As pedras que encontramos pelo caminho

“No meio do caminho tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra

Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra.”

No Meio do Caminho – Carlos Drummond de Andrade

 

Conheço esse poema há bastante tempo, e volta e meia retorno a lê-lo. Ele se encaixa perfeitamente em vários momentos da vida, porque quase sempre “tem uma pedra no meio do caminho”. E como existe vida nessas retinas cansadas, há vida para ver cada pedra, há vida tocando pedras… A vida tocando… Foi assim quando eu engravidei. O aborto foi uma pedra bem no meio do meu caminho.

Agora, na produção do meu espetáculo, também encontrei “algumas pedras pelo caminho”. Eu sabia que não seria fácil, mas não imaginei que seria tão difícil!

Depois de tanta pesquisa, tantos relatos e um amontoado de anotações, acreditei que transferir as informações do papel para o meu corpo seria um trabalho fácil. Não sei o motivo ao certo, mas estou tendo uma dificuldade enorme em transformar as experiências vividas por eu mesma, e por tantas outras pessoas, em dança. Isso por um lado é bom. Pois eu estou grávida. Estou grávida de arte. Estou gerando dança, não no meu útero, mas em cada pedaço de mim. Está para nascer uma dança que vem desde o meu pensamento e ganhará tudo… Ganhará a minha pele.

Fico tentando encontrar um porquê para as dificuldades todas. Talvez por ser uma experiência muito recente na minha vida; talvez seja por nem tudo dizer respeito a mim; talvez pelo tamanho da responsabilidade; ou simplesmente porque estou sobrecarregada; talvez seja por medo do resultado final não me agradar, não agradar a plateia, ou não agradar às mulheres que represento, mulheres que fizeram de suas vidas um livro aberto, ou que sofreram sozinhas, mulheres que passaram por tamanha dor, que só quem vive sabe.

É estranho o fato de tudo ser tão real, tão intenso e verdadeiro em mim. As lembranças são tão vívidas, e ainda assim, eu não consigo produzir. Desde que iniciei o processo coreográfico do espetáculo “Dessas Interrupções”, tenho coreografado outras coisas, outros projetos, outros bailarinos, e tudo tem fluído tão bem. Então, porque especificamente esse trabalho não rende?

Às vezes penso que isso está acontecendo como uma espécie de mecanismo de defesa. Que minha mente bloqueou criativamente por medo de que a partir do momento que as palavras ganhem meu corpo eu reviva tudo aquilo que passei, e que de certa forma está guardado dentro de mim. Outro dia eu estava dando uma aula particular para um adulto que nunca antes tivera dançado. Ele procurou a dança como forma de se conhecer melhor, e em determinado momento da aula, ele começou a chorar, e eu o deixei “pôr para fora”. Não sei se foi algo que veio a mente, não sei se foi além do consciente, mas alguma coisa veio. Depois, no final da aula ele disse: “Não sei o que aconteceu comigo!”

É fato que o corpo tem memória, e a dança tem o poder de resgatar essas memórias, que muitas vezes se encontram esquecidas, abandonadas em nosso subconsciente. Por um motivo ou outro, a mente as vezes esquece, mas o corpo com o estímulo certo lembra, ele sempre lembra. Desde coisas simples, como andar de bicicleta depois de muitos anos sem fazê-lo, até experiências mais intensas como o abraço de um alguém novo, que seu corpo reconhece como familiar por possivelmente se parecer muito com o abraço de alguém que lhe faz falta. Como o cheiro de algo que lhe lembra a infância; como o gosto de alguma comida permanece gravado em seu paladar; como um gesto, um carinho simples há muito recebido e que lhe faz falta sem ao menos você entender o porquê. Então, será que é isso que está acontecendo comigo? Estou com medo – mais uma vez ele – de que a dança resgate as memórias corporais vividas e que os sentimentos veiam à tona?  E o objetivo não é exatamente esse?

Mas nem tudo são pesos e pedras, existem levezas no processo, e se por um lado o processo coreográfico anda meio devagar, a direção está fluindo que é uma beleza. Meu diretor, Daniel Henrique Sagave é uma pessoa cheia de ideias, quando meu pensamento está indo para algum lugar, ele já foi e voltou com tudo pronto!

Nesse parir de ideias tivemos algumas pequenas alegrias, e o fato de elas serem pequenas não as tornam menos interessantes. Compartilho com vocês uma delas: Durante o espetáculo, utilizarei um tecido como elemento cênico, esse tecido é pura afetividade, esse tecido é cada mulher representada, lá, na cena, comigo. A ideia é formar uma espécie de colcha de retalhos, onde os retalhos são as nossas recordações, os objetos que nos fazem lembrar nossos filhos, assim como seus nomes, para aqueles que já tinham feito a escolha. A palavra recordação aqui não foi escolhida atoa, pois que etimologicamente essa palavra diz de passar novamente pelo caminho do coração, então meu desejo é ter de cada pessoa que participe esse pedaço de caminho, feito no coletivo, e que passe pelo caminho do afeto, pelo caminho do coração. Deixarei no rodapé da publicação meu endereço para quem quiser enviar algo, qualquer coisa que queira: o nome do seu filho(a) bordado, um babador, uma chupeta, qualquer objeto que não tenha um tamanho exagerado e que eu possa costurar em nossa colcha-tecido-afeto-partner, para que ela possa simbolizar o amor pelos nossos filhos que se foram.

Com o passar do tempo, a colcha ficará cada mais cheia de vozes, mais cheia de amor, e cada vez mais leve de carregar, pois eu saberei que não sou sozinha quando a estiver carregando, que existem outras tantas mães de anjos me ajudando, porque juntas, mesmo distantes, as pedras ficam no lugar onde devem ficar, nas retinas que mesmo fatigadas prosseguem.

Até breve… Paola.

Endereço: Rua Tupinambás, 1050-E, Bairro Esplanada, Chapecó/SC, CEP 89.812-574.

Foto: Meu diretor Daniel Henrique Sagave e eu em um dos nossos encontros na NaPonta Espaço Artístico de Chapecó.

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