Da confrontação com a nossa mortalidade

 

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Foto: Adriana Thomaz

 

A ideia da morte pode nos salvar de uma vida não vivida

 

Rodrigo Luz

Membro do Laboratório de Tanatologia do IPUB/UFRJ e da Equipe do Do Luto à Luta

 

Acompanhei pessoas à morte e suas famílias, acolhi muitos indivíduos em seus lutos e em suas trajetórias pessoais, e extraí de cada um desses encontros um pouco de poesia, uma dose de delicadeza e uma narrativa que me retiram, constantemente, de meu modo cotidiano de ser. Aqui, segue um pouco do que tenho aprendido nessa trajetória.

Este artigo tem inspiração no trabalho de Irvin Yalom, sobretudo em seus livros Staring at the Sun, de 2008, e em seu livro técnico Existencial Psychoterapy, de 1980, assim como nos trabalhos de William Breitbart, psiquiatra norte-americano que trabalha com pessoas com câncer avançado. Ambos são minha fonte constante de inspiração, e suas ideias talvez estejam mais presentes em minha vida e em meu trabalho mais do que eu possa supor.

Ao fim do artigo, conto uma história de um um paciente em seu processo de construção de novos sentidos para a vida após o encontro com a possibilidade da morte. Nesta história, afasto as fronteiras entre as histórias de várias pessoas, enxertando questões comuns a diversos sujeitos que conheci e produzindo diálogos imaginários, adicionando, ainda, as minhas próprias reflexões. Qualquer pessoa que pretender reconhecer esta história estará, por certo, enganada.

 

“Nem o sol nem a morte podem ser olhados fixamente.”

François de La Rochefoucauld, Máxima 26.

 

Ter consciência de si mesmo é uma dádiva tão preciosa quanto a própria vida. Porém, é inegável que tal consciência traz consigo um alto preço: a ferida da nossa mortalidade. Nossa existência é sempre obscurecida pela ideia de que vamos crescer, nos desenvolver e, inevitavelmente, morrer.

Epicuro, talvez um dos grandes filósofos “existenciais” da história (é inegável a aproximação do pensamento de Epicuro com as filosofias existenciais contemporâneas), praticava o que ele denominava uma “filosofia médica” e afirmava que, assim como o médico devia tratar do corpo, o filósofo devia cuidar da alma. Segundo ele, havia um único objetivo para o filosofar: aliviar o sofrimento humano. E qual a causa desse sofrimento? Epicuro considerava que ele residia no medo onipresente da morte. Para aliviar esse medo, Epicuro desenvolveu muitos métodos suficientemente poderosos para ajudar os mortais a reinventar o modo como lidam com a própria mortalidade. Alguns deles tratarei aqui de forma indireta.

No entanto, assim como não conseguimos olhar para o sol fixamente, é igualmente impossível olhar fixamente para a morte. Ficaríamos paralisados, profundamente angustiados, o futuro perderia o sentido. Nós quase sempre a olhamos de maneira disfarçada, e não raro muito poetizada – talvez como um recurso para abraçar o inevitável sem o terror que a ideia da destruição nos proporcionaria.

Santo Agostinho escreveu que é “apenas perante a morte que o caráter de um homem nasce.” Muitos monges no período medieval mantinham uma caveira humana em suas celas para concentrar os pensamentos na mortalidade e para servir de lição à condução da vida.

Natualmente, aqui falamos da morte biológica, que mata nosso corpo, mas não aniquila a nossa história, porque há muitas formas de compreender o fenômeno da morte. No entanto, concordo inteiramente com Irvin Yalom, importante psicoterapeuta existencial norte-ameriano, cujo trabalho oferece grande contribuição para este artigo: Apesar de a morte nos destruir fisicamente, a ideia da morte pode nos salvar. E salvar, sobretudo, de uma vida não vivida.

 

 

Angústia da morte: crise e emergência de sentido

 

“Filosofar é se preparar para a morte.”

Cícero

 

Trabalhando com pacientes gravemente enfermos e com suas famílias, somos testemunhas de como a proximidade da morte pode despertar o melhor que temos dentro de nós, ampliando as nossas capacidades de receber e expressar amor, afeto, coragem, e viver com dignidade e coerência íntima, mesmo diante da possibilidade ou da proximidade da morte.

