História Bernardo

Há exatos dois anos, nascia aquele que representaria a maior alegria e a maior dor da minha vida, Bernardo, meu pequeno urso. Como eu queria tê-lo nos braços e apertar forte, sentir seu cheiro, cantar parabéns e fazer tudo que as mães fazem pelos seus filhos, infelizmente esse não foi o roteiro que escreveram para nós. Escrevo aqui tudo que posso dar nesse dia especial que é o seu aniversário, uma grande parte do meu coração.

A gravidez do Bernardo foi descoberta com susto, porque a notícia veio com um risco de aborto, havia um descolamento do saco gestacional e tive que fazer repouso absoluto por algumas semanas. Enfim passou o primeiro trimestre e com ele também o medo da perda, não havia mais risco de descolamento, o hematoma havia sumido, descobrimos que era um menino e foi a nossa época real de paz e felicidade, até as 24 semanas… Naquela semana percebi os pés um pouco inchados, achei que tivesse sido pela semana de trabalho ou pq não tinha ido para a hidroginástica, mas era a pré-eclampsia se apresentando precocemente. Dois dias depois fiz ultra e a médica que fez o exame, apontou maior resistência das artérias uterinas e minha pressão que sempre foi no máximo 11/8 estava em 16/10, o obstetra receitou medicação e comecei a fazer uma dieta sem sódio, acompanhada pelo nutricionista. Eu era disciplinada e aferia a pressão pelo menos 3x por dia. Todos os dias eram tensos, mas eu nunca achei que algo ia dar errado, sempre estive confiante.

As pessoas estranhavam pq nunca tive pressão alta, estava dentro do meu peso ideal (fiz dieta antes de engravidar inclusive), porém no meu caso, era uma doença específica da gestação e que só tem resolução com o final da gravidez. Seria difícil, mas era possível que tudo desse certo.

Com quase 33 semanas, nessa luta, em mais um ultrassom de rotina com a médica que descobriu a pré eclâmpsia e que fazia todas as ultras desde então, foi constatado que o líquido amniótico havia baixado e que meu bebê não estava ganhando peso como deveria, ela disse que eu deveria ligar para o meu médico e ir para o hospital. Era fim de tarde, combinamos com o médico de encontrá-lo na recepção do hospital, porém ele não estava lá, liguei e ele disse que poderia dar entrada com o plantonista e que ele logo chegaria. Estive internada por 6 dias e ele nunca apareceu, as enfermeiras ligavam e ele sempre dizia que ia. Fiquei passando de plantonista para plantonista, que não conheciam meu histórico e que diziam que era melhor esperar o meu médico pra decidir sobre o momento do parto. Detalhe, estava num grande hospital particular, acredito que se eu não tivesse plano de saúde e estivesse numa maternidade pública, a minha história poderia ser contada de outra forma. A médica que fazia os ultrassons, disse que meu líquido estava em 4,0 mas no hospital, me diziam que ela havia se enganado, que o líquido estava normal e que meu filho estava bem. A pressão sempre em 13 ou 14/09, nunca houve um pico maior que 16, mas esses valores eram suficientes para que meu filho estivesse em sofrimento.

