Sim, eu sou uma mãe do silêncio

Pesquisando sobre perdas gestacionais me surpreendi ao ler que as perdas gestacionais chegaram a 1/10 do número de nascimentos no Estado do RJ em 2014. Para uma proporção tão grande de casos, acho que os serviços de saúde deveriam estar muito melhor preparados para atender de forma mais humana estes pais.

No fim de 2015 recebi de uma amiga um recorte de jornal com um texto escrito pela jornalista Flávia Oliveira sobre as mães do silêncio. Quando li os exemplos de situações mencionados pela Flávia Oliveira, não pude deixar de pensar na minha história e em tudo o que vivenciamos. Por isso, resolvi compartilhar o nosso relato.
A perda do Rafael não foi a única perda gestacional que enfrentamos, mas ela foi a mais impactante, pelo tempo em que ele ficou conosco (8 meses), e por isso escolhi contar esta parte da história. Recebemos (eu e meu marido) a notícia da morte do Rafael (ainda dentro do útero) pela médica da emergência de uma maternidade particular. Fomos amparados e minha obstetra foi imediatamente contactada. A opção do parto cesáreo foi minha, mas minha médica me orientou sobre os prós e contras dos dois tipos de partos, seus riscos, e as razões de um parto normal ser mais indicado neste caso. Mas eu optei pelo parto cesáreo, pois naquele momento sentia que não tinha forças para mais dor e sofrimento. Não me arrependo da minha escolha e hoje pensando a respeito, faria da mesma forma. Optei também por não estar acordada durante o parto. Ao meu esposo foi dada a opção de entrar no centro cirúrgico e acompanhar o parto, mas ele não aceitou (hoje ele pensa diferente, mas vou deixar esta parte para ele contar um dia). Penso que, talvez por termos feito estas escolhas, ninguém nos perguntou se gostaríamos de ver, segurar ou nos despedir do nosso filho. Na hora da dor, não pensamos nisso, mas hoje nos arrependemos de não termos recebido esta chance (somente vimos o Rafael no dia do enterro, não sendo possível pegá-lo no colo ou guardar qualquer lembrança física dele, a não ser a imagem do seu rostinho que guardamos em nossas mentes e nossos corações).
Em nenhum momento durante o tempo que ficamos na maternidade, tivemos acompanhamento psicológico, e hoje considero que isso fez muita falta. Coube unicamente a nossa obstetra nos amparar e nos auxiliar. Quanto a isso, só tenho elogios, pois ela nos tratou sempre de maneira cuidadosa, carinhosa e humana. Naquele “mar de confusão” ainda se lembrou do meu medo de agulhas e do quanto eu precisava que segurassem a minha mão durante a anestesia. Se preocupou em marcar a minha retirada de pontos em um horário que não tivessem gestantes com bebês. Me mandava mensagens pelo celular para saber como estava minha recuperação, investigou todas as possibilidades de causa (mesmo as mais impossíveis e que eu teimava em levar para ela depois de pesquisar na internet), somente para me deixar mais tranquila. Enfim, considero que ela tenha feito tudo o que tinha a seu alcance e que estava dentro do seu conhecimento médico. Entretanto, pude perceber com tudo isso que os profissionais de saúde (incluindo a minha própria obstetra) e a estrutura de maternidade estão preparados para a vida e não para a morte. Pequenas coisas que passamos neste período poderiam ter sido muito diferentes se houvesse um melhor preparo. Por exemplo, minha médica nos ofereceu a possibilidade de realizar necropsia do bebê, mas nos falou que como nunca tinha passado por esta experiência em um serviço particular, não tinha certeza dos procedimentos para sua realização, mas imediatamente entrou em contato com a maternidade para pedir esclarecimento. Foi aí que começou um mar de confusões e informações desencontradas. Além de ninguém saber informar corretamente os procedimentos para preenchimento do atestado de óbito, o laboratório indicado pelo hospital para realizar a necrópsia sequer foi buscar o material. Minha obstetra teve que “correr atras” de outro laboratório para fazer os procedimentos. Tudo isso adiou a liberação do corpo para o enterro, além de trazer mais dor e sofrimento a mim e principalmente ao meu marido (que até hoje não sei como conseguiu dar conta de toda a burocracia sozinho).
Além disso, me lembro de ouvir alguém entrar no meu quarto (não sei se foi enfermeira ou técnica de enfermagem) e perguntar ao meu marido quando eu havia “ganho o bebê” e me lembro de ouvir a resposta sofrida e quase silenciosa dele para ela….
Me lembro de como doía toda a vez que escutava o choro do bebê do quarto ao lado. E perdi a conta de quantas vezes pedi ao meu marido para aumentar o volume da TV para abafar os choros de bebês.
Mas acho que o pior de todos os pequenos detalhes, foi o dia que recebi alta. Acho que é quase impossível descrever com exatidão o que senti durante os minutos em que saí andando do quarto em direção à saída da maternidade. Sair dali de “braços vazios” definitivamente já é uma sensação extremamente dolorosa, mas que fica ainda mais devastadora quando, durante todo o percurso, passamos por mães grávidas e suas famílias aguardando internação ou casais com seus bebês recém-nascidos que acabaram de receber alta e podemos sentir toda a felicidade que rodeia todos eles. E parece que toda a dor do mundo está concentrada apenas em nós…..
Entretanto, preciso também prestar reconhecimento a um belíssimo atendimento em especial, de duas enfermeiras (infelizmente não guardei o nome delas), que foram ao meu quarto me auxiliar no momento de levantar da cama pela primeira vez. A dor era quase insuportável naquele momento, e eu estava sentindo que não ia conseguir sair daquela cama. Mas me lembro até hoje das palavras delas: “minha filha, não sei se você tem alguma religião ou se acredita em alguma coisa, mas eu acredito. Eu sei que Deus não nos dá uma cruz mais pesada do que a que somos capazes de carregar. Você é forte e você vai conseguir”. Essas palavras foram transformadoras, e por isso só tenho a agradecer a estas duas desconhecidas.
Sim, eu fui forte. Aliás, todos nós (mães e pais do silêncio) fomos e somos fortes. Mas acho que precisamos ir mais além, precisamos “quebrar esse silêncio”.
Não me refiro aqui ao silêncio apenas de uma sala de parto sem um choro de bebê, mas a um silêncio muito maior e mais profundo, que vem da falta de se conversar sobre a perda. Este tema é tratado como um tabu, e os pais que sofrem acabam ficando isolados na sua dor, pois todos a sua volta evitam tocar no assunto, seja por medo de trazer a tona a dor do outro ou a sua própria dor. E assim, o silêncio permanece.
Sinceramente, hoje penso que a dor vai existir de qualquer jeito, falando ou não sobre o assunto. Posso dizer que me dói sim falar do Rafael, mas me dói muito mais a sensação de “inexistência ” que ele ganha quando ninguém mais fala dele.
Outro pensamento que quero deixar é: por que ninguém reconhece as mães e pais “do silêncio” nas datas comemorativas do dia dos pais e dia das mães? (Não precisa ser um parabéns festivo, apenas um reconhecimento).
Quem perdeu um pai ou uma mãe, continua lembrando deles nestas datas (e a pessoa não deixa de ter pai ou mãe só porque este faleceu…). Então, por que os pais que perdem seus filhos “deixam a categoria” de pais? Isso vai exatamente de encontro ao sentimento de “inexistência ” que mencionei antes.
O despreparo para lidar com o assunto começa nas próprias leis, as quais não permitem registrar o nome de natimortos e nem conceder a “licença maternidade”para mães de natimortos. É muito triste não poder registrar o nome do seu filho na certidão de óbito dele (o único lugar que pudemos colocar o nome do Rafael foi na lápide do cemitério….).
Então, por enquanto, tenho sim que concordar com o belíssimo texto da Flavia Oliveira, quando ela se refere a nós como “mães do silêncio”. Mas gostaria que este texto trouxesse com ele uma reflexão, a de que precisamos sair deste silêncio!
Por isso, penso que o meu texto pode servir como mais um passo nesta direção. Espero que ele possa ajudar outras mães e pais do silêncio a contarem também suas histórias. Mas acima de tudo, minha intenção ao contar a nossa história, é a de sensibilizar, de fazer com que todos reflitam sobre estes pontos de vista e, quem sabe, começar um movimento para quebrar este silêncio. Em especial, como participo da formação de muitos futuros médicos, gostaria que este texto pudesse tocar o coração de cada um deles, para que possam refletir sobre isso e, quem sabe, ajudar a mudar algumas destas práticas quando se tornarem os futuros médicos brilhantes que tenho certeza de que serão em breve.
Por isso, quero deixar o meu agradecimento a todos que leram este texto até aqui e deixar um convite: “vamos sair deste silêncio e conversar sobre isso?”