No entanto, esta também pode ser uma experiência de muita angústia e desespero existencial, pois podemos vivê-la observando muito fixamente para a ideia da desintegração que a morte provoca, com muitas culpas e dramas internos não elaborados e mal resolvidos. É como olhar muito fixamente para o sol, estando-se vulnerável e sem proteção: depois de um tempo, corre-se o risco de ficar cego.

O que tenho aprendido (e não faço generalizações indevidas, sob pena de cometer um equívoco significativo) é que as pessoas que alcançam um estado de paz e amorosidade são as que viveram bem suas vidas, e que têm em seu passado os nutrientes espirituais necessários para alcançar a plenitude e superar o medo que a proximidade do fim faz correr pelas nossas veias.

No entanto, não são apenas as pessoas com doenças graves que são convidadas a repensar suas vidas a partir de uma nova e radical perspectiva. A vida nos faz este convite muitas vezes, porque nós, seres humanos, somos pura transitoriedade. Impossível viver e sair incólume da existência sem as marcas do tempo, do transitar das experiências. Todos experimentamos uma série de experiências reveladoras, que podem nos ajudar a modificar nossa vida para melhor (dependendo de como lidamos com elas): luto pela morte de uma pessoa significativa, uma doença que ameaça a vida, o fim de um relacionamento, um marco importante na existência, filhos saindo de casa, mudança de residência, perda do emprego ou mudança da carreira e, finalmente, sonhos cheios de significado, que carregam uma mensagem do eu mais profundo.

No entanto, apesar de a ideia da morte ter o poder de nos ajudar a ter uma vida mais criativa, plena, bela e significativa, também podemos confrontá-la com muita angústia, um certo terror e um nível mais ou menos alto de desesperança em relação ao futuro.

Adultos atormentados pela angústia da morte são apenas homens e mulheres cuja cultura e recursos individuais falharam em revesti-los com uma capa protetora capaz de fazê-los resistir ao ar gélido da mortalidade. Eles podem ter se deparado com a morte muito cedo na vida; podem não ter experimentado uma relação segura de amor e expressão de afeto com seus pais; podem ter sido pessoas muito isoladas, que nunca compartilharam suas preocupações íntimas com a morte; ou simplesmente podem ter rejeitado as respostas que a cultura humana oferece sobre a vida depois da morte.

A angústia da morte – quero deixar esse ponto bem claro – pode aparecer de maneira mais ou menos explícita. Para algumas pessoas, a angústia é o pano de fundo da vida e qualquer atividade evoca a ideia de que um determinado momento não se repetirá. Até mesmo um filme antigo pode parecer doloroso, porque tais pessoas podem não conseguir, por exemplo, parar de pensar que todos aqueles atores tão geniais e importantes foram reduzidos a pó. Para outras pessoas, a angústia da morte é mais gritante, tendendo a irromper às três da manhã, deixando-as ofegantes com o espectro da morte. A ideia de que elas estarão mortas um dia, assim como todos ao seu redor, as deixa aterrorizadas. Assim, destaco que, em muitas pessoas, a angústia da morte é evidente e facilmente reconhecível, por mais aflitiva que seja. Em outras, ela é sutil, oculta por trás de sintomas diferentes, e só pode ser identificada por meio de uma cuidadosa exploração.

 

Joana sobreviveu – mas até quando?

“Agora ele experimentava um sentimento similar ao de um homem que, atravessando tranquilo uma ponte, percebe de repente que ela está quebrada e que existe um precipício embaixo dela. O precipício era a própria vida; a ponte era a vida artificial que Alexey Alexandrovith estava vivendo.”

Tolstói, em Anna Kariênina.

 

Joana havia fronteado uma doença grave. Apesar da sombra do prognóstico mais desfarovável, e lidando a descrença de muitos médicos, ela “sobreviveu” ao duro tratamento e ficou curada. No entanto, para Joana, o desafio permanecia. De fato, ela estava tomada por uma angústia terrível, que a impedia de olhar para o futuro com esperança e de engajar-se mais profundamente com a vida e com todos os seres que estavam ao seu redor.

Segundo Joana verbalizou, seu encontro definitivo com a morte apenas havia sido adiado. A morte ainda estava à espreita, dizia ela, sempre à espreita. Tudo a lembrava da morte, do fim, da transitoriedade. A ideia da morte não a levou a iluminar-se, mas a apagar-se. Seus olhos estavam “sem vida” quando nos encontramos na primeira vez, e sua angústia a visitava quase que rotineiramente, durante o sono noturno, através de crises que a acordavam e a faziam gritar e chorar. Ela sonhava que a morte viria lhe buscar – sem saber como e nem onde.

