O Segundo Sol em sua cidade

Completou ontem um ano do lançamento do documentário O Segundo Sol. Estou tomando o tempo desse texto para silenciar a mente e deixar que as palavras simplesmente fluam numa tentativa de demonstrar o quão grata eu sou por ter podido criar o Segundo Sol, grata por entender profundamente que eu não poderia tê-lo feito sem a presença do Miguel na minha vida. Sim, hoje eu vejo como uma grande presença, a melhor força criadora e motriz que eu poderia ter tido é a existência do meu filho. Ontem uma grande amiga, que assim como a mim viu seu filho partir prematuramente disse num post de facebook : ” Somente uma coisa seria capaz de ser mais triste que a morte do Gui. É o fato dele nunca ter existido. Por aqueles breves dias eu faria tudo de novo.”(obrigada pela reflexão, Pat!). É muito verdadeiro que eu faria tudo de novo mesmo que soubesse o desfecho. É difícil pensar sobre isso? Acima de tudo muito doloroso? Onde incumbir a dor de ser um tipo de mensageira do amor? Todas essas perguntas permearam por muito tempo a minha mente e meu espírito e só através do luto, de sua passagem lenta e tortuosa, com apoio psicológico e espiritual que eu pude refletir sobre todas elas. E cada uma delas me permitiu criar o Segundo Sol, nele está impresso em palavras e sutilezas a essência do que foi o meu luto pessoal. E porque existiu tanta verdade nessas reflexões e questionamentos que posso supor que tenha realmente alcançado todas as mulheres que alcançou. Todas as pessoas, independente de serem mães de filhos que partiram, inclusive, porque eu entendo hoje que minhas reflexões são plurais, todos nós uma hora ou outra, entre rotinas aceleradas nos perguntamos em momentos difíceis, em outros processos de perdas metafóricas “com o que estamos lidando”? “O que é essa presença tão concreta que me faz sentir medo?” Essa presença que todos nós vamos encarar de frente um dia chamada morte?

Parece que minhas reflexões cercadas de muitas outras, com outras mulheres que deram voz às suas próprias mortes no documentário, e digo no plural porque ali ao falarem dos filhos que partiram essas pessoas estavam relatando todo um amontoado de expectativas perdidas e reformuladas, cada uma carregando suas subjetividades, suas crenças e desejos. Cada uma na espera de tornar todos os seus próprios questionamentos ali passíveis de entendimento. E não é isso que procuramos a cada dia? Ter o outro para nos compreender? Para calçar nossos sapatos por um dia sequer e depois descalça-los, olhar em nossos olhos e nos dizer “eu te entendo, completamente”. Já pensou em adentrar no universo particular de alguém e reconhecer ali uma dor? E essa dor se abrir como a uma flor de lótus e poder te dizer algo? Poder lhe dizer que nela existe fortaleza e pureza, ou lhe dizer que nela também existe revolta e incompreensão, dizer a você que ela é a falta de fé ou que ela é uma fé que daria pra encher um saquinho de grãos de mostarda. E se essa dor pudesse lhe pedir um abraço e quisesse sentar e contar uma história. Você estaria disponível?

O Segundo Sol me proporcionou calçar alguns sapatos, me reiterar de histórias que não foram iguais a minha e eu falo que senti por vezes a minha tão pequena, então percebi que toda essa troca depois do Segundo Sol me proporcionou outras perspectivas e aprendi carinhosamente a respeitar a minha própria, sem aumentá-la ou desfazê-la em sentido, apenas aceitá-la como ela é. Passei a entender que lidar de formas diferentes com essa dor não me aprisiona e nem me engrandece, apenas me coloca no meu caminho, que se abre a cada passo que eu dou e que me proporciona outras reflexões e outras possibilidades. E sobre essas pretendo contar por aqui.

