A perda gestacional existe e tem rosto e tem luto

DSC_6838.1.JPG
Sempre ouvi falar que a maior DOR do mundo é a dor do parto, que é uma dor insuportável, descobri que isso não é verdade, descobri que existem dores maiores e mais insuportáveis.
Descobri que a maior dor do mundo é sentir a dor do parto e não ter a recompensa.
Descobri que a maior dor do mundo é sentir a dor do parto e não ouvir aquele choro tão esperado.
Descobri que a maior dor do mundo é não ouvir o choro acabar quando se tem o primeiro contato de pele e o primeiro olhar mágico que diz tudo.
Descobri que a maior dor do mundo e sentir o leite sair do peito sem ter a quem dar.
Descobrir que a maior dor do mundo é sentir o útero voltando e não ter mais aquele ser tão esperado se movendo dentro da gente.
Descobrir que a maior dor do mundo é saber que seu bebê era o tão sonhado menino e que se foi.
Descobri que a maior dor do mundo é sair de braços vazios sem ter agora a quem ninar.
Descobri que a dor do parto pode durar 6, 12, 24 horas mais passa e que depois vem a recompensa.
Mas a verdadeira MAIOR DOR DO MUNDO, essa não passa, pode diminuir mas não passa. 
Descobri um nível muito mais elevado de dor: a dor da alma. Ela é invisível, porém insuportável. Ela sangra, mas a hemorragia não pode ser estancada por médicos mortais. Não existe treinamento para morte. Primeiro fazemos a prova, depois aprendemos a lidar com ela. Assim como a dor do meu parto foi abreviada, eu profetizo que a dor do meu luto também será. Só o Espírito Santo tem o poder de curar essa dor.

Simone Keller mãe de um anjo!
 
