Nova morada

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Queixava-se que todos os seus familiares queiram obrigá-lo a comer, mas ele já não tinha vontade de ingerir nada. Estava com raiva porque todos queriam dicidir isso por ele, como já dicidiam a hora do banho, a hora dos medicamentos, e assim por diante. Mas ele estava gravemente doente, e já estava se desengajando do mundo das formas, para habitar, logo mais, o mundo das ideias. Não tinha dor ao comer, nem estava deprimido, apenas queria deixar de comer, porque a vontade havia ido embora… Ajudei-o a expressar seu desejo de suspender a alimentação, e pudemos acolher esta família em sua angústia e em seus medos. Ele não morreria por não comer, mas era justamente o oposto: ele estava deixando de comer porque estava morrendo. Meu trabalho com ele seguiu. Num dia nublado no Rio de Janeiro, em que a chuva chorava no vidro das janelas, tivemos uma difícil conversa sobre seus arrependimentos, e ele disse que gostaria de ser lembrado como um “homem que se arrependeu.” Após este dia, o sol voltou a renascer, e vimos um homem com a esperança renovada, ao menos, de ser lembrado como alguém que repensou sua vida, e que teve tempo de pedir perdão. Consultado com muita delicadeza e tato, ele decidiu que não gostaria de mais sondas, e que queria que apenas deixassem a natureza fazer seu trabalho, sem intervenções desnecessárias.Assim foi feito. Parou de respirar após alguns dias, mas então o tempo estava lindo, e sol pôde recebê-lo logo cedo, a fim de aquecê-lo antes que ele partisse para sua nova morada…

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