Pra sempre, Alice!

 

Relato do livro Histórias de Amor na perda gestacional e neonatal

Autora: Raquel Couri

Vinte de março de 2015. Era véspera do início da primavera aqui nos Estados Unidos. E o nosso jardim não floresceu como imaginávamos. A nossa florzinha não chegou como planejado. Faltava tão pouco… três semanas… O nosso anjo foguetinho veio de surpresa, e também de surpresa nos deixou. A Alice não foi uma gravidez planejada. Mas foi extremamente bem recebida. De cara nos deixou muito felizes. Na véspera, tinha completado 36 semanas de gestação e tinha respirado aliviada. Sabia que, a partir daquele dia, se ela chegasse, poderia até estar pequenininha, mas estaria prontinha. Mas naquela noite, ela não se mexeu. Coloquei música para ela ouvir, pois adorava dançar na minha barriga. Não dançou. Era tarde, estava sozinha em casa com minha outra filha, Ana Carolina, de sete anos. Meu marido estava voando de volta do Brasil. E eu pensei: deve ser neura minha.

Quando ele chegou bem cedo no outro dia, disse que estava preocupada. Ele brincou com ela e disse: deve ser saudade do pai. Ela não respondeu. Ligamos para a médica, que nos mandou ir rapidamente para o hospital. No caminho, eu já sentia. Tinha algo errado. Mas o desespero alimentava a enorme esperança de que tudo acabaria bem. Já tinha tido um alarme falso, e pensava que tudo ia dar certo de novo. Entrei no hospital e fui rapidamente atendida. A enfermeira correu para escutar o coraçãozinho dela. Nada. Tentou várias posições. Nada. Eu sozinha na sala com ela, enquanto o meu marido cuidava da burocracia. Ela se desesperou. Eu mais ainda. Pedi para que chamassem meu marido, e ela também chamou a médica. Já nervosa, a médica nem conseguia fazer o aparelho de ultrassom funcionar. Meu marido, já comigo, repetia: – Vai ficar tudo bem. Mas não ficou. Quando ela enfim ligou o aparelho, olhou para mim, balançou a cabeça e disse: – Sinto muito.

Naquele momento, dei entrada no inferno. Nunca pensei que fosse sentir uma dor igual na minha vida. Eu gritava e a médica pedia para traduzir o que eu falava. Sim, passamos por tudo isso em outro país, em outro idioma. Tenho que reconhecer que, apesar dessa dificuldade, tive a imensa sorte de contar com uma equipe super cuidadosa e sensível. Nos levaram rapidamente para um quarto para podermos ficar mais à vontade.

A partir daí, experimentamos tudo que o inferno pode oferecer. Não pela equipe médica, mas pela situação em si. Eram milhares de perguntas e decisões a serem tomadas. E eu não conseguia acreditar no que estava acontecendo:

– O que você quer fazer agora?

– Oi? Como assim?

– Quer ir para casa pensar?

– Pensar em quê?

– Quer ligar para o seu obstetra? (A minha estava viajando.)

– Você quer cesárea ou induzir o parto?

Optamos por cesárea. Rapidamente, estávamos no centro cirúrgico. Rapidamente Alice estava em meus braços. Sim, eu quis muito vê-la e não me arrependo. Era a minha filha. Esperei tanto por aquele momento, contei semanas, dias… Foi tão perto… Ela veio, mas quem chorou fui eu. O seu choro tão imaginado não aconteceu. Linda! Simplesmente linda e perfeita. Minha filha. Nos levaram para uma salinha de recuperação com ela. Perguntaram se queríamos um padre. Ele veio, a abençoou e a batizou.

Estava próximo da hora da minha outra filha chegar da escola. Não queria que ninguém falasse com ela. Queria que ela soubesse pelo meu marido. Decidimos que o melhor seria ele ir ficar com ela e eu ficaria sozinha. Mais que a nossa dor, queríamos poder diminuir a dor dela. Duas amigas, dois anjos em minha vida, se revezariam no hospital até o dia seguinte, quando meus pais chegariam do Brasil.