O Segundo Sol em sua cidade surgiu da vontade de levar presencialmente, ainda que soubéssemos que o documentário sempre estaria e estará disponível online, gratuitamente, a essência do Segundo Sol, levar para a mesa redonda uma gama dessas reflexões que pautaram a concretização do documentário. Contar um pouquinho da história do Miguel e o quanto ele, desde aqui na minha barriga, foi uma presença inabalável e grandiosa. E quando partiu, o quanto revolucionou minha vida. Falar um pouco do que eu sei sobre perda gestacional ou neonatal pautada na minha própria vivência com grupos de apoio a essas mulheres, ser um canal empático onde essas vozes possam ser escutadas porque verdade seja dita né? Ainda nos vemos sozinhas dentro do luto, ainda estamos pautando nossos processos de reorganização emocional dentro do luto com ferramentas limitadas, porque a sociedade ainda carrega velhas crenças sobre o tema: perda gestacional, porque existem velhas fórmulas que parecem nunca ter abarcado os sentimentos do luto, porque existe o silenciamento do luto dentro do ambiente hospitalar assim como fora. Pela bagagem emocional que carrego dos últimos dois anos da partida do Miguel, pelo meu próprio caminho que vem sendo trilhado dentro das minhas possibilidades junto do meu companheiro Fabrício, da minha filha mais velha Cecília, dos meus pais, irmãos e amigos. Dentro das possibilidades que pude alcançar junto da nossa psicóloga Renata Duialibi, assim como todas as outras formas, sutis e particulares que formam quem eu sou depois do luto, para além do meu papel social. E assim como sentir de perto o que não sentimos quando estamos longe: a energia em volta do próprio tema.

Por esse conjunto multifacetado e complexo ainda que palpável a todos, já que é muito bom ter pessoas em volta para essa troca né? Tivemos a oportunidade de estar no Rio de Janeiro, através do grupo Do Luto à Luta e que depois nós do Segundo Sol viemos a nos tornar parceiros,  no começo do ano e poder sentir de perto a energia de cada uma das mulheres incríveis, de trocas e de respeito mútuo as diversas opiniões porque desde o início compreendi que cada um de nós está inserido dentro de seus universos particulares, e por causa dessa multiplicidade e diversidade poder construir juntas formas mais genuínas e amorosas de entendimento do luto na perda gestacional e neonatal.

Hoje quero compartilhar que um desses encontros maravilhosos do Segundo Sol  acontecerá dia 10/12 na Parnaíba – Piauí, juntamente com a AMA (apoio a mães de anjo). Estaremos lá para o I Encontro Multiprofissional de cuidados às mães de anjos, encontro elaborado para alcançar profissionais da área de saúde para a conscientização no acolhimento ao luto, para a melhoria em protocolos hospitalares em casos de perda gestacional/neonatal discutindo possibilidades para a humanização em atendimentos nos espaços de saúde públicos e privados da região de Parnaíba.

Acho que essa foi apenas uma reflexão dentro de tantas outras que eu tive ao longo do meu luto pessoal. Entendi que a cada ano vou fazer uma retrospectiva do Segundo Sol assim como sinto que é um projeto para toda vida  porque afinal ele não é estanque. Não acabará quando eu me propor a outros projetos pessoais  porque  faz parte de mim, apenas respeito o seu tempo, tempo de falar, de escutar o que o outro tem a me dizer e a seguir confiando que minha voz é ouvida e que posso contribuir aquele porcento para o movimento que vem sendo construído de acolhimento às mulheres que passam pela perda gestacional e/ou neonatal. Assim como em sua própria metáfora o Sol nunca acaba, ele nasce todos os dias e se põe nos mostrando que a vida é um ciclo a ditar o tempo: aquele de recolher, aquele de plantar, aquele de florescer e aquele de morrer. Por que não? Estamos todos aqui na tentativa não é? Nessa incrível tentativa de compreender que não é a vida o contrário da morte, o contrário da morte é o amor. E o amor permanece.

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