Gabriel, obrigada por me escolher como mãe!

Hoje dia internacional das mulheres e semana em que meu primeiro filho nasceria, melhor presente para uma mulher! Gostaria de compartilhar minha dor e recuperação da perda.

   Meu nome é Giovana, tenho 38 anos, deixei a maternidade para último plano na minha vida. Não porque não quisesse ser mãe, mas preferi investir na minha vida profissional e ter uma vida financeira estável, para poder oferecer coisas boas ao meu filho.
   Infelizmente não obtive sucesso profissional,  a vida financeira é no limite, mas o relógio biológico nos alerta para a realidade. Ser mãe, sempre foi sonho, mas também sempre desejei que pudesse ser da melhor forma possível,  com uma pessoa que pudesse dar orgulho ao meu filho, de chamá-lo de pai.
   No dia do meu aniversário de 38 anos, eu e meu marido Tiago, resolvemos que seria o momento de parar com o remédio e tentarmos uma gravidez. Me preocupava o fato de demorar para engravidar, mas minha ginecologista havia orientado que o ideal seria 1 ou 2 anos de tentativas, mas para mim, ela daria 6 meses, antes de entrar com medicação para estimular a ovulação.  Comecei a controlar meu ciclo, nesse tempo, atualizei minha carteira de vacinação,  a médica receitou um remédio para verme, iniciei com alimentação bem mais saudável,  dei início a ingestão do ácido fólico. Em 2004 passei por uma cirurgia de gastroplastia, esse fato faz com que eu necessite de complementos de vitaminas e controle de anemia.
   Em dois meses eu estava grávida! Dias antes do ciclo menstrual,  fiz o teste de farmácia e constatou o positivo. Ainda tive dúvidas, pois não acreditava, no exame de sangue eu ainda tinha desconfiança do resultado, mas felizmente era verdade, eu seria mãe!
   Tive que trocar de médico e com indicação de uma amiga, agendei minha primeira consulta. Meu novo médico é maravilhoso,  não tenho palavras para agradecer o quanto ele me cuidou e ajudou nesse momento de “ausência de vida”. Iniciei meu pré-natal, vários exames e minha carteira gestante. Estava tão fantástica com a idéia de ser mãe,  que começamos a anunciar o motivo da nossa felicidade. Era tão gostoso sentir a alegria das pessoas em ver a nossa alegria!
   Sempre que pensava que um dia seria mãe,  imaginava ser mãe de menino, e seu nome seria Gabriel! Nome de anjo, para um presente de Deus.
   Eu e o Tiago,  sempre conversamos sobre nosso filho, como gostaríamos de educá-lo, o que faríamos nos finais de semana, enfim, planejamento de família (semelhante ao filme A estranha vida de Timothy Green, sugiro assistirem). Opinamos por não saber o sexo do bebê,  queria uma surpresa para aumentar nossa felicidade. Foi difícil no começo para comprar algumas coisas, hoje é tudo rosa e azul! Mas nosso bebê era tão sapeca, que não guardou segredo, precisou se mostrar. Infelizmente para mostrar que não ficaria em nossas vidas, somente deixaria lembranças e saudades.
   Com 24 semanas, feliz com os movimentos do meu bebê,  fui realizar o exame morfológico. Na sala do exame tudo estava bem, tudo na normalidade, mas o médico disse que gostaria de ver melhor algumas partes do abdômen do bebê,  mas precisava que ele se virasse. Pediu para que eu fosse caminhar e voltasse. Confesso que me assustou,  mas ele disse de forma normal, meu marido brincava dizendo que o bebê era sapeca já na barriga e estava brigando com o médico. Fomos almoçar e voltei para a clínica. Na verdade,  passei a tarde toda na clínica aguardando a realização completa do exame.
   Novamente na sala, o médico insistia em uma única localização com o aparelho,  meu sentimento era de que havia algo, mas as expressões dele, não me convencia de que não era nada de mais. Depois de muito insistir, ele iniciou o diálogo, daquele jeito que ninguém gosta quando é um médico falando.
   Nos disse que precisava falar sobre o exame, mas seria difícil de explicar porque não queríamos saber o sexo do bebê. Nessa hora meu mundo rachou, o sexo do bebê não nos importava nesse momento. Assim, descobrimos que nosso bebê era o nosso anjo Gabriel!
   No exame foi visto que a bexiga do Gabriel estava dilatada, com dilatação ureteral bilateral e discreta dilatação renal. Os rins estavam com alterações, tudo compatível com o problema de obstrução da válvula de uretra posterior. Resumo do médico, é um problema que normalmente ocorre com os meninos, pois a uretra é maior, é grave podendo levar o bebê ao óbto, pois ele ingere o líguido amniótico mas não elimina urinando, a bexiga cheia se dilata e dilata os canais dos rins e eles. O médico pediu para caminhar para que o Gabriel se virasse e pudesse ter certeza do diagnóstico para nos esclarecer.
  Nesse dia o abismo se abriu. O médico foi muito claro em suas palavras, nosso Gabriel poderia nos deixar. Sai da clínica em prantos.
  Cada vez que o Gabriel mexia, me sentia realizada. Sabendo que era um menino,  minha mãe já correu comprar a primeira roupinha azul, confesso que no meu devaneio o Gabriel não chegaria a usar. Não sou pessimista e sim realista, se existe um fator, é 50% de acerto. Mas busquei forças e curtia ainda mais minha gravidez. Sempre conversa com o Gabriel,  brincava com ele quando estava se mexendo, dizia o quando eu o amava e que não queria que ele sofresse pelo meu egoismo de tê-lo conosco. Pedia perdão por qualquer coisa que poderia ter feito. No banho sempre cantava Aquarela para ele, se fosse por pouco tempo, que fosse o melhor tempo da sua vida!