Mais decisões, só que agora sozinha:

– Você quer chamar qual funerária? (Tinha recebido uma lista de três páginas com opções.)

– Vai enterrar ou cremar?

– Fará funeral?

Era impossível acreditar que era verdade. Era a vida nos torturando com os maiores requintes de crueldade. Eu, enterrar minha filha? Meu bebê? Não podia ser verdade. Decidi cremá-la. Mas, antes, ainda tive a oportunidade de passar algumas horas com ela. A enfermeira-anjo, que me acompanhou naquela noite, me disse que eu poderia ficar com ela até quando eu quisesse. Até quando? Dá para ser para sempre?

Muita gente achou mórbido o fato de eu ter ficado com ela. Eu não. Era a minha filha e a nossa chance de nos despedirmos. Encostei a pele dela na minha. Precisava senti-la. E sim, cheguei a pensar que um milagre aconteceria e que ela acordaria. Depois de um tempo, uma única enfermeira, claramente desavisada, entrou no quarto e disse:

– Que linda a sua filha! Parabéns!

Com um punhal no peito, saíram as palavras mais difíceis que já pronunciei em qualquer idioma:

– Mas ela está morta.

Nesse momento, sabia que tinha chegado a hora de nos despedir. Foi o adeus mais dolorido da minha vida. Mas ela tinha que ir. A partir daí, as horas passaram a durar uma eternidade, os dias nunca acabavam. Foi um pesadelo sem fim.Sair do hospital de mãos vazias e peito cheio, enfaixado para tentar conter o leite que teimava em vir alimentar um bebê que não estava mais comigo. Chegar em casa sem ela, sem a barriga… Não era mais eu. Eu tinha me transformado. Um pedaço enorme faltava. Teria que me reinventar sem ele. Mas como?

Lidar com a minha dor já era quase impossível. Mas lidar com a dor da minha filha, era insuportável. Como explicar o inexplicável para ela? Como dizer para uma criança de sete anos que a irmã tão esperada não viria mais? Fizemos tantos planos…Fomos para o banho assim que cheguei do hospital. Tomávamos banho juntas todos os dias: eu, ela e a Alice. Mas, dessa vez, não tinha Alice. Não tinha mais a barriga. Tinha um corpo estranho que toda mulher fica quando pare. Mas, normalmente, nem ligamos muito, porque temos o bebê que compensa tudo. Eu não tinha. Minha filha olhou para mim e disse:

– Essa não é você, mamãe. Está muito esquisita.

Eu, inocentemente, achando que ela estava falando daquele corpo desforme, comecei a explicar que era assim que ficavam as mulheres depois que os nenês saíam. Ela:

– Não estou falando disso. Estou falando desta máscara no seu rosto. Tira ela. Essa não é a minha mãe.

Nesse momento, me dei conta de que todo e qualquer esforço que eu fizesse para parecer bem para ela seria em vão. Estava marcada pela tristeza e, por mais que tentasse plantar um sorriso no rosto, ele seria visivelmente falso. Choramos muito juntas. Foram perguntas e mais perguntas sem resposta:

– Mãe, se Deus foi feito para fazer o bem, por que ele está fazendo isso com a gente?

– A Alice não veio porque achou que eu não seria uma boa irmã?

– Fui eu que não cuidei bem de você?

– Não quero te abraçar hoje, pois sinto saudades da sua barriga…

Muitos outros momentos difíceis ainda estavam por vir. Receber as cinzas dela, escolher onde espalhá-las, levar para o parque e se despedir mais uma vez. Tomar coragem para desmontar o quarto. Estava tudo pronto. Quarto decorado, roupinhas lavadas e organizadas por tamanho, mala do hospital pronta. Tudo personalizado e cuidadosamente preparado. Mas ela não usaria nada. O que fazer? Doar? Jogar fora? Guardar? O que era personalizado, doamos. Nenhum outro bebê que vier, se vier, será a Alice. O resto, guardamos num depósito fora de casa. Foi muito cedo e muito dolorido descartar tudo de uma só vez.