Texto da nossa colunista mensal Adriana Pittella Sudré

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7 comentários em “Sim, eu sou uma mãe do silêncio

  1. Adriana compartilho de muitos dos seus sentimentos e suas dores. Realmente os hospitais estão preparados para a vida, principalmente de bebês. Eu pude contar com um primo que trabalha no hospital e foi muito sensível a situação (meu filho nasceu com seis meses de gestacao e faleceu logo apos) com o auxílio dele me trocaram de quatro. O choro dos bebês, as portas dos quartos enfeitados, tudo multiplica nossa dor.
    A”inexistência” de nossos filhos machuca demais. A maioria prefere não comentar, não considerar nosso bebe para não nos “machucar” porém também considero pior. Me machuca ainda mais. Não adianta pensarem que não falando de nossos filhos irão nos aliviar a dor ou iremos esquece-los, pois eles não saem de nossa memória e nossos corações por nenhum segundo!

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  2. Muito bom seu texto Adriana sei exatamente e detalhadamente tudo que explica nesse texto! Perdi munha princesa Ana Beatriz ci. 7 meses de gestação e o que mais me chamou a atenção é de não sermos reconhecidas como mãe pela siciedade. Só pq não temos nossos bebês com a gente? Somos mães desde o momento em que pegamos o tão esperado POSITIVO.Um abraço!

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  3. Nossa e como minha história parecia eu mesma escrevendo 😞😞😞😞 do que porém eu com 40 semanas minha bb perfeita por uma negligência médica ela veio a falecer e horrível sair do hospital sem ela nos braços e novamente depois de 5 dias voltar pra lá com infecção e ter que ficar ao lado da sala de parto ouvindo o chorinho dos bebes onde na minha vez não ouvi o chorinho da minha e mto triste mesmo e vc So conseguir enterra-lá mais de 20 dias depois por conta do hospital não querer liberar a certidão o sofrimento foi mto maior nesse momento mais cada história que eu leio parece que me da forças pra seguir em frente e assim desde ontem que descobri a página agradeço a minha cunhada por me apresentar e assim vou tentando com ajuda e força de várias mamães de anjos a seguir em frente.
    Sou mãe sim de um anjo.

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