. Seria eu capaz de cuidar de outra pessoa, alguém que dependeria de mim para tudo, mesmo sem saber bem como cuidar de mim mesma? Mais oito testes de farmácia e o exame de sangue para confirmar (ainda bem que o resultado sai no mesmo dia; a ansiedade era tão grande quanto a alegria pela chance de ser mãe!).
A partir daquele momento, tudo mudou. Ainda não sabíamos que seria uma menininha. Mas fazendo jus ao significado do nome que eu e seu pai escolheríamos algumas semanas depois, a Beatriz nos trouxe a maior de todas as felicidades. Para nós e muita gente. Foram nove meses intensos e repletos de amor. Nossas famílias ficaram mais
próximas e unidas. Os amigos, ainda mais chegados. Minha primeira filha, primeira neta da minha mãe e do meu pai, primeira sobrinha das minhas irmãs, a bisneta sonhada dos meus avós. Quanta alegria e planos à espera dela. Os melhores momentos que eu já vivi. E ver meus familiares através de uma nova perspectiva foi emocionante e incrível.
Sentir a Bia crescendo dentro de mim me trouxe uma paz inédita. Ela acalmou minha pressa, trouxe doçura para os meus dias. Me apresentou a uma nova forma de amor. Não o famoso amor incondicional, porque para ser honesta, esse eu já conhecia. Um amor enorme, por tudo e todos, amor sem limites.
 No dia 20 de janeiro de 2015, começaram os primeiros sinais de que, com 39 semanas, a Bia estava pronta para conhecer este mundo. Passei o dia em trabalho de parto, com dor sim, mas animada com a chegada da minha menininha. Finalmente, um pouco depois das sete horas da noite, fui internada e, às 0h35min do dia 21, Beatriz nasceu. Linda, grande, 52 centímetros e mais de 3,4 quilos. Parto normal, como queríamos. Nunca me senti tão completa, feliz e serena. Segurá-la em meus braços foi a melhor sensação que experimentei. Ver seus dedinhos, corpinho perfeito… modestamente, a minha cara! Com os olhos generosos e atentos como os do pai. Por conta de ingestão de um pouco de líquido, ela precisou ser levada. A informação que tínhamos era: “Isso não é nada de mais, é normal. Em breve ela estará com os pais”.
Duas horas depois, um telefonema para o nosso quarto. Notaram que a respiração da minha bebê estava pesada, e ela foi levada para UTI neonatal. Desespero! Meu marido foi ao encontro dos médicos. Ao retornar, me acalmou, pois aparentemente isso pode acontecer com alguns bebês e eles só iam manter a Bia na UTI para melhor monitorá-la. Mas foi então que começaram os piores momentos da minha vida.
Pela manhã, o responsável pelo setor de neonatologia veio conversar conosco. Dessa vez, fomos informados de que a situação era muito grave, e que os médicos não sabiam o que tinha de errado com a nossa Beatriz, mas que o coraçãozinho dela não estava funcionando bem, e com isso surgiram outros problemas colaterais, como a deficiência pulmonar.
Ver a Bia tão frágil partiu meu coração, mas mantivemos a esperança. Toda a família se reuniu no hospital. Perto das cinco horas da tarde, fomos chamados pelo médico. Nossa menininha tinha tido a terceira parada cardíaca e, agora, com sequelas inevitáveis – eles só não podiam prever quais.
 Ouvimos a pior pergunta que se pode fazer aos pais: “Caso haja uma nova parada, devemos ressuscitá-la? Mesmo sabendo que ela não será normal?”. Revolta! Como assim? É minha filha, perfeita, seja como for, e vou cuidar dela, sempre!
Mais uma vez, Beatriz foi quem cuidou de mim, e enquanto ainda estávamos no consultório do médico, ela partiu. Nunca senti dor maior, falta de ar, nada parecia real…
Levaram a gente para vê-la e pude segurá-la mais uma vez. Para minha surpresa, não senti revolta, mas uma nova onda de amor e gratidão. Só conseguia agradecer a Bia por ter me escolhido para ser sua mãe, por ter me ensinado tanto, e pelos melhores meses da minha vida. E garanti a ela que faria tudo de novo, mesmo se eu soubesse que ela precisaria partir tão, tão cedo.
Acordar na manhã seguinte foi difícil. Meu marido e eu apenas nos abraçamos e choramos muito. Eu só consegui voltar para casa – a casa para onde nos mudamos por conta da chegada da nossa filha – quase um mês depois. As marcas físicas do parto doíam por lembrar a ausência da minha bebê tão desejada e amada. Meu colo estava vazio e eu não sabia o que fazer com todo o amor que sentia… Me despedi da minha filha
e, ao mesmo tempo, de quem eu era.
Nos meses seguintes, e ainda hoje, eu e meu marido aprendemos muito, como casal e como pais. E seremos SEMPRE pais. Aprendemos que a dor de cada um se expressa de maneira diferente. Aprendemos nos comunicar e respeitar, a conversar muito e, às vezes, só ficar abraçadinhos, longe de tudo o que não importa tanto. Aprendemos que, às vezes, as pessoas que mais amamos, querendo nos ajudar e curar nossa dor, nos machucam. Ninguém está preparado para lidar com a morte no momento em que deveríamos celebrar a vida. Precisamos ter compreensão e também dar colo. Todos
perdemos e nos sentimos perdidos.
Mas a lição mais importante, para mim, é que a dor imensa de não estar com a Beatriz, de não poder vê-la dar seus primeiros passos, me chamar de mamãe, de agarrar e enchê-la de beijos como sonhei, não é e não será nunca maior do que o amor que fi cou para sempre. Terei para sempre os momentos que passamos juntas e toda a luz que a existência dela trouxe para mim e para todos que, de alguma maneira, estiveram com ela, uma menininha pulante e especial.
Eu tinha tanto medo de “quebrar” minha Beatriz! Mas sua sabedoria foi maior que a minha, e foi ela quem “quebrou” meus pré-conceitos, meus medos, minhas muralhas e minha correria. Me ensinou a aproveitar mais o que conta, a dar mais valor a cada pessoa que cruza o meu caminho, a ser mais paciente e a perdoar.
Filhota, onde você estiver: obrigada, sempre, por ser o melhor pedaço de mim. E por tudo de lindo que você deu e dá ao seu pai e a mim. Por me ajudar a crescer. Te amo!
Relato extraído do livro “Histórias de Amor na Perda gestacional e neonatal”
Autora: Luiza Junqueira – mãe da Bia, do Gabriel e do Dante
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