Aí começaram as datas. Nunca imaginei que o calendário pudesse ser tão cruel. Cinco dias depois que ela se foi, teve uma apresentação na escola da minha filha. Lá fui eu, como um zumbi, mas fui. Ela precisava de mim lá. Dor da cirurgia? Nenhuma! Acho que a dor no coração era tão grande, que nem percebi a dor física. Uma semana depois da perda da Alice, tivemos a festa de oito anos da Carol. Estava tudo organizado. Tínhamos planejado uma festa antecipada, pois o parto da Alice estava marcado para dois dias antes do aniversário da Carol. Nós três faríamos aniversário pertinho: eu em 8 de abril, Alice dia 10 e Carol dia 12. Tudo perfeitinho… Dez dias depois, veio a Páscoa. Dezoito dias depois de perder a Alice, veio o meu aniversário. De 40 anos! Queria pular aquela data. Não tinha nada para comemorar. Além de tudo o que estava passando, recebi nesse mesmo dia a notícia de que a empresa onde trabalho tinha sido vendida. Corria o risco de perder um emprego de doze anos. Sério, Deus, o que mais você reserva para mim esse ano? Fui tão má assim?

Aí veio o dia 10. E ela não veio. Que vazio… Todos os outros bebês da família, que estavam para nascer próximos, vieram. Ela não. Por que a minha não?Tive muito apoio da minha família. Meu marido foi e está sendo meu companheiro mais do que nunca. Mais do que ter uma filha juntos, perder uma filha juntos nos aproximou ainda mais. Meus pais e minhas três irmãs vieram e se revezaram comigo. Sem eles, não teria conseguido. Muitos amigos também ajudaram. Muito carinho. Mas sabia que logo todos voltariam para suas vidas e eu teria que voltar para a minha também. Sabia que existia amor, carinho e solidariedade pela minha perda. Mas também sabia que ia existir um limite – sim, existe um limite social para a dor. Sabia que uma hora as pessoas iam esperar e cobrar que eu ficasse bem. Não sabemos lidar com a dor e com o sofrimento, principalmente com o dos outros. E esse limite chegou. O dos outros, mas não o meu. Meu luto estava intenso, a dor só aumentava. Era desesperador. Mas as pessoas direta ou indiretamente começavam a cobrar a minha reação. Mas como?

Começam os “nãos”: Não pode se desesperar! Não adianta ficar se perguntando o porquê. Não tem resposta. Não brigue com Deus – ele sabe o que faz. Não reclame, você já tem outra filha. Não se desespere. Ela precisa de você. Não se culpe. Não se preocupe, você terá outro bebê. Quem disse que quero outro? Quero a Alice! Não chore mais! Ah, não! Nem chorar posso? Me tiram minha filha, sem aviso prévio nenhum, sem nenhuma chance de reação, e não posso nem chorar? Ah, posso sim. Chorei muito. Chorei tanto que tive uma infecção no olho. Chorei em público, chorei escondida, chorei quieta, chorei gritando. Chorei e ainda choro muito. Estou chorando agora, escrevendo este texto.

Aí vêm os traumas. Não consigo mais ver carrinho de bebê, bebês, mulheres grávidas… Dói! E eles estão por toda parte. Meu Deus! Será que algum dia conseguirei ver um bebê ou carrinho sem trauma? Sem lembrar da Alice? Acho que não. Lembro dela absolutamente todos os dias!

Fiquei por muito tempo sem lugar no mundo. Se estava em casa, me sentia sufocada pelo sofrimento, então saía. Se estava na rua, ficava inquieta, incomodada. Como assim o mundo lá fora não parou? Voltava para casa. Se estava acordada, me sentia esgotada de tanto sofrer. Queria dormir e acordar daquele pesadelo. Mas não conseguia. Nas poucas horas em que meu corpo apagava, sonhava com ela. E acordava, mas o pesadelo continuava. Era absolutamente a primeira coisa em que eu pensava quando abria os olhos. Era insuportável.

