Para Helena, com amor

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 Esta semana começou triste, escura, doída. Era para ter sido a última semana da gestação da minha Helena, e eu preciso falar sobre perda gestacional. O maior pânico da mulher que engravida e quer muito ter seu filho é vislumbrar a possibilidade de um aborto. As semanas passam, conta-se cada trimestre, rogando a Deus, com a fé que só as mães podem ter, pela saúde do bebê que cresce ali.

Perdi Helena na 30ª semana de uma gestação tranquila. Um cromossomo a mais se colocou entre nós duas, você se foi, e a dor veio me visitar em sua forma mais dilacerante. Deus conhece meus traços de ansiedade, e tenho certeza de que por isso não me permitiu saber da trissomia no início. Fomos poupadas de despedidas diárias e nos aproveitamos mutuamente. Hoje entendo e tenho uma gratidão imensa ao universo por isso.

A mim foi permitido planejar sua chegada. Escolhi roupinhas, papel de parede e crochetei suas fraldas. Imaginei você no vestido floral com sapato cor de rosa, chegando para a Noite de Natal na casa de vovô. A você, nada foi negado. Viajamos juntas. Dormimos muito. Você ouviu minhas músicas preferidas e, certamente, achou graça da voz desafinada da sua mãe. De repente, você já não estava mais ali. Foi-se, como um sopro. Aproveitou o “quentinho da mamãe” enquanto quis.

Helena levou consigo um tanto imenso de mim. Dizem que virou anjo, e anjo é divino, mas, convenhamos, eu não queria ser mãe de anjo. Ninguem quer ser mãe de anjo. Não queria um colo vazio que fere de morte e é incapaz de recompensar as dores físicas de uma cesária de emergência. Não queria um peito cheio de leite, doendo, até que a medicação finalmente fizesse efeito.

Vc chegou no silêncio de um centro cirúrgico, sob olhares desolados, enquanto eu deitava em um estado quase letárgico. Sua tia lhe olhou, rezou, cuidou de você, e ali você recebeu sua madrinha. Não lhe foi dada uma certidão de nascimento, nem nome no atestado de óbito, mas eu preciso que o mundo saiba que você existe em mim, minha Helena Maria Marrocos Almeida.

Perder um filho deveria ser proibido por lei. Rasga-se um coração que dói sem medida. A gente ouve tanto que “Deus quis assim” que começa a sentir-se mal, por não compreender a vontade divina tão prontamente. O silêncio de um abraço sincero traz muito mais conforto. Não diga à mãe de um natimorto que foi a vontade de Deus. Deus não pode “querer assim”, porque Ele é de misericórdia, cuida e zela por nós. Assim, eu creio. Essa mãe pode querer falar sobre o assunto, ou não. É preciso haver respeito. A mim, neste momento, faz bem falar.

Fui sustentada pelo amor de uma família forte. Aretuza me amparou na escuridão da saída daquele hospital calado, como que ciente de que dali saía uma mãe sem um bebê nos braços. Eu, ela e duas gargantas cheias de nós, guardando as vozes embargadas, embaladas por lentos passos. Ligiare lavava minhas lágrimas, enquanto banhava meu corpo que sangrava. Meus pais feridos sofriam a perda da neta menina de laços cor de rosa.

Minha filha amada, você se eternizou em mim. O poeta diz assim, e é fato. Sinto pela vida não vivida, mas tento ver você em Henrique e beijo sua face na dele também. Eu e seu pai seguimos, transformando a dor em luta diária, esperando que o tempo passe depressa.

A mim, agora, só resta a certeza de que Nossa Senhora lhe deu o colo sagrado, conduzindo você aos cuidados de Deus.  Que a eternidade nos aguarde e nos permita a troca de tanto amor represado. Por aqui, “vou me lembrar de você, só enquanto eu respirar”.

Com amor, sua mamãe.

Carta da mãe Lígia Verônica Marrocos Almeida

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Um comentário em “Para Helena, com amor

  1. Que deus possa confortar você é sua família nesse momento tão difícil também perdi minha bebé se chama Helena também hoje ela é um anjo meu anjo da guarda a ferida nunca cicatriza mais deus nos dá o consolo de cada dia fique com deus e sua Helena olha por você lá de cima meus sinceros pêsames

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