Carta para uma mãe que perdeu seu filho

Relato do livro Histórias de Amor na perda gestacional e neonatal

Autora: Adriana Pittella Sudré

O dia 27 de setembro de 2014 ficará para sempre na minha lembrança. Nesse dia, recebemos a notícia da morte do Rafael, ainda dentro do útero, na 34ª semana de gestação. Hoje, quase um ano e meio depois, ao relembrar tudo o que vivenciei desde aquele dia, é impossível não reconhecer a grande transformação que aquele momento me proporcionou. Quando recebi o convite para escrever o meu relato e transmitir uma mensagem de superação para outras mães que passaram pela mesma dor, não pude deixar de pensar em como teria sido bom ter recebido uma mensagem como esta, naquele dia tão triste. Assim, inspirada nesse pensamento, resolvi “voltar no tempo” e escrever esta carta que gostaria tanto de ter recebido:

“Hoje seu coração foi partido em mil caquinhos e um abismo se abriu sob os seus pés. Ouvir a notícia de que o coração do seu filho já não bate mais no peito é algo tão insuportavelmente doloroso, que faz com que toda a alegria e esperança desapareçam como bolhas de sabão que estouram ao simples toque. Sim, a dor é grande, incapacitante e parece infinita. Mas é uma dor transformadora e que vai te mudar para sempre.

Saiba que a vida é cheia de coisas que nos fazem sofrer, mas o que fazemos a partir daí é que faz a diferença. Sim, você é forte e capaz de se reerguer, seguir em frente e aprender com a dor, apesar de agora tudo isso parecer algo tão distante. Não será uma tarefa fácil, mas você vai aprender que o abismo não é eterno, e que somos capazes de “juntar os caquinhos do coração”. Com o tempo a dor vai virar saudade, aos poucos, e será possível voltar a sorrir. Mas o choro às vezes será inevitável, e tenho certeza de que você chorará por ele até o fim da sua vida, pois o amor e a saudade são sentimentos eternos. Não se sinta culpada por chorar, pois as lágrimas expressam sentimentos, os quais sempre existirão, já que o amor não acaba com a morte.

Siga em frente, caminhando um dia de cada vez. Mas lembre-se de que você será sempre a mãe do Rafael, pois o título de mãe não é perdido quando se perde um filho, apesar do senso comum às vezes não reconhecer isso.

Portanto, quando a caminhada parecer impossível e a dor apertar no fundo do peito, lembre-se de todo o amor e aprendizado que a passagem do Rafael lhe proporcionou e use isso como força para seguir em frente. Você não será mais a mesma, pois esta dor tem um efeito transformador. Hoje será o primeiro dia de uma vida nova, cheia de aprendizado, superação e descoberta. Não tenha medo; você vai encontrar forças que nunca achou que existiriam. Um dia você vai ser capaz de “olhar para trás”, avaliar, ressignificar e ajudar outras pessoas. Acredite.”

Relato do livro Histórias de Amor na perda gestacional e neonatal

Autora: Adriana Pittella Sudré

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