A nossa Vitória!

16 de Setembro e 01 de Outubro. O dia mais feliz e o mais triste da minha vida!

Todas as noites vem a minha cabeça a mesma cena…. Dois médicos encostados na parede do corredor da UTI Neo Natal, me falando que infelizmente aconteceu o pior.

E eu alí sozinha. Meu marido tinha acabado de sair do hospital, e não deixaram minha irmã entrar. Não tiveram a menor sensibilidade. A cena aconteceu no corredor de diversas salas de UTIs, com tantas outras mães olhando. E hoje eu penso, meu Deus, quantas vezes aquela cena se repetiu alí. Quantas mães tiveram o coração dilacerado como eu. Tenho vontade de abraçar todas.

Alí, eu era apenas mais uma!

Foi uma gestação muito difícil. Eu já havia tido 4 abortos, diagnóstico de trombofilia e hipertensão desde os 20 anos. Fiz repouso a gestação toda pra tentar controlar a pressão, que desde o início permaneceu instável. A obstetra fez várias mudanças na medicação e mesmo assim nenhum mantinha controlada. Foram 4 internações antes do parto, a Vitória não ganhava peso, mesmo eu me alimentando super bem – inclusive com suplemento.

Desde o início a médica alertava para um possível parto prematuro e fomos nos preparando pra isso com os corticoides que ajudariam no amadurecimento do pulmão. E de fato ela nasceu bem apesar de muito pequena. Nasceu com 30 semanas + 3 dias e pesando apenas 1 kg. Mas sem nenhum problema sério. Era só ganho de peso e acompanhar por conta da prematuridade. Mesmo assim, ela teve Sepse dentro de uma UTI renomada, após 15 dias de vida.

No início eu ficava procurando culpados. Me culpei principalmente por pegá-la no colo 1 dia antes. Será que eu passei alguma bactéria? Culpei a incubadora que tb foi trocada um dia antes. Foi higienizada corretamente? Quem seria o culpado? Eu queria encontrar o culpado. Depois percebi que aquilo não adiantaria em nada. Lutamos tanto, eu me sentia como se tivesse nadado, nadado e morrido na praia.

4 meses após sua partida, eu me descobri grávida novamente. Aquilo foi pra mim uma felicidade imensa. Era Deus me dando uma nova oportunidade, me dando um presente pra eu conseguisse superar tudo aquilo. A esperança voltou forte, mas durou pouco tempo. O embrião não se desenvolveu e precisei fazer uma curetagem. Internei no mesmo hospital que fiz o meu parto.

Tudo voltou forte. Era uma dor emocional que nunca serei capaz de explicar. Falta o ar!

Eu realmente desacreditei em tudo. Perdi a fé, as esperanças e comecei a duvidar de tudo que acreditei minha vida toda em relação a espiritualidade e religião. Eu não conseguia mais rezar. Foi uma dor muito solitária. As pessoas não gostam de escutar coisas tristes e toda vez que eu tentava conversar com alguém, o assunto era desviado ou eu ouvia as piores coisas do tipo: “Foi melhor assim”. Melhor pra quem?

Apesar de meu marido e eu estarmos sempre unidos, eu sentia um buraco entre nós. Quase não tocávamos no assunto.

O cardiologista recomendou ficar um período sem tentar, enquanto investigávamos mais a fundo a minha hipertensão e ajustávamos a medicação. Muitos obstetras que procurei me disseram pra desistir. E por um tempo decidimos realmente desistir.

Pra mim foi um período de muita solidão. Nunca me imaginei viver tão sozinha ao lado de tantas pessoas. Eu não suportava ver grávidas, não suportava ver mamães felizes carregando seus filhos. E nas minhas redes sociais, choviam cada dia mais colegas realizando aquele lindo sonho. Não era inveja, meu coração ficava feliz por todas elas. Mas eu não conseguia ver sem sofrer, sem lembrar de cada sofrimento, de cada fracasso.

Aos poucos isso foi passando e eu pensei… Preciso fazer algo por mim urgente. Foquei no trabalho, fiz uma pequena viagem sozinha e comecei como voluntária em um abrigo infantil lindo, com crianças adoráveis. Alguns chegaram a me falar que eu não teria psicológico pra cuidar das crianças, mas foram elas que trouxeram à vida novamente. Que fizeram querer lutar de novo, tentar de novo e dessa vez eu sentia… Eu estava mais forte.

O cardiologista então liberou as tentativas no meio do ano passado, e eu encontrei uma obstetra espetacular que me apoiou desde o início. Em dezembro, recebemos o nosso positivo. Nos abraçamos, chorei.

Não dava para curtir. Poderia não se desenvolver, poderia não dar certo de novo. Foram 3 meses acompanhando e observando o desenvolvimento sem contar para ninguém. Só quando passando o primeiro trimestre é que contamos para as nossas famílias.

Hoje estou com 6 meses de gestação de um menino. O bebê está se desenvolvendo super bem e eu estou tendo uma gestação muito mais tranquila. Mas eu mentiria se dissesse que estou 100%. Toda vez que vou comprar enxoval, eu olho para as coisas cor de rosa eu me lembro dela. Me dá aquele aperto no peito, aquela falta de ar. E sempre, sempre eu tenho q segurar o choro nesses lugares.

Eu não digo que tenho medo de algo acontecer dessa vez, mas ainda sinto uma angustia muito grande com a partida dela e isso se mistura de uma maneira estranha com a alegria da chegada dele.

Não me sinto revoltada, e brinco que já fiz as pazes com Deus. Acredito que de alguma forma eu precisava passar por tudo aquilo. Nos fortaleceu, nos mudou. Eu não sou mais a mesma pessoa.

As vezes eu tenho a sensação que essa dor nunca vai embora. Por mais que meu coração exploda de emoção cada vez que sinto o meu Diego mexer, ou eu o veja na ultrassom. Tem uma dor lá no fundo que não vai embora. Uma feriada que não cura. Uma dor que não cessa.

É difícil conviver com esses dois sentimentos tão fortes e tão presentes. A alegria inexplicável dessa nova oportunidade, de mais uma vez gestar um bebê. De estar correndo tudo bem até agora. Mas ainda sinto uma dor  profunda de lembrar que ela não está aqui, que eu a peguei no colo uma única vez por apenas 10 minutos, que não pude amamentar, trazer pra casa, sentir seu cheirinho, sua pele.

Estamos radiante com a chegada do Diego. Mas as marcas da dor sofrida estão presente e não tenho como esquecer. É difícil falar sobre o luto, sobretudo quando perdemos um filho tão desejado, esperado e amado. E é complicado entender os sentimentos quando dois opostos, nascimento e morte, se misturam.

É minha 7º gestação. É difícil conviver com tantos fracassos, difícil entender porque justo comigo que sempre sonhei em ser mãe. Mas depois de um tempo passei a pensar: Porque não comigo? Não sou melhor do que ninguém. Cada um carrega sua dor e sua história de luta, e quando aprendemos o quanto a fé é importante, percebemos que mesmo nas piores dores, é possível extrair algo de bom. Evoluímos! E hoje acredito que o tempo que ela esteve comigo era extremamente necessário para todos nós. Mas é uma saudade que nunca terá fim.

E rezo muito para o Diego venha no tempo certo e com muita saúde. Para eu posso exercer esse desejo imenso da maternidade.

Relato da mãe Graziela Oliveira

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