Finalmente foi dia de plantão de uma médica extremamente grossa, que gritava com a equipe de enfermagem e respondia nossas perguntas de forma superficial, mas que resolveu me encaminhar para uma maternidade que tivesse UTI neonatal, dizendo somente que lá seria melhor assistida. Passaram o dia para arrumar essa transferência e quando a ambulância me deixou na maternidade, ainda na recepção o médico que tinha recebido relatório do hospital anterior, me disse que meu parto teria que acontecer imediatamente, eu olhei para meu marido e nessa hora já chorava e dizia que não era hora, que era cedo ainda, que todos os médicos que me viram no hospital disseram que ele estava bem e imaginava meu filho numa UTI. Esse médico, Doutor Ângelo, contrariando todas as experiências anteriores, me explicou tudo que estava acontecendo e me confortou dizendo que naquele momento, meu filho ficaria melhor aqui fora, não chorei mais, fiquei tranquila. Era pouco mais de 18h e eu não estava em jejum, no hospital tinham servido o café da noite, a médica grossa, não havia falado sobre possibilidade de parto naquele dia e nem havia me colocado em dieta zero, o médico se mostrou chateado com o descaso dos colegas do outro hospital e disse que faríamos o parto assim que possível. Fomos para o quarto e avisamos familiares e amigos próximos, para levarem a malinha do bebê e logo estávamos rodeados de gente, me passando força e dizendo que ele não ia ficar muito tempo na UTI, eu estava ansiosa e feliz pq ia ver o rostinho do meu filho ainda naquele dia, havia feito ultrasssom naquela manhã, ouvimos seu coração e vimos seu rostinho, ele passou o dia chutando e cada movimento me trazia tranquilidade. Auscultaram os batimentos do meu filho duas vezes, durante as 6 horas que passaram entre o momento da minha entrada e a hora do parto e ele estava forte e normal, a última vez que o senti foi as 22:30 quando ele fez um grande movimento, acredito que tenha sido ali sua despedida, mas eu não percebi, até rimos todos e falamos como ele parecia que ia ser sapeca. Era meia noite quando vieram me buscar para a cirurgia, entrei na sala sorrindo, lembro que não senti dor na anestesia e o anestesista sempre conversava comigo e alisava meus cabelos, achei que estava demorando demais e sentia que o médico empurrava bastante e com força a minha barriga, perto das costelas, soube depois que minha placenta estava acreta, muito fixada na parede uterina e que ele precisou cortar meu útero em dois lugares para retirar o Bernardo, por isso a demora. Só depois soube do risco que corria naquele momento.

Finalmente meu filho nasceu, a pediatra passou com ele correndo e o colocou num berço aquecido ainda na mesma sala cirúrgica. Elas estavam na frente e eu só via seu pezinho, lembro que pensava como ele era lindo, como tinha saído de mim, aquele pedacinho de gente perfeito, logo em seguida me dei conta de que tinha algo errado, ele não tinha chorado ainda e a movimentação da equipe estava diferente, havia muita agitação, ele estava sem batimentos, elas estavam tentando reanimá-lo, eu só chorava e acreditava que ele ia responder, afinal havia pouco tempo que ele estava bem. Não foi assim…

Lembro de ouvir palavras para que eu me acalmasse, que eu corria risco naquele momento, olhavam os monitores, alguém acariciava meus cabelos, lembro de segurar meu pequenino e de nem conseguir vê-lo direito de tantas lágrimas que inundavam meu olhar, lembro do calorzinho que vinha dele e de sentir muito sono… Depois  disso já me lembro de estar no quarto, meu marido me abraçava, eu tentava dizer alguma coisa e ele dizia, “eu sei meu bem” e chorava também, minha mãe, minha família, meus amigos, todos que esperavam na recepção foram liberados para subir e me dar apoio, me beijavam e tentavam não chorar, já era madrugada, eu sentia muito frio e meus olhos estavam pesados, haviam me sedado.

Lembro que o médico obstetra, na manhã seguinte antes de sair do plantão, veio me ver e contou que tinha perdido filhos gêmeos há muitos anos atrás, numa época em que não havia recursos, mas que não entendia pq demoraram 6 dias pra fazer alguma coisa e que meu filho estava sofrendo, enquanto todos os plantonistas diziam que eu podia esperar mais um pouco, a pediatra também veio e disse que o Bernardo era a segunda criança que ela perdia, por conta de negligência do hospital anterior, que demorava de encaminhar as pacientes pra lá. Depois disso, tudo é um borrão, viajo entre lembranças de conversas e visitas que não sei exatamente como foram, era como se eu não fosse capaz de processar tudo que acontecia. Meu marido, a madrinha do Bernardo e mais alguns amigos cuidaram de tudo com o serviço funerário, eu disse qual a roupinha que queria que ele vestisse e não vi mais o meu filho, a enfermeira disse que o traria, mas estavam me poupando de fortes emoções e eu não estava em condições de raciocinar sobre isso, minha mente bloqueou muitas lembranças dolorosas dos dias que se seguiram ao parto como a saída do hospital e a chegada em casa sem ele.

Demorei quase 2 meses para ir ao lugar onde o corpinho dele descansa, meu marido me contou como era seu caixãozinho,  como ele estava lindo ali deitado, todo arrumadinho, essa é uma lembrança que não pude ter e como eu gostaria de ter passado mais tempo com ele, quanto tempo me culpei por não estar em condições de pensar nisso, por não ter contado com essa possibilidade. Eu nunca pensei que meu filho pudesse morrer, chorava por medo de vê-lo sofrer numa UTI com tubos e fios, pedia muito a Deus que não o deixasse sofrer e talvez essa tenha sido a forma da minha prece ser atendida. Bernardo significa “forte como um urso” e assim ele foi, lutou muito pra ficar conosco apesar de toda a negligência que sofremos.

