Carta ao meu Vinícius

Querer contar nossa história faz dessa trajetória um pouco menos sofrida.

Nós (eu e seu pai) planejamos ter você. Te queríamos muito, mesmo antes de sua existência. Desde março fazendo exames, vendo se estava tudo certinho com a “sua casa” dentro de mim. E mês a mês ficamos na expectativa. Até que em julho você estava ali. Meu filho, meu bebê. Na primeira eco, eram dois. Na segunda, aparecia só você, meu amor. Aquele coração forte, batida acelerada. Meu Bebê Bolinha.

E cada exame era uma preocupação e um medo me rodeando… Parecia que eu sabia que em um deles eu ficaria sabendo que você não estava mais ali, comigo.

Foram 22 semanas de muuuuito amor, muito carinho, conversas antes de dormir, carinho quando eu dirigia, papai tocando pra você….

Meu filho….

Quando descobrimos que você seria nosso “Vinícius”, a família toda se encheu de alegria. O primeiro homem da família depois de 28 anos, pois sua prima e sua sobrinha eram meninas. Nossas lindas Gabriela e Bianca. Você, meu amor, encheu de luz a vida de todos nós.

Eu tinha minha vida perfeita. Tinha problemas, como todo mundo, mas saber que você estava ali, sentir você se mexendo dentro de mim desde as 11 semanas (como pode?!), conversar com você, imaginar você, imaginar te criar, te ter em meus braços… Aquilo tudo me enchia de alegria e nada me incomodava realmente.

Até que naquele dia, 26 de novembro, dormi muito mal. Sentia calafrios de pular na cama, e senti algo gelado no meu braço. Senti que era sua bisavó a me fazer carinho, pra me acalmar. Talvez uma gripe estivesse chegando, algum mal estar. Depois dormi tranquilamente. No dia 28 senti que algo estava errado. Não te senti chutar, mas senti se mexer. Ainda brinquei contigo e com teu pai de que você estava muito dorminhoco, esse meu preguicinha. Parecia a mamãe dele.

Mas aquilo era um aviso. Sua bisa esteve realmente ali, mas para te levar, meu amor. Te levar nesse novo caminho e te cuidar, já que eu não mais poderia fazer isso.

No dia 30, novamente nervosa, como sempre, fui fazer teu morfológico, te olhar pela TV. Estava com saudade e curiosa para saber como estava seu rostinho. Volta e meia olhava a gravação das outras ecos, sempre com muito amor, imaginando como seria estar ao seu lado (mesmo contigo dentro de mim).

Lá aconteceu o momento mais traumático da minha vida. A médica mal havia iniciado o exame e logo parou. Meu medo era você estar gordinho demais, pois eu havia engordado 10kg até ali, e não parava de comer (como sempre, mesmo antes de ter você dentro de mim). Ela respirou fundo e disse: “Tenho uma má notícia. O coração do teu bebê não está mais batendo.”

Meu Deus… Não podia ser verdade… Seu pai chorando em meus braços, e eu em choque. Não podia estar acontecendo. Não comigo, que te desejei tanto, que me cuidei tanto, que fiz todos os exames, estava fazendo exercício voltado para gestante, que tinha trocado toda a alimentação. Não comigo, que te amava tanto. Não, meu filho… Você não podia ter me deixado.

E entre nós voltarmos pra casa, irmos pro médico, irmos pro hospital, a internação, a indução do parto…. Não me recordo muito bem de tudo. Acho que minha cabeça deu um jeito de eu não sofrer tudo naquele momento.

Antes de você nascer, diziam que a indução poderia demorar até 72h. Eu sabia e dizia: “Meu filho vai nascer rápido. Ele não vai me fazer sofrer tanto.”

11h depois de iniciada a indução, você nasceu. Meu lindo. Tão perfeito. Tão maravilhoso. Meu bebê. Meu amor. Seus olhos estavam fechados, seu coração não batia, mas eu só conseguia ver como você era parecido com seu pai. Eu sorria por te ter ali, mesmo sabendo que nunca mais estaria comigo fisicamente.

O mês de dezembro foi complicado. Esperando o resultado da análise para tentar descobrir o que havia acontecido de errado para encerrar nossa vida perfeita, foram-se 22 dias. Quando fui em busca do laudo, me entregaram você, numa sacola de laboratório, e me mandaram colocar na geladeira para conservação. Como eu poderia colocar meu filho na minha geladeira? Como alguém poderia entregar um filho morto pra uma mãe daquela forma? Ninguém havia me dito que você seria dado a mim. Ninguém me preparou. E lá estava eu. Sozinha, com você no colo, dirigindo 50km até nossa casa, num calor de rachar, e eu sem saber o que fazer. Fui conversando contigo durante todo o caminho, enquanto sentia teu corpinho em minhas pernas.

