O tempo vai amenizar

Todas as vezes que leio sobre a dor de uma mãe, tenho vontade de a abraçar em palavras e dizer: “Conheço a sua dor. Disso eu também entendo. O tempo vai amenizar”. E sinto o quanto precisamos falar do que não nos permite sentir só, por saber que em algum lugar, alguma mãe como eu, como nós, conhece a dor da despedida, antes da chegada. Aquela história dos corações pequenos, que juntos se tornam um único e enorme coração.
Um dia eu também desejei ter uma grande família. Um dia eu imaginei que gestação fosse VIDA, sem qualquer outro desfecho. Um dia, eu aprendi que recomeçamos todos os dias, que as dores nos fazem mais fortes, podendo ser transformadora e resiliente.
Nas buscas por respostas das minhas perdas gestacionais, a medicina não conseguiu explicar em prática os motivos. Muito menos o fato de eu ter tido uma única gestação saudável, diante de um histórico de quatro perdas antes e depois dela – ouvi isso de um médico um dia e pensei: devo acreditar em milagres. Não há matemática e transpondo isso em mais significados, podemos também chamar “milagre” de esperança, de desejo e a lida com um positivismo que nunca me impediu de acreditar que aconteceria. Aceitei que nem tudo pode ser explicado.
 
 
Na minha terceira gestação, tudo corria bem aos quase sete meses, mas havia um sentimento, daqueles que tentamos negar e que hoje entendo por uma forte intuição que desde o início me acompanhava. O medo, era acima de tudo, sinal de um coração de mãe que pressentia. Por motivos difíceis de serem explicados, eu havia sido copiada tempos antes, em um email de uma mãe que havia passado exatamente pela mesma dor, com os mesmos motivos que me levaram ao hospital. Minha vida parou por instantes, minutos, horas. Recordo apenas de um telefonema da minha obstetra, dizendo que estava indo ao meu encontro, primeiro para me dar colo e depois para entendermos o que havia acontecido: “nenhum coraçãozinho para de bater sem um grande motivo”. Até ela e meu marido chegarem, eram apenas eu, Deus e no meu pensamento, essa mãe que nunca conheci, mas que sabia que só ela entenderia com precisão o tamanho dessa dor. Entendi que eu não estava só. Não estamos sós. 
 
 
Vivenciamos a culpa para o quê não tem resposta, por um tempo carregamos o “se eu tivesse feito algo diferente”, “se eu tivesse percebido antes”, se… E se eu me perdoasse pela culpa que não tenho? Se eu aceitasse que não temos controle sobre o tempo da vida? Entendi que quando enfrentamos os nossos “se(s)”, acolhemos a dor como aprendizado.
Compreendi na pele que quando o “corpo cala, a alma grita” e que é preciso chorar. Precisamos nos desfazer devagarinho, bem devagarinho, dos sonhos, dos planos, dos medos. E chorar é a catarse desse processo, que nos leva a reflexão da dor, afrouxa os nós do peito, para que o tempo semeie a força para seguirmos em frente e com ela, novos sonhos, novos planos, recomeços. Conquistamos a força na passagem do tempo. Quando a vida nos faz parar, ressignificar – como um casulo silencioso que leva ao encontro de si mesma, até o dia em que a vida vem e avisa, que já é hora de voltar. 
Nas grandes provações as chances da vida se renovam nos lembrando que é possível por mil vezes, levantar a cabeça pra vida e caminhar aos bons momentos, dádivas e agradecimentos. A dor marca as suas cicatrizes no corpo e na alma, mas a aceitação e a esperança, não nos permitem sucumbir e nos convidam a nos tornarmos melhores. A cada relato que leio aqui, penso no quanto eu gostaria de segurar as mãos de cada mãe e lhes dizer que não somos menos mães, menos mulheres, menos abençoadas por Deus por termos vivido tamanha provaçãosomos mulheres fortes com a missão de carregar no ventre vidas de tão curta missão, fazendo-me entender que devo ser grata ao tempo em que estivemos juntos, mesmo que tão curto, mas privilegiado por termos trocado no ventre: AMOR. Transformando dor em gratidão, pela chance de viver e sentir um coraçãozinho pulsando pela vida, enquanto a vida permitiu. 
 
 
Meu carinho a cada uma de vocês. 
 
 
Carol Madeira
(Mãe do Davi e de quatro anjos)
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