Eu sou três

Trechos do relato “Eu sou três” do livro Histórias de Amor na perda gestacional e neonatal

Autora: Elaine Castanheira – mãe do Gabriel, do Davi e do Bento

“Quando pequena, sempre que um adulto me questionava o que eu gostaria de ser quando crescesse, eu respondia sem hesitar: Mãe! Minha história de mãe se entrelaçou com a história de três príncipes iluminados que vieram me fazer uma visita breve, partindo antes de nascerem. Meus filhos gerados, com tanto amor dentro de meu ventre, não resistiram às singularidades deste mundo e passaram feito passarinhos pelos céus.

Minha primeira luz chamava-se Gabriel. Foi em 2004. Engravidei de um namorado na troca de remédio, mas fiquei muito feliz. Gabriel foi meu primeiro amor. Foi o grande responsável pela primeira grande mudança na minha vida. Depois, com meu marido Rodrigo, vieram Davi em 2011 e Bento em 2014…

…Mas sempre entre a 23ª e 24ª semana gestacional, meu sonho deixa de ser concreto. Meus anjos retornam à pátria espiritual, viram anjos. E mesmo que eu tenha muita fé, até porque sem ela eu já teria enlouquecido, a dor vem como uma represa que explodiu.

Que dor é essa? Uma dor que mal me deixava respirar! Que não deixava espaço para nada, que não muita dor e saudade. Minha pele, ossos, músculos, tudo doía. Meu choro parecia queimar meu rosto. É surreal, sufocante, desesperador. Você não quer acordar para não ter que viver aquilo. Por mais que eu tente: é impossível descrever a dor que surge na alma! Eu sentia e chorava com veemência a cada dia após a partida.

Esse processo foi exatamente igual nas três vezes. Depois de algumas longas semanas de revolta, depois de repetir todo o processo dolorido e doloroso pós-perda, eu me questionava: “Por que comigo?”. E em uma visita, um amigo me questionou: “Por que não com você?”. E ali eu entendi tanta coisa! A perda do Davi me fez rever a mim. Eu não era melhor que ninguém, não deveria ser privilegiada. Quantas pessoas não passam por isso também e outros problemas tão difíceis quanto!…

…E agora? Depois de três gestações, três momentos de plena felicidade, três partos normais, três enterros, só resta achar um novo sentido para continuar! Eu chamo de ressignificar a vida mesmo. Na verdade, aquela vida que eu sonhei não existe mais. A Elaine, mãe do Gabriel, do Davi e do Bento, não existe mais. Não é recomeçar a vida, porque não dá para voltar para o começo, mas é ressignificar a vida, pensar que vou usar a vida para homenagear os meus filhos, para tentar dar um irmão(a) para os meus meninos, voltar a fazer coisas de que gosto….

…Com a “perda” também se ganha. Eu ganhei uma profissão: sou fotógrafa. Registro tudo que faz bem ao coração. Meu maior público é gestante e bebês. É para eles que vai o meu amor, e é pelos meus amores que faço isso…

…Para uma mãe, não importa se os filhos viveram somente dentro do ventre, se nasceram e viveram nove meses ou três dias, ou 93 anos. São filhos. E ao partirem, as lágrimas caídas são de puro e verdadeiro amor. O tempo passa. A dor dá lugar à saudade. Essa, às vezes, vem  machucando, maltratando, mas isso fica espaçado. Na maior parte do tempo, eu sorrio ao falar e pensar nas minhas estrelas. Gabriel, Davi e Bento. Tão miúdos e com um poder tão grandioso de transformação em minha vida. Em nada me pareço com a Elaine de antes deles existirem em minha vida. Eles me fizeram crescer, me ensinaram o que é um amor genuíno, o que é felicidade, o que é força, coragem. Conheci o que é dor de verdade, não sofro mais por besteira. Sou mais feliz. E o mais importante de tudo: permitiram-me ser Mãe.

Muita paz a todas as mães que deram à luz para luzes que hoje brilham aqui na Terra ou em algum lugar especial.”

Trechos do relato “Eu sou três” do livro Histórias de Amor na perda gestacional e neonatal

Autora: Elaine Castanheira – mãe do Gabriel, do Davi e do Bento

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