Com Joana, meu trabalho foi ajudá-la a se concectar profundamente comigo, em primeiro lugar, estabelecendo uma base de vínculo seguro. Uma forma muito particular de amor, naturalmente. Ela poderia igualmente falar o que quisesse, e eu não fugiria apavorado de sua presença. Descobri há tempos que os grandes poetas e escritores, desde a mais alta antiguidade, lidavam com a morte por meio de uma conexão profunda com outros seres – geralmente, uma conexão amorosa.

Minha relação com Joana precisaria ser amalgamada por uma profunda conexão, a fim de que eu pudesse ajudá-la a acessar sua sabedoria interna e acompanhá-la nessa difícil trajetória, até que ela estivesse mais fortalecida para avaliar o que seria importante eventualmente modificar em sua vida. Eu precisei me mostrar, me revelelar, compartilhar com ela minha ferida de mortalidade, e por isso defendo um certo nível de auto-revelação na terapia. Partilhei com ela alguns dos meus temores, e permiti e autorizei, assim, que ela partilhasse comigo os seus.

Joana identificou que havia se distanciado do propósito de sua vida, e que seus pensamentos recorrentes acerca da morte lhe falavam de alguma verdade a respeito dela mesma. Tinha estado morta há mais tempo do que supunha – aí Joana começava a desenterrar a sua sabedoria. Descobrir a “verdade” por conta própria foi fundamental para ela; eu tive que aprender a reconhecer e lidar com o tempo que sua sabedoria interna precisava para sinalizar e fazer emergir novos insights.

Com suas reflexões sobre a vida, e já profundamente conectada comigo, Joana foi redescobrindo a claridade, e o interesse pela vida começou a brotar do solo de sua alma. Eu apostava na sabedoria dos antigos, dos poetas e dos grandes filósofos, e não estava enganado: uma conexão profunda entre os seres pode nos ajudar a manejar a angústia e a encontrar uma vida mais plena de sentido e de significado. Lentamente, ela foi inventindo mais e mais nas pessoas que estavam ao redor dela, e em si mesma. O mundo foi retomando sua graça e beleza, e ela foi voltando a acreditar no valor do amor e da solidariedade. A morte se transformava lentamente não em algo a ser temido, mas em uma companheira.

Quando eu percebi que nosso trabalho estava chegando ao fim, Joana trouxe para o nosso encontro uma frase que ela havia encontrado há poucos dias: “Torna-te quem tu és.” Este conceito era conhecido por uma larga tradição filosófica que apostava que deveríamos nos tornar nós mesmos, e buscar um nível de coerência interna entre valores e atos da vida cotidiana. Examinamos o que essa frase significava naquele momento, e Joana percebeu que por muito tempo recusou o empréstimo da vida para evitar o débito da morte. Seus sonhos haviam sido enterrados na poeira do tempo. Joana voltou a sonhar com seu futuro. Era sua sabedoria que dava novos sinais de vitalidade.

 

Uma tentativa de conclusão (uma mera uma tentativa)

 

O que fazemos quando temos essas experiências que nos convidam a pensar na vida e eventualmente repensar a vida? Nos precipitamos numa atividade frenética buscando extinguir a angústia ou evitar o assunto? Nos distraímos com o trabalho e a rotina diária? Esquecemos as experiências, ignoramos nossos sonhos?

Insisto que um caminho possível para se construir uma vida plena é evitar a distração permanente, pois uma vida não examinada não vale a pena ser vivida. Cada um de nós conseguirá olhar um tempo para o sol, mas que esse olhar seja para apreciar a claridade da vida, e não para cegar o olhar.

Diz Sogyal Rinpoche, em O livro tibetano do viver e do morrer:

“Quando finalmente sabemos que estamos morrendo, e todos os outros seres estão morrendo conosco, começamos a ter uma percepção ardente, quase de cortar o coração, da fragilidade e da preciosidade de cada momento e de cada ser, e dela pode surgir uma compaixão profunda, luminosa e ilimitada por todos os seres.”

 

Estar consciente da morte tem suas vantagens. Essa consciência pode integrar nossa escuridão com a centelha de vida que ainda existe dentro de cada um de nós. Vale a pena pensar nisso.

 

___________

Contato:  rodrigo.luz@ufrj.br

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