Meu anjo balofinho

victor-samuel

Depois da retirada de um tumor no ovário em abril de 2015 pensei que nunca mais engravidaria. Já havia tido dois abortos devido diabetes descompensado e uma possível má formação nos fetos, por isso imaginei que eu e meu esposo nunca seriamos pais e já estava conformada com a possibilidade. Quando em Janeiro de 2016 tive a surpresa de uma gravidez que embora de alto riscos tinha a chance de dar certo com o devido cuidado e acompanhamento médico. E foi depois dessa gravidez que em 29/08/2016 as 00h05min na Maternidade Brasília nasceu o meu milagre. Após levar meu bebê para os primeiros cuidados a médica me traz um pacotinho lindo e choroso que eu dei um beijo no rosto e disse: calma filho.
Minha vida mudou. Eu agradeci a Deus e disse: não é que deu certo mesmo! Todos os planos que fizemos durante a gravidez começaram a ter um motivo real e eu a partir dali faria tudo para amar e proteger meu príncipe por toda a vida.
Enquanto a anestesia passava o efeito eu esperei em outra sala até que me entregaram nos braços aquele príncipe. Meu Victor Samuel nasceu com 3,700kg e 48cm, um menino grande e saudável que passou o restante da madrugada comigo no quarto porém, devido eu ser diabética e ter feito uso de insulina em toda a gravidez ele nasceu com a glicemia muito baixa e pela manhã quando mediram novamente deu 19 mg/dl, com o coração um pouco maior que o tamanho normal e um leve sopro que segundo o pediatra que diagnosticou com o tempo iria se fechar. Pela baixa glicemia ele foi para a UTI neonatal já pela manhã para maiores cuidados até ficar estabilizado.
Todos os dias eu ia amamenta-lo e ficava todo o horário de visitas para ficar com ele o máximo que podia. Por vezes de cansaço dormia e pra não perder a hora saía correndo do quarto com fome, sede e ignorando minha cesariana para poder carregar meu príncipe só um pouquinho mas isso pra mim não era esforço algum, sabia que logo estaríamos em casa e eu poderia descansar com ele. Todas as vezes com ele no colo eu pensava, como meu filho é lindo, parece um anjo. E eu me alegrava em vê-lo dormir tão tranquilo e ficava passando a mão em seus cabelos tão lisinhos e pensava, vc é perfeito, Deus até que enfim lembrou de mim.
Só teve um problema, eu deveria ter lembrado que não é possível ser felizes em todas as áreas da nossa vida. E para confirmar isso em 31/08/2016 fui amamenta-lo as 15h e tive a notícia que sua glicemia estava melhor e que era provável ter alta da UTI no mesmo dia. Meu coração se encheu de alegria. Até que enfim iria poder ficar no quarto com meu filho esperando nossa alta. Precisei sair para darem novamente a alimentação dele que já havia aumentado de 20 para 30ml. Fui informada que por volta das 12h após a alimentação a equipe médica deu hidrocortizona para que ele ficasse estabilizado e estavam aguardando maiores resultados. Fiquei lá fora até as 16h aguardando o horário da visita mas quando cheguei vi que os batimentos dele estavam a mais de 200 e aquilo não era normal, chamei a enfermeira que estava cuidando dele e ela disse que poderia ser problema no medidor, que ela logo trocou mas os batimentos continuaram os mesmos. Meu esposo e minha mãe chegaram para a visita e como só podem ficar duas pessoas com o bebê na uti precisei sair e só voltei quando acabou o horário de visitas externas, 17h, mas foi breve está minha passagem por lá pois uma médica me chamou para avaliar minha alta. Ao voltar lá pras 17h30min ele estava chorando muito e seus batimentos muito rápidos e não pode ficar com ele amamentar-lo pois precisavam fazer algum procedimento e pediram que esperassemos lá fora.
Desde então vi o inferno na terra. Médicos  entrando correndo pela porta da UTI e nenhuma informação até que por volta das 18h30min a pediatra que cuidava dele saiu e foi falar comigo e meu esposo que o quadro do nosso filho era gravíssimo e que não sabiam porque mas ele deu uma parada cardíaca, já havia tomado adrenalina, estava entubado e que estava toda a equipe se revezando em tentar reanima-lo mas não estavam conseguindo e que ela estava voltando para continuar tentando. Nesse momento eu orei a Deus e pedi que fizesse um milagre e salvasse meu balofinho e prometi que eu nunca mais faria nada de errado na vida e que se Ele quisesse poderia tirar minha vida mas deixar meu filho vivo.
As 19h tive a confirmação. Meu anjinho não havia suportado