Outra escala de tempo

Querido filho,

A saudade está sempre presente dentro de mim. Há momentos em que ela se manifesta como uma lembrança agradável da gravidez, fazendo-me sorrir com a sensação de reviver aqueles dias. E há os momentos, menos frequentes, em que ela se apresenta de uma forma mais difícil, trazendo-me a tristeza de saber que terminaram as possibilidades do nosso contato físico.

À medida que o tempo passa, a recordação se torna cada vez mais leve e prazerosa. E isso se deve ao fato de que, numa das ocasiões em que a dor me visitou, eu fiz uma reflexão que me ajudou a driblar os pensamentos ruins. Então, agora procuro repeti-la quando preciso. Nessa reflexão, comparei a nossa relação com a relação que tenho com outras pessoas da família com as quais também me sinto bastante vinculada.

Observei que não vivo grudada nessas pessoas. Apesar de nos amarmos muito, não trabalhamos nos mesmos locais e com alguns não moro junto. Passamos várias horas longe. E quando estou na minha casa ou na minha mesa do escritório, não existe a menor necessidade de ficar com medo de elas terem ido embora ou desaparecido. Nossa distância não me causa angústia, medo, nem desespero, porque sei que se trata de uma separação circunstancial. Estamos separados apenas por termos tarefas diferentes a cumprir. E quando elas estiverem concluídas, vamos nos ver de novo. Sei que o amor que sentimos é o responsável por nos atrair. Portanto, é lógico que, no instante em que nossas atividades terminarem, procuraremos um abrigo comum e lá ocorrerá o reencontro.

Assim, penso que é a mesma coisa com você! Só que em outra escala de tempo. A existência espiritual é eterna e nessa natureza a dimensão do tempo é muito mais ampla. Nossa natureza física nos atrapalha a lidar com essa dimensão tão grande. Mas, quando tento olhar para a situação com a perspectiva do espírito, meu coração se acalma. Posso continuar cumprindo minhas tarefas com tranquilidade, com a certeza de que não nos perdemos. Só estamos esperando a oportunidade de voltarmos um para o outro, assim que for possível.

Beijinhos da mamãe,

Flavia Camargo. 27/10/16

(Mãe do Igor e Autora do livro Quatro Letras)

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