Pude te colocar numa nova casa somente no dia seguinte, 23 de dezembro. E com dor em meu peito preparei tua cama, te coloquei na roupinha que teu avô mandou fazer pra você, um macacão camuflado (já que mamãe e papai são policiais militares), te cobri e papai te segurou. O lugar onde moraria era lindo. E agora você está lá. Longe do meu corpo, mas sempre em meus pensamentos.

Como alguém consegue passar por isso?!? Não sei. Venho me perguntando todos os dias. Mas sigo dia e noite pensando em você, em nós, em nossa vida perfeita e em como esse pesadelo me afetou. Fico te querendo de volta, mesmo sabendo que isso não é possível. As pessoas dizem que logo sua mamãe vai engravidar de novo. Eu sei que vou, meu amor, te dar irmãozinhos, mas ninguém fala pra uma mãe que perdeu seu filho com 30 anos que ela tem os outros filhos pra compensarem sua dor ou que ela logo terá outro. Um filho não substitui o outro. Uma história não apaga a outra. Eu quero você, mesmo sabendo que não posso te ter. E nunca mais te terei aqui. Quero meu Bebê Bolinha.

Meu filho, meu primogênito. Te amo.

Relato enviado pela mãe Amanda Carlini

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Um comentário em “Carta ao meu Vinícius

  1. Amanda li sua carta para seu filho,e achei muito comovente. Eu sou amiga de sua mãe há anos e também tive uma experiência traumática igual a você. Por coincidência na época eu estava com 30 anos e meu bebe com exatamente 22 semanas, era uma menina e seu nome era Paulla. Minha primeira gestação cheia de planos muito amor, fazendo todos os exames e acompanhamentos que uma gravidez requer. Quando em um final de semana fui a uma festa de casamento e lá comecei com muitos calafrios. No Domingo pela manhã liguei para o médico e o mesmo disse para não me preocupar pois havia me visto na mesma semana e estava tudo bem, que deveria ser um resfriado. Na segunda eu já estava com febre muito alta e fui levada diretamente para o Hospital , chegando lá verificaram que estava com uma anemia profunda (sem ter perdido um única gota de sangue) e que teria que fazer uma transfusão de sangue. Depois da melhora do meu quadro fui levada p fz a tomografia onde verificaram que não havia mais batimentos cardíacos, nesta hora o chão se abre e vc fica fora do ar tentando entender e se perguntando: “Porque comigo”? Bem também fiz parto induzido pois devido a minha anemia não podia perder uma gota de sangue. A Febre continuava alta e dores insuportáveis na nuca, e que foi esclarecida mais tarde pelo infectologista que eu estava entrando em um quadro de septicemia , e as dores na nuca era a infecção impedindo as passagens das hemácias e que resultou no quadro grave de anemia, pois o bebe já estava morto a um tempo dentro do meu organismo, bem…… me deram umas medicações e uma certa hora com muitas dores fui ao banheiro com uma vontade enorme de evacuar, porém era meu bebe nascendo,muito triste pari meu bebe no vaso sanitário, só vi os pés dela. Gritaram pelo médico que veio me socorrer colocaram em uma maca e terminaram os procedimentos. Bem ainda fiquei 15 dias no Hospital combatendo a infecção, chegou uma hora que pedi perdão dos pecados pois achava que iria também. Foi feita a autópsia do bebê era perfeita porém acharam o cordão umbilical retorcido. Acharam que a causa morte foi a não passagem de alimentação e oxigênio pelo cordão umbilical, então o bebê enfartou. Conheço muito bem a sua dor, mas ela vai amenizar com o tempo. O médico me pediu 06 meses para tentar nova gestação, então depois de 09 meses eu engravidei da minha filha Yohanna, e dois anos depois do meu filho Ygor, eles Graças à Deus são saudáveis e perfeitos e são a razão da minha vida. A sua história também terá um final feliz, tenho certeza absoluta. ESpero que compartilhando a minha história, tenha te ajudado a entender e que outras pessoas passam por este tipo de experiência e que não estamos sozinha. Tenha fé e tudo dará certo para vocês. Fiquem Com Deus, e um ótimo DOMINGO. Bjssssssssssssssssssss

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