Coloquei todas as minhas armas para funcionar: li muito. Li de tudo: budismo, espiritismo, em inglês, em português… Rezava. Muito. Ao mesmo tempo que estava de mal com Deus, rezava. Pedia ajuda. Rezava e perguntava: por quê? O que fiz? Já fazia terapia. Intensifiquei. Pedi remédio. Não estava dando conta sozinha. Comecei a malhar. Resolvi voltar a trabalhar. Depois que minha família terminou de se revezar lá em casa, voltei. Depois de dois meses. Tudo muito estranho. Nada tinha graça, mas também nada me abalava. O processo de venda da empresa? Resolvi abstrair. Ia demorar quase um ano para acontecer. Eu tinha outras prioridades. Aquilo agora era besteira… E quantas pessoas vieram me parabenizar pelo bebê, pois não sabiam de nada… Não sei quem ficava pior: eu ou a pessoa quando ouvia minha resposta. E como doía dar aquela resposta!

O vazio era interminável. Minha vozinha, mulher sábia, vivida e sofrida, me ligou. Ela perdeu três filhos! Meu Deus, como ela ainda está viva? Ela me disse: – Olha, vão te dizer que a dor passa, mas a saudade fica. Mas é mentira. A dor também fica. Mas ela muda de cor…

Está difícil, é trabalhoso. Outro dia, chorando com minha mãe ao telefone, pedi para ela ligar para minha vó e perguntar onde ela tinha comprado a tinta para mudar a cor da dor, pois eu não estava encontrando. Minha mãe respondeu:

– Ela vai te responder que encontrará em Deus

E eu disse:

– Tenho falado direto com ele, mas acho que não me ouve.

E ela:

– Talvez você não esteja sabendo escutar.

Esta é minha luta hoje: aprender a escutá-lo. Acho até que já encontrei a loja de tintas, mas ainda não consegui comprar uma cor muito clara. E só consigo pintar um pedacinho pequeno de cada vez, mas estou progredindo. Não vou desistir. Tomei uma decisão no dia em que perdi a Alice: não seria uma pessoa amarga e totalmente infeliz. Mas também sabia que nunca mais seria completamente feliz. Como li num lindo texto uma vez, a alegria e a tristeza terão que fazer um pacto de convivência pacífica em mim.

E hoje, se Deus me oferecesse a chance de voltar no tempo e não engravidar, mesmo sabendo de todo o sofrimento, eu escolheria ter você comigo de novo, Alice. Foram 36 semanas de uma convivência única que nós tivemos. E essas 36 semanas valeram por toda eternidade. Te amo, minha anjinha foguetinho.

Para sempre te amo. Pra sempre, Alice!

Relato do livro Histórias de Amor na perda gestacional e neonatal

Autora: Raquel Couri

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2 comentários em “Pra sempre, Alice!

  1. Confesso q não tive estrutura para terminar de ler o relato da Raquel ….a cada parágrafo era como se estivesse vivenciando tudo o q ela relatava…muita dor pois sou mãe de 3 meninas mas mesmo assim a emoção ou comoção me invadiu.Nao tive estrutura para terminar a leitura pois lágrimas m vieram ao rosto e senti meu coração acelerar então resolvi parar de ler mas certa q em um outro momento estarei mais preparada para terminar de ler .Muito forte….me senti fraca por não ter conseguido terminar a leitura.Quem sabe em um outro momento.

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  2. Eu sofri muito quando soube Raquel, no dia seguinte, por uma me sabem de amiga em comum…. No dia anterior vc havia se queixado de dor, e como eu gostaria de ter te falado “liga pra sua médica, vá ao hospital” , em vez de dizer “vá para casa e descanse” …. Às vezes penso que eu poderia ter ajudado a mudar alguma coisa, mas já estava escrito o destino dela, de cada um de nós…. Foi difícil te mandar a primeira mensagem e perguntar como vc estava… Pergunta tão idiota com resposta tão óbvia…. E ler esse depoimento me fez chorar a cada palavra, pois acompanhei o crescimento da sua barriga e pude ver como estavam todos felizes. Dói tbm para quem é de longe mas está perto tbm (de alguma forma). Beijo grande.

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