Em resignação

Trechos do relato do livro “Histórias de amor na perda gestacional e neonatal” entitulado “Em resignação”

Autor: Rodrigo Castanheira, marido de Elaine Castanheira, pais de Davi e Bento

“Fui pai pela primeira vez em 2011, quando, por “milagre”, minha esposa – minha noiva na época – me revelou essa bênção. Que surpresa! Iniciávamos um tratamento para que pudéssemos pensar em engravidar; e o Davi chegou até nós. Nem o médico acreditou. Elaine tinha sérios problemas uterinos, desde a sua outra perda gestacional às 24 semanas de uma gravidez ocorrida em 2004. Tínhamos um diagnóstico complicado pela frente, mas, contrariando os médicos, Davi apareceu. Logo lhe atribuímos um “milagre”.

Vivenciamos cada dia desse “milagre”, mas, logo após a ultra morfológica na 23ª semana, o obstetra nos alertou que a bolsa estava protusa e que ela deveria fazer repouso máximo. Ainda tentamos contato com o médico, mas não conseguimos e a pior madrugada da minha vida aconteceu. Correria total. Bolsa estourando. Hospital sem vaga, negando atendimento de emergência, até a entrada em um, com vaga somente em enfermaria. Não bastasse a péssima notícia que recebemos de que o coração dele não estava batendo, enfrentamos um rinoceronte travestido de médica que fez pouco da nossa dor com frases do tipo: “Para de gritar! Você está incomodando as pessoas do lado!” ; “Aperta a mão do seu marido, não aperta a minha não!”. …

…Passado o momento de crise, veio a ausência, veio o armário sem dono, o brinquedo sem criança, a fralda sem bumbum, os planos sem aquele futuro. Em meio às brigas pelo desencontro de emoções (eu querendo ficar quieto sem tocar no assunto, e ela diametralmente no oposto) e o divórcio iminente, fez-se a luz. Um convite, uma palestra, um tratamento e um “reencontro” com Jesus, com o evangelho, com a Caridade. …

…Em 2014, uma nova gravidez, uma nova esperança. Mas não encarávamos mais como milagre. Eram os desígnios de Deus, tirando minha esposa de uma depressão profunda na iminência de acontecer. Bento era o nome escolhido. …

…Às dezesseis semanas, cirurgia. Cerclagem. Trata-se de pontos que são dados no colo do útero para fechá-lo e impedir o nascimento precoce. Mudança de hábitos e de residência. … Mas, (sempre tem um “mas” nessa história, fazendo inveja a Joseph Climber) às 23 semanas, contrações. Correria. Morando em Magé, município interiorano do Rio de Janeiro, não tínhamos muitas alternativas. Mas por quê? Seguimos o script certinho! Nesse momento, o mundo vem abaixo pela segunda vez, sem dar lugar a porquês. …

…Bento ia embora de uma maneira ou de outra. Desígnios de Deus. E o que nos restava? Resignação; saudade; acolhida; familiares; amigos e uma vida inteira pela frente que não tem uma “cigarra” para puxar e pedir para o motorista parar que eu vou descer. Mais uma vez, Deus nos deu um pequeno espírito para amar e lhe devolver.

Hoje? Hoje ainda estamos na luta do dia a dia. Conversando e buscando alternativas para que nosso filho venha e fique. Independentemente da maneira que venha, seja de dentro ou de fora da mãe dele. Um dia ele vem. Estaremos te esperando…”

Trechos do relato do livro “Histórias de amor na perda gestacional e neonatal” entitulado “Em resignação”

Autor: Rodrigo Castanheira, marido de Elaine Castanheira, pais de Davi e Bento

 

 

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