Claro que pensamos em processar os envolvidos, médicos, o primeiro hospital, o obstetra que me abandonou, mas reviver toda a dor enquanto o processo se arrastava, ia nos fazer sofrer e não ia trazer nosso filho de volta. Eu ainda precisava de cuidados e foi nisso que todos se concentraram, nesse processo perdi 3 amigos próximos, que simplesmente sumiram, acho que não sabiam como lidar com alguém de luto, enquanto que só precisavam oferecer  um abraço e dizer que estavam aqui, em compensação conheci um outro lado de pessoas que eu já conhecia, um lado maravilhoso, estive e ainda estou cercada de amor, desde que o Bernardo nasceu. Infelizmente nem todos sabem o que é empatia, não conseguem pensar pq é tão doloroso nos primeiros momentos algumas coisas e acham que estamos exagerando, valorizando demais nossa perda, assim como outras podem achar que vc deveria estar pior, é comum que pessoas que jamais passaram pela sua dor queiram julgar seu luto, mas não é aceitável e nem saudável mantê-las por perto.

Bernardo poderia representar muitas coisas tristes na nossa vida, mas decidimos que ele só significaria o bem e o bom, quebramos o ciclo de ódio, vingança e dor e ficamos só com a pureza que ele inspirava.  A mim, ele ensinou outra forma de viver a vida, de amar, de valorizar as pequenas coisas, de reconhecer o grande companheiro que a vida me deu, que segurou todas as barras comigo, que não saiu um dia do hospital, que acordava sacudido pelo meu choro e me ajudava a dormir novamente e era só ao lado dele que eu conseguia dormir nos primeiros meses. Bernardo nos fez pais, nos tornou uma família, não existem grandes brigas, existe mais compreensão, mais cumplicidade, mais perdão, existe a clareza que depois de dizer adeus a um filho, pouca coisa nos abala e que sozinhos não conseguiríamos.

Tenho a certeza de que meu filho vive, enquanto espírito imortal e que cresce em um lugar bonito, onde escuta minhas preces, visita os meus sonhos para matar a saudade e é feliz ao ver as pessoas que estamos nos tornando. Dois anos depois, a dor que esmagava meu peito e causava uma sensação de dor física, não sumiu, mas se transformou numa saudade que é boa de ter, uma dor que me lembra que eu conheci um sentimento que eu não imaginava existir, que é maior que eu, maior que a vida, maior que a morte, que é o amor por um filho.

Hoje pela manhã, no dia do seu aniversário, descobrimos que seremos pais de novo e essa foi mais uma forma de marcar a sua presença nas nossas vidas.

Esse relato foi escrito em julho, mas houve um problema com o arquivo e não conseguiram abrir, somente hoje tive ânimo pra reenviar nossa história, antes estava tensa com a nova gestação, tínhamos acabado de sofrer uma perda bem inicial e o medo nos rondava. Agora estou no oitavo mês e está tudo bem dessa vez, a Isadora está chegando e fizemos até fotos com as roupinhas dos dois. De uma coisa tenho certeza, um filho não substitui outro, mas nos ajuda a voltar a sorrir e dá vazão a todo amor que ficou represado no peito.

Obrigada meu pequeno, pelas 34 semanas em que estivemos juntos, obrigada por ainda estar conosco, obrigada por acender as luzes e mudar as nossas vidas! Sempre, sempre te amaremos!

Depoimento enviado pela mãe Mara Santana

 

 

 

 

 

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3 comentários em “História Bernardo

  1. Muito lindo e forte esse relato. Realmente é uma benção como tudo se transformou, como foi trabalhado todas as emoções e vocês seguiram em frente cada vez mais fortes! O Bernado teve mesmo um papel muito importante neste mundo…

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  2. Estou com olhos banhados em lágrimas… Conheci vocês dois na Uefs, Mara era do DA no ano que entrei, estava se formando. Cleo tive contato depois, acho q pelo DCE. Ambos seres admiráveis, serenos, mesmo com contato ao longe. Me alegro estarem juntos e poderem nos dar esse sublime relato. Ajuda sem dúvida a muitos pais. Felicidades a vocês! Abraços!

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