Páscoa, luto e transição

Texto escrito por Rodrigo Luz

O luto nos transforma de dentro pra fora e poucas experiências têm tamanho poder de nos esvaziar, expandir e transformar. Fazer conexão com o luto – que não se reduz à tristeza ou ao choro – nos conecta às nossas almas e nos abre para este precioso momento. Devemos desafiar os conceitos e percepções cristalizadas que ficam no caminho do luto. Temos que aprender a sofrer ativamente, uma vez que o luto não é um processo passivo… é preciso criar “intimidade” com ele para que ele se transforme, e para que nos transformemos com ele…

Datas significativas, a depender da cultura em que nos inserimos e do significado individual que lhes conferimos, podem evocar respostas muito singulares nas pessoas enlutadas, compondo um tom todo especial, uma experiência toda singular, em que se lida com a falta, mas também com a presença; se lida com a ausência, mas também com a saudade, e muitos sentimentos e pensamentos ambivalentes podem surgir.

A páscoa, em especial, é uma festa que remete historicamente à libertação do povo hebreu, e é conhecida como Festa da Libertação, justamente porque este povo, até então submetido à escravidão no Egito, segundo a tradição, recebe de um Faraó a liberdade. Pessah, em hebraico, quer dizer passagem.

Dentro de uma lógica cristã, a Páscoa, ou Domingo da Ressurreição, é uma festividade religiosa e um feriado que celebra a ressurreição de Jesus, ocorrida três dias depois da sua crucificação no Calvário, conforme a tradição dos evangelhos canônicos. É a principal celebração do ano litúrgico cristão e também a mais antiga e importante festa cristã.

A Páscoa, tanto para os antigos hebreus, quanto para os cristãos, representava um tipo todo especial de passagem, uma passagem de um modo de vida a outro. É importante lembrar-se do carácter passageiro de nossa existência, da impermanência de todas as coisas, pois o sofrimento geralmente é de querermos fazer durar o que não foi feito para durar.

Segundo Jean-Yves Leloup, em seu texto Sede passantes,

“… [A páscoa] É a passagem da escravidão para a liberdade, passagem que é simbolizada pela migração dos hebreus, do Egito para a terra Prometida. Mas não é preciso temer o Mar Vermelho.
O mar de nossas memórias, de nossos medos, de nossas reações.
Temos que atravessar todas estas ondas, todas estas tempestades, para tocar a terra da liberdade, o espaço da liberdade que existe dentro de nós.
Creio que esta palavra é verdadeiramente um convite para continuarmos nosso caminho a partir do lugar onde algumas vezes paramos.
Observemos o que para a vida em nós, o que impede o amor e o perdão, onde se localiza o medo dentro de nós.
É por lá que é preciso passar, é lá o nosso Mar Vermelho.
Mas, ao mesmo tempo, não esqueçamos a luz, não esqueçamos a liberdade, a terra que nos foi prometida…”

Temos acompanhado muitas pessoas nesta espécie de páscoa que é o processo de luto, um processo de avanço em direção a uma reconstrução de um mundo interno, um mundo presumido, que foi atingido pela experiência da perda. Tal processo convida o enlutado a atravessar o Mar Vermelho da nova vida, uma vida diferente da anterior, e lentamente reaprender a viver, e a viver plenamente. Este é o que muitos chamam de “trabalho do luto”: permitir que a pessoa enlutada passe de vítima para sobrevivente, que não apenas passe pelo luto, mas cresça por meio dele, que, como sobrevivente, não apenas sobreviva, mas reaprenda a viver plenamente.

Desejamos nesta Páscoa que todos as(os) nossas(os) seguidoras(es) possam encontrar acalento, sentido e um recanto onde possam ritualizar o amor eterno, a falta que se faz presença, a presença que se eterniza, e que auxilia, ela própria, a dar sentido à vida…

Nosso desejo é que neste você se sinta encorajado a viver com coerência íntima, sentido e dignidade, e com homenagem à memória de quem se foi. Há muitas maneiras de manter sua memória viva: conservar suas lembranças especiais e sustentar a alegria quando ela vier; escrever suas memórias em um diário ou agenda; criar um álbum de fotos… Datas significativas simbolizam a eternização, a continuidade da vida, o vínculo contínuo e eterno com aqueles que amamos: ritualize da sua forma. Nas fases iniciais do luto, é possível que essas datas especiais sejam muito difíceis para o enlutado, mas se ele sentir vontade pode produzir um legado realizando atividades significativas. Pode ser um ritual bem simples, como usar a cor preferida do falecido ou a sua ou uma flor, uma comida, um lugar.

Receba nosso abraço demorado, de novo e mais uma vez. E boa Páscoa – passagem, transição, renascimento – a todos.

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Um comentário em “Páscoa, luto e transição

  1. Sábias palavras querido Rodrigo. A reconstrução do mundo interno e a transformação através do luto é um exercício diário. Obrigada pelo “abraço demorado”!
    Janaina Aquino
    #MãedeAnjo #AnjoMalú #dolutoaluta

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