Agora vou contar sofre minha luta!
 Minha primeira luta foi na tentativa de engravidar. Foram 1 ano e 4 meses até o tão sonhado POSITIVO. Que alegria!!! Mas meu marido e eu combinamos de contar para os amigos depois de 12 semanas, pois sabemos que neste período é mais fácil ocorrer abortos. Passando este período espalhamos a noticia. Todos os amigos e familiar se alegraram conosco. 
 Fizemos o primeiro ultrassom e constatou que estava de 6 semanas e 6 dias até ai tudo bem. No segundo ultrassom constatou que estava de 13 semanas e 2 dias e que estava tudo bem, no entanto ocorreu uma pequena diferença de semanas era para ser 14 semanas e um dia, contudo o medico falou que era normal uma pequena diferença no começo, pois meu ciclo não era regular. Mas que a partir desta semana não poderia aparecer grandes diferenças se não deveríamos investigar e era para considerar o período de gestação de 13 semanas e 2 dias. Neste ultrassom o medico me disse que era uma menina. Eu sempre pensei que era um menino, não sei por que, perguntei o medido se ele tinha certeza que era uma menina, ele disse sim, com certeza podia falar para todos que eu seria mãe de uma menininha. Meu marido ficou todo bobo, pois sonhava em ser pai de uma mocinha.
 Com 17 semanas começou a sair uma borra de café. Mandei uma mensagem para minha medica que mandou ir ao hospital, saber se estava tudo bem. Assim foi feito. Chegando lá a medica fez o toque e ouviu o coração, foi um alivio ouvir aquele som, mas lá não tinha uma ultrassom de urgência (a noite), somente após às 7 da manhã. O que achei um absurdo! Mas a medica me tranquilizou e falou que era normal aquela borra de café naquele período da gestação que eu podia fazer outro dia, assim me passou o pedido.
 Sendo assim fiz o ultrassom onde apareceu o bebê super bem, no entanto pequeno pelo período da gestação. Considerando o período de contagem fixado pelo medico eu deveria estar de 18 semanas e 3 dias, no entanto demonstrava uma gestação de 16 semanas e 5 dias, mesmo assim com boa vitalidade fetal (considerando a ultima menstruação eu deveria está de 19 semanas e 2 dias). O medico do ultrassom informou que a placenta estava espessada heterogênea e era por isso que o bebê era pequeno, mas que era normal e o que iria acontecer era o bebê nascer com peso baixo, perguntei se tinha algo que eu podia fazer para ajudar no desenvolvimento do bebê e ele disse que não. E mais uma vez confirmou ser um menina. Depois deste dia não tive mais tranquilidade. Colegas falaram que eu não devia me preocupar se o medico falou que estava tudo bem. Mas eu sabia que não estava nada bem,  mãe sabe, mãe sente. Chorei, orei e fui à minha medica. Ela disse que poderia ser varias coisas, mas que como o bebê e eu estávamos bem que a única coisa que poderia fazer era esperar, “a natureza responder”.
 Com 20 semanas levantei a noite fui ao banheiro e vi que sangrei, corremos para o hospital, chegando lá o medico fez o toque e ouviu o coração do bebê, mais uma vez um alivio ouvi o som mais lindo do mundo, mas pediu um ultrassom, pois não era normal o sangue. Mas uma vez não havia ultrassom de urgência esperei a noite toda, pois desta vez o medido disse que deveríamos nos preocupar. Chorei a noite toda preocupada e orando. De manhã, em uma quarta-feira, a médica fez o ultrassom falou que o bebê estava mexendo muito e tinha boa vitalidade, o motivo do sangramento era porque a placenta era previa (baixa) e havia pequenos hematomas e mais uma vez confirmou ser uma menininha. Nesse ultrassom a gestação demonstrava ser de 17 semanas e 2 dias. Fiquei muito triste, cada vez o bebê desenvolvia menos, mais havia vida então havia esperança.
Fui para minha ginecologista, no mesmo dia, ela pediu repouso absoluto, me passou ASS para tomar e falou para marcar um geneticista para fazermos uma pesquisa e salvar meu bebê. Fui para casa marquei o especialista, para sexta da próxima semana, pois o medico não tinha horário mais próximo disponível. Fui para casa ficar de repouso chorei… chorei… chorei… Fui orar e Deus me deu uma palavra: “Amados, não estranheis o fogo ardente que surge no meio de vós, destinado a provar-vos como se alguma coisa extraordinária vos estivesse acontecendo, pelo contrário, alegrai-vos na medida em que sois coparticipantes dos sofrimentos de Cristo, para que também, na revelação de sua, glória, vos alegreis exultando. Por isso, também os que sofrem segundo a vontade de Deus encomendem a sua alma ao fiel Criador, na prática do bem” 1Pedro 4-12-19. Nesta hora chorei mais ainda, pois agora estava confirmado que algo iria acontecer. Pensei que o bebê iria nascer com alguma deficiência, que a gravidez não iria ser fácil, que talvez eu morresse etc. Mas nunca pensei na morte do meu bebê, nunca. 
 Não deu tempo de ir ao geneticista, pois na quarta feira da próxima semana senti um estouro dentro de mim (era a bolsa e eu não sabia). Começou a sair muito sangue e não parava, pensei que era uma hemorragia, cheguei mais uma vez no hospital a medica pediu um ultrassom de urgência. Foi ai que recebi a pior noticia, não havia batimento no coração. A médica foi uma benção muito delicada ao dar a noticia. Não chorei, a única coisa que pensei foi Deus sabe de todas as coisas. Voltei para a ginecologista de plantão, ela falou que a bolsa tinha estourada e que eu estava com 3 dedos de dilatação e que me induziria ao parto normal, pois assim seria melhor para mim, uma vez que estava com 21 semanas (pela ultima menstruação seria 22 semanas e 2 dias) assim o bebê já estava formado, ele era pequeno e que não iria ser difícil o trabalho de parto, então seria melhor induzir para evitar perder o útero, eu só falei ok.
 Meu marido foi providenciar a internação enquanto eu esperava no corredor sentada em um cadeira de rodas, eu estava super normal, não estava triste, estava tranquila. Fui internada veio uma enfermeira e colocou 4 comprimidos em mim. Em uma hora já comecei a sentir dores. Veio uma ginecologista e me falou que eu iria passar por tudo que uma mulher passa para ganhar um bebê, que poderia demorar até um dia para o bebê sair. Depois de algumas horas o medica retornou fez o toque e informou que eu estava com 4 dedos de dilatação, somente após este momento que chorei, gritei, desesperei. Falei que estava com dor, tinha somente 4 de dilatação, que estava passando por tudo aquilo e não teria minha recompensa. Queria um remédio para a dor passar. A médica me falou que devia esperar mais tempo para ser mais rápido. Ela me colocou no chuveiro quente e foi embora, meu marido ficou me molhado e eu sentindo dor, pedindo Deus para ter misericórdia de mim e para tirar o bebê. Depois de um tempo vi o pezinho sair, gritei e fiquei desesperada, meu marido levantou meu rosto (não vi o bebê), a enfermeira veio correndo, pegou o bebê que continuava em mim, pois a placenta não saiu. Me levante fui para cama, continuei com dor até a placenta sair.
 Perguntaram-me se eu queria ver o bebê, falei que não, pois estava desesperada e em pânico. Fui para o bloco cirúrgico fazer a curetagem, lá me informaram que era um menino (eu sabia que era um menino). Voltei para o quarto, chorei a noite toda, me colocaram junto com as mães que tinham seus bebês, foi horrível e doloroso. 
 No dia seguinte fui embora, com o colo vazio, meu marido providenciou as documentações e o enterro do bebê (sozinho). Eu não queria ver ninguém, falar com ninguém, fazer nada, queria a morte. Recebia mensagens e ouvi muita coisa que não gostaria te ter ouvido. Mas também gostaria de ter respondido e não o fiz, só pensei:
 “Isso vai passar”: não vai passar, não dá para esquecer. A dor não passa a gente acostuma com ela e sobrevive.
“Você terá outro filho”: cada filho é único, até mesmo os que não nasceram, e saiba eu morreria por este. Eu pensei na minha morte, mas nunca na morte dele.
“Você é nova terá outra oportunidade”: minha oportunidade com este filho não volta mais. Qual mãe tenha 10 filhos pode perder 1 e estará tudo bem?
“Deus quis assim”: O Deus que eu sirvo é um Deus de amor, Ele não quer que ninguém sofra. Ele não queria isso para mim.
“Este bebê provavelmente viria com defeito”: meu bebê não teve oportunidade de viver, não sentir seu cheiro, não carreguei no colo, quem disse que eu não o amaria da forma que ele viesse ao mundo?
“Que bom que foi no início (seis meses) poderia ser pior”: eu já amava este bebê, eu já tinha planos para ele. Qual mãe que perdendo seu filho aos 18 anos, trocaria perder ele com 6 meses da gestação para diminuir sua dor? A dor não é menor. Eu não sei o cheiro do meu bebê, eu não conheci seu sorriso, não sei sua voz. Tristeza é não conhecer alguém tão conhecido e sentido.
“Eu sei o que você está sentindo”: ninguém sabe a dor do outro, cada um sente de uma forma.
“Você tem que superar rápido”: daria tudo para não está nesta situação, não foi uma opção minha.
“Foi uma perda gestacional”: Eu não perdi uma coisa, eu perdi um filho eu enterrei meu bebê, você não conheceu mais eu sim.
“Você está bem?”: dou um sorriso dizendo que sim, mais na realidade quero chorar e gritar não!  
“O tempo cura tudo”: Quem disse que quero ser curada, quero meu bebê comigo agora, e a dor é a forma que tenho de ainda senti-lo comigo!
“Você nasceu assim com este problema na placenta”: Jesus que tamanha ignorância, já não basta eu esta me sentindo uma inútil eu ainda tenho que ouvir isso.