   Meu médico pedia ultrassom a cada 2 semanas, para analisar a quantidade do líquido amniótico,  pois a tendência com esse problema, seria  diminuição do líquido. Não havia o que fazer, o Gabriel não tinha nem 1kg, se chegasse a nascer correria risco, por esse motivo, meu médico decidiu seguir normalmente com a gravidez.  Em todos os exames a normalidade do líquido se mantinha, o Gabriel ganhava peso, tudo seguia, mas a dilatação da bexiga permanecia presente.
   O Tiago sempre me perguntava se eu estava tranquila com os resultados dos exames, eu respondia que só ficaria em paz, quando o Gabriel nascer e saber que ele ficará bem!
   Com tudo (teóricamente) correndo bem, já estava tudo pronto para receber nosso filho. Faltava o papai pintar o quartinho, já tinha a tinta azul. No dia 25 de Janeiro 2017 fomos para mais um ultrassom,  até a vovó foi dessa vez. O desespero que antecedia cada exame, depois de saber o problema,  não estava diferente. No dia 02 de Janeiro, havia feito minha consulta de pré-natal, meu obstetra sempre perguntava sobre os movimentos do bebê,  tudo estava bem. Em seguida no dia 14, com ajuda dos nossos familiares e amigos, fizemos o Chá de Boas Vindas ao Gabriel. Tudo veio na minha cabeça antes do exame.
   Quando o médico colocou o aparelho na barriga, ele de imediato colocou pra ouvir o batimento cardíaco,  eu estava olhando para o monitor, não vi, nem ouvi nada. Olhei para ele, nosso olhar se encontrou, meu coração disparou. Mais uma tentativa de ouvir o coração e nada, minha visão escureceu, perguntei ao médico se o meu Gabriel tinha me deixado, foi o pior sim da minha vida!
   O chão se abriu e me engoliu, fiquei ausente em minha própria vida.  Mas sei que além do meu marido e minha mãe,  Deus estava me amparando. O médico me encaminhou para a urgência ginecológica do hospital para que providências fossem tomadas, me pediu para não sair desesperada, pois eu estava bem e agora teria que manter a calma, mesmo sendo difícil. Saimos da clínica fui para casa, arrumar minha mala, pois ficaria internada. Chegando na urgência,  a recepcionista disse que meu médico já estava me esperando, pois o médico do ultrassom havia ligado para ele. Isso já me deixou tranquila,  eu sabia que estava em boas mãos. Conversamos e optei por realizar a cesariana na manhã do dia seguinte, pois já passava das 20:00hs e ficaria internada o mesmo tempo, resolvi passar a noite em casa, com meu marido e minha barrigona…foi o velório que tivemos. Ainda amparados por Deus, fomos até a funerária cuidar de tudo, para o descanso do nosso Gabriel.
Na manhã do dia seguinte,  nublado, chuvoso, pudemos conhecer nosso filho. No centro cirúrgico,  tudo muito preparado, profissionais dedicados, respeitando minha dor de ao mesmo tempo, ter e não ter um filho. Ali na sala tinha um bercinho, para receber meu filho. Desde o começo da gestação,  não tive problemas,  nada de enjoar,  inchar, tive uma gravidez saudável e tranquila. Durante a cirurgia,  sentia dor…na alma! Quando senti que tiraram meu filho do meu ventre, fiquei esperando que ele ainda pudesse chorar. Olhei para o Tiago e disse que tinham tirado o Gabriel,  mas ele não chorou!
   A enfermeira me perguntou se queria vê-lo, e trouxe nosso anjo. Era lindo, perfeito, uma mistura da mamãe e do papai,  estava dormindo. Não pude carregar meu filho, não pude beijá-lo, só consegui tocar por um instante seu rostinho, suas bochechas gostosas. Quando fui para a recuperação, meu marido estava sempre comigo, ouvir os bebês chorando,  nos machucava. Meu médico pediu para me deixar na pediatria para que eu não precisasse conviver naquele momento, com outras mães que acabaram de ter seus bebes. No dia seguinte tive alta, no hospital tomei medicação para não descer o leite e tive as mamas enfachadas para manter apertadas. Sair do hospital com os braços vazio não foi fácil sempre a dor da alma apertava.
   Chegar em casa com o quarto vazio também machucou. No hospital depois que o médico me liberou para ir para o quarto, meu marido foi para o cemitério, enterrar nosso filho. Depois ele foi para casa e guardou tudo, para quando eu chegar, não encontrar o quartinho como era. Em casa meu leite desceu, desesperador o leite pingar do meu peito e meu filho não estar comigo para mamar.
   Foi muito sofrimento, nas semanas seguintes eu só dormia, tivemos o apoio de nossos familiares, amigos, muitas orações, isso nos ajudou a superar. É lógico que uma nova gravidez, ( que Deus nos abençoe novamente) não irá suprir a saudade que temos do Gabriel, nada vai substituí-lo, mas temos que conviver, nos acostumar com a falta. Sempre senti que ele não ficaria conosco, desde que descobrimos o problema, mas sei que, cada um de nós temos um tempo de vida para nos redimir de muitas coisas, acredito que ele também tenha tido o dele. E que teria como missão, nos fazer feliz, me ensinar o maior amor do mundo.
   Sou mãe! Os anjos escolhem suas mães e o Gabriel me escolheu, fico feliz em poder ser mãe de anjo. Hoje, entendo que ele não poderia ficar, mas me fez muito feliz enquanto pode. Todas as noites olho para o céu, agradeço e digo que o amo.
   Te amo eternamente meu filho Gabriel!
   Depoimento enviado pela mãe Giovana Lima
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