Elena: luto e renascimento

Texto do livro Histórias de Amor na perda gestacional e neonatal

Autor: Rodrigo Luz

Dedico este trabalho à Adriana Thomaz (in memoriam), médica e 

terapeuta do luto, que me ensinou a arte de viver com beleza e sabedoria.

Elena havia perdido o filho que não nasceu. Sequer chegou a vê-lo, observá-lo, tocá-lo. Não teve tempo de realizar por completo seu modo de existência como mãe, na concretude do mundo. Teria sido sonho, pesadelo, miragem? A gravidez teria de fato ocorrido? Seu filho teria morrido sem jamais ter existido?

Primeiramente, Elena precisou realizar sua perda, efetivá-la, compreendê-la, falar sobre ela, começar a elaborá-la. Sim, ela havia engravidado. Sim, seu bebê havia morrido. Sim, ela ainda era uma mãe. E, por último, sim, ela seria mãe para sempre, para toda a eternidade. Ser mãe, para ela, era uma forma de ser no mundo, cuja construção começara juntamente com a notícia da gravidez.

 Ela descrevia com precisão os momentos mais difíceis na maternidade, e sua narrativa era costurada com muito sofrimento e inconformação. Falava dos momentos em que esteve na maternidade como uma experiência de assepsia completa, onde a morte era varrida para baixo do tapete. Todos fingiam que nada aconteceu, não havia preparo algum, ninguém sabia direito o que fazer, ninguém sabia o que sentir e como se comunicar com ela, e com sua família. Elena conheceu uma forma de desamparo singular e de solidão existencial, que se tornou mais aguda por ela não se sentir compreendida, por julgar que seu sofrimento era único, que ninguém poderia compreender o que ela estava vivendo; uma onda de sentimentos a fez pensar que estaria enlouquecendo; oscilava entre a experiência da dor e o desejo de reconstruir a vida.

 Ao começar a reconhecer sua situação e elaborar seu luto, ela pôde sair um pouco da confusão que sobreviera a essa fase tão delicada, depois da saída da maternidade, onde havia muitas indefinições e pouca assistência qualificada para situações como a dela. Ela precisou reconhecer que os profissionais da saúde que cuidaram dela não sabiam fazer diferente. Precisou perdoá-los. Sentir compaixão deles. Deu espaço para sua dor, para seu lamento, para seu choro. Precisou abrir mão da esperança de retornar ao passado e fazer diferente. Precisou abrir mão da culpa pela sobrevivência. Precisou se reconciliar com a vida. Deu colo para si mesma, e encontrou colo e apoio na sua rede de apoio, que se mostrou uma valiosa fonte de auxílio quando ela aprendera a reconhecer que precisava de assistência e a pedir ajuda. Ela foi construir um sentido pelo qual valesse a pena viver. E encontrou nas coisas mínimas, nos sonhos, no desejo, nas situações de sua vida, nos seus amores, razões para continuar vivendo. Teve coragem de viver seu luto, e foi encontrando bem devagar um novo espaço emocional para o seu filho, voltando a viver lentamente. Foi voltando a acreditar que havia beleza, gentileza, solidariedade e bondade neste mundo. E refez sua vida. Para ser outra Elena. Para sempre. Compreendeu que o luto tem fim, mas não a saudade, que a acompanharia para sempre em sua vida, até o fim. Elena voltou a viver, e viver plenamente.

* * *

 Aprendi, não apenas teoricamente, que a perda é definitiva; o luto, não. Os vínculos permanecem, sempre. Por isso, pode-se dizer que o luto, enquanto processo, tem início, meio e final. Já a saudade, decorrente da perda definitiva, é para sempre.

 O fato é que diferentes laços afetivos são rompidos no decorrer da existência: um divórcio ou uma separação, a perda do emprego, a mudança da cidade, a saúde comprometida e a morte de uma pessoa significativa. Toda perda pressupõe um luto, ou seja, um trabalho de reaprendizado, um tempo absolutamente individual de adaptação à nova realidade, de elaboração e reorganização psíquica, de ajustes internos e externos, de reinvenção da vida, de fechar para balanço e de explorar o mundo novamente.

 Por vezes, alguma forma de ajuda extra será necessária; algumas pessoas precisarão de informação especializada, outras precisarão procurar ajuda profissional. Algumas pessoas, no entanto, não precisarão de ajuda extra, e viverão seus lutos com dignidade e coerência íntima ao lado dos seus amigos e sua família, com o apoio de sua crença religiosa ou não. No entanto, como afirma Colin Parkes (2009), psiquiatra inglês especialista em luto: “Nem todas as pessoas precisarão de ajuda adicional, além daquela oferecida pela família ou pelos amigos, mas para os que precisarem, é importante que recebam uma forma de ajuda que reconheça a difícil mudança que terão de realizar”.

 Dedico, desse modo, o meu abraço demorado, reconhecido, por fim, pela sua presença aqui, na esperança de que o seu retorno ao mundo, depois de finda a leitura, seja orientado, mesmo que minimamente, por alguma espécie de esperança e de gratidão. Peço licença para abraçá-lo (a) demoradamente, de novo e mais uma vez.

Bibliografia

 BOLWBY, J. 

Amor e perda: perda: tristeza e depressão – São Paulo: Martins Fontes, 2004.

KÜBLER-ROSS, E. 

Sobre a Morte e o Morrer: o que os doentes terminais têm para ensinar a médicos, enfermeiras, religiosos e aos seus próprios parentes – São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2008.PARKES, C. M.

 Amor e Perda: as raízes do luto e suas complicações – São Paulo, Summus Editorial, 2009.

 

Texto do livro Histórias de Amor na perda gestacional e neonatal

Autor: Rodrigo Luz

Texto do livro Histórias de Amor na perda gestacional e neonatal

Autor: Rodrigo Luz

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