 Como todas as mães de anjo, veio a vontade de entender, assim começou a perguntas: “Deus porque eu? Porque comigo?” E Deus me respondeu “por que não você?” Eu continuei querendo respostas: “Se eu tivesse feito isso! Onde eu errei? O que eu fiz para merecer isso?” e Deus continuou tratando no meu coração e falou: “Não te mandei eu? Sê forte e corajoso; não temas, nem te espantes, porque o Senhor, teu Deus, é contigo por onde quer que andares.” Josué 1:9.
Três dias após o parto o leite desceu, e por um momento eu fiquei feliz, pois era isso que eu esperava, mas depois a realidade bateu e vi que meu menino não estava aqui. Fiz o que a medica mandou, apertei os seios, não tomei banho quente e tomei remédio para secar o leite. Meus seios estavam enormes e doloridos. Meu marido fazia massagem para tirar as pedras que já estavam se formando e com 3 dias o leite se foi assim como meu bebê. Me sentir incapaz, derrotada, inútil e culpada por não ter conseguido dar a vida fora do útero para meu bebê.
 Eu assistir muitos vídeos na internet, o que mais me ajudou foi um documentário chamado: “O segundo sol”. O documentário diz tudo é perfeito, é incrível como é desta forma, sonhos que foram embora e que não voltam mais. Mães e pais sempre pensam na vida e não na morte. E quando ela vem não tem explicação, não tem palavras de conforto, somos impedido de viver tudo aquilo que sonhamos. Meu filho viveu, cresceu, morreu e nasceu, sendo que a lógica da vida seria nascer, crescer, viver e morrer.
Hoje o que me chateia são os profissionais (médicos) acharem que tudo o que acontece é normal. Desde a alteração das datas de gestação, da borra de café ao sangramento tudo era normal! Acredito que os profissionais pensam assim: “a gestação ainda está recente, a mãe está bem não tem com que se preocupar, pois é somente um feto, um embrião ou um bebê, que nascerá doente, não viverá”. Mas o que os médicos deveriam se preocupar era se este bebê morrer podem matar um pedaço da mãe que nunca mais voltará a ser como era. 
O sofrimento é algo que a condição humana rejeita de imediato, mas temos que saber aproveitar cada momento para produzir algo de bom em nossa vida. Após uma dor, cada um de nós saímos mais conscientes e mais humanos. Eu nunca pensei e imaginei que uma perda gestacional doeria tanto, hoje sei porque passei e sei que vou ajudar muitas mulheres que passarão ou passaram por isso.
E como muitos me falaram e eu não acreditava e não queria aceitar, o tempo da cura é indeterminado mas vem, e a dor se transforma em saudade. Hoje sei que Deus fez o melhor para mim e para meu bebê sou mãe de anjo, penso que muitas mulheres não teve e nunca saberão o que é ter um bebê em seu ventre, pois são inférteis, e Deus na sua infinita misericórdia me concedeu este milagre, meu útero é perfeito posso engravidar novamente e isso é maravilhoso. Deus livrou meu bebê e eu de um sofrimento maior. Ele poderia nascer doente e ficar dias, meses e anos em hospitais sofrendo, com remédios, agulhas, cirurgias, dores e mais dores. No momento da minha dor, mesmo pensando que ele poderia nascer doente eu o queria comigo, mais hoje vejo que isso era egoísmo, ele sofreria.
Sei que vou encontra-lo quando Jesus me levar então tenho que fazer o melhor nesta terra para merecer o reino de Deus e encontrar meu anjo. Meu anjo me mudou, deixou um pedaço dele comigo e levou um pedaço de mim. Esquecer jamais e também não quero, meu filho não esta ao meu lado, mas existe e sempre existirá. Agora fica a saudade que as vezes aperta o coração, a esperança de dias melhores e o amor infinito que ficará eternamente no meu coração. 
Saiba esta luta mudou minha vida e minhas lutas não definem quem é Deus para mim! Ele continuará sendo meu Deus e meu anjo continuará sendo meu filho.
Relato da mãe Simone Keller
Anúncios

