Ao ajudá-las, ajudarei a mim mesma a seguir adiante

Trechos de um relato do livro “Histórias de Amor na perda gestacional e neonatal”
Autora: Maíra Fernandes – mãe de Antonio Henrique
“Em dezembro de 2014, eu me descobri grávida e comecei a viver aqueles que foram, até o momento, os meses mais felizes da minha vida…
…Passei a ser monotemática, como quase toda grávida. Assisti a inúmeros vídeos na internet, fiz cursos, li livros. Carreguei o marido para uma aula de seis horas de duração sobre parto normal, onde aprendemos técnicas de massagens, respiração e exercícios. Queria que o Antônio Henrique viesse ao mundo da forma mais natural possível, mas devidamente acompanhado por uma boa equipe médica em um renomado hospital. Aprendi sobre mamadas e fraldas, sorrisos e choros de madrugada…
Tudo isto, porém, ficou na teoria. Na reta final da tranquila gravidez, minha pressão começou a oscilar e a médica anunciou que seria prudente antecipar o parto, por precaução. Eu estava muito confiante e segura. Conversávamos sobre isso no consultório, quando comecei a sentir as primeiras contrações. Ela colocou as mãos na minha
barriga e determinou: “Vamos para a Casa de Saúde São José, Maíra, esse menino quer nascer!”. Antes de sair do consultório, pude ver uma última vez o Antônio na minha barriga, pela ultrassonografia que ela fez. Ele estava com 37 semanas, três quilos e todo formado. Lindo!…
…Por volta de sete horas da manhã, após uma noite inteira monitorada pela equipe médica, o coração do Antônio Henrique parou de bater. Segundo o laudo pericial, houve um infarto na placenta, na base do cordão umbilical, que interrompeu a passagem de sangue e
oxigênio e vitimou o meu bebê. Nada conseguiu salvá-lo: nem a cesárea de urgência, nem mesmo todo o empenho do pediatra que, sem descanso, tentou ressuscitar o Antônio, por quarenta minutos, e recebeu o reforço de toda a equipe do hospital….
…Naquele momento, eu me senti mãe e me transformei para sempre. Marcello, meu marido, traduziu o amor em palavras e comunicou a todos o falecimento com o seguinte texto: “Era para ser o dia da maior alegria. Quase nove meses de espera, de planos e doação. Mas ele não veio. Nosso menino se foi, sem nada explicar. Nos fez amá-lo muito, mas não pôde ficar. E, por todos esses meses, fomos intensamente felizes, como quaisquer pais. No momento mais difícil, nos fez jurar trocar nossas vidas para poder vê-lo rapaz. E, hoje, uma dor dilacerante corta todas as camadas da nossa alma e encontra a fossa abissal da humanidade, um lugar onde não existem disputas, inveja ou vaidade, só a paz e a solidariedade. Nossa dor é do tipo que procura entender o incompreensível, as vítimas do acaso, é dor que dói junto e não é diferente das demais. É das que fazem corar a soberba sensação de controle e nos resignar. Nos questionamos se poderíamos salvá-lo, mas talvez ele é que tenha aguardado chegar ao hospital para a sua própria mãe salvar.Hoje, um pedaço arrancado e amputado de nós sangra copiosamente. Mas temos amigos e família, e esses nunca nos faltaram. E deles ouvimos e sentimos cada mensagem de apoio e amor, onde quer que seja dita ou repetida. Olha por nós, anjinho da nossa vida. Porque contigo e a cada novo desafio, seus pais se unirão cada vez mais.”
 Os dias se seguiram lentamente. Sem meu filho, as dores físicas da cesárea de emergência se somaram a uma dor emocional quase enlouquecedora, e a uma obsessiva culpa, que me corroía por completo: “Se ele morreu dentro de mim, a culpa é minha. Eu não consegui salvá-lo”. Não sei quantas vezes repeti essa frase, para mim mesma e para todos ao redor. Nada mais torturante. Não bastasse isso, eu acreditava ser a única no mundo a passar por tamanho pesadelo, até ser apresentada ao grupo Do Luto à Luta, por uma querida amiga de
faculdade, e acolhida pelo Grupo de Apoio às Mães de Anjos.
Solidarizei-me demais com aquelas mulheres e com a dor adicional – inteiramente desnecessária – à qual elas haviam sido submetidas. Decidi, então, contribuir para que esse tema saísse da invisibilidade. Essa seria uma forma de homenagear meu filho e de transformar aquela dor profunda que eu estava sentindo em algo bom para a sociedade….
…Ainda hoje, me emociono ao saber que impulsionamos uma alteração legal tão significativa, que ajudará a vida de inúmeros servidores do Rio de Janeiro. Em resumo, a PEC alterou os artigos 83 e 92 da Constituição Estadual, que diz respeito aos direitos dos funcionários públicos e militares do estado, estabelecendo, dentre outras mudanças, que:
i) em caso de nascimento prematuro, a licença-maternidade de 180 dias passe a contar a partir da data da alta da UTI do bebê prematuro; ii) em caso de perda gestacional, a mulher tenha licença de 30 a 120 dias, a depender do tempo de gestação; iii) em caso de perda gestacional, também o pai tenha direito a licença-paternidade, que pode chegar a 30 dias. Inesquecível conquista!…
 …Ninguém espera perder um filho. Não há dor maior do que essa. É a inversão da ordem natural da vida, drama para o qual ninguém está preparado. Após meses de investigações médicas, exames, consultas a hematologistas e obstetras, não sei por que isso aconteceu
 comigo. Mas sei o que posso fazer com meu luto: transformá-lo em algo que honre a memória do Antônio Henrique, que informe e acolha muitas mulheres. Se eu conseguir ajudá-las, ajudarei a mim mesma a seguir adiante.”
Trechos de um relato do livro “Histórias de Amor na perda gestacional e neonatal”
Autora: Maíra Fernandes – mãe de Antonio Henrique
Para comprar um exemplar do livro “Histórias de Amor na perda gestacional e neonatal”, acesse: http://livraria.bookstart.com.br/historiadaperdagestacional
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