4 comentários em “A perda gestacional existe e tem rosto e tem luto

  1. Me emocionei com o seu relato, e me vi em cada palavra as quais vc escreveu, sim,somos mãe de anjos, é una dor insuperável, mais Deus na sua infinita sabedoria nos dá a conformação necessária, lindo texto 😍😇😇😇😇

    Curtir

  2. Ola que lindo texto!!! E fala exatamente o que sinto. Nenhuma dor é maior que a dor da perca! E vou levar sempre comigo minha bebé estaria com dois anos e a saudade só aumenta mas resolvi deixar guardadinha em meu coração pois preciso dar continuidade à minha vida. Sinto muito por cada mãe que fica sem seu bebê e peço a Deus o conforto a todas!!

    Curtir

  3. Noossa me vi nesse relato, tb perdi meu anjinho com 22 semanas, cordão umbilical hiperespiralado, ele não desenvolveu como deveria, isso já fazer 10 meses e 24 dias, a saudade eh imensa, choro as vezes, lembro dele todos os dias, sabia desde que engravidei que era um menino e as pessoas diziam que eu era doida, que não era menino, sonhei com ele me dizendo que seu nome era Guilherme, entao seu nome ele msm havia escolhido. Sinto me deprimida as x, qd vejo minhas conhecidas que estavam grávidas na msm época em que eu com seus tesouros nos braços e eu não!! Mas sempre procuro ter forças e acreditar que ele cumpriu a missão dele é me deixou cumprir parte da minha. Tenho mt medo de uma nova gestação, as vezes penso que não qro mais, a dor da perda é o sofrimento foram imensuráveis! Fike com Deus, bjos!

    Curtir

  4. Obrigada por compartilhar sua dor. Dia 11 de novembro eu perdi meu filho, seu coração parou. Ele tinha 7 semanas e 5 dias. Foi a primeira vez que o vi em uma TV,só que sem vida. Tive um aborto no dia seguinte e o peguei no vaso do banheiro. Ainda dói muito. A dor do “e Se” é terrível. Deus é bom o tempo todo e tudo o que ele faz é perfeito. Um dia lembrei só com amor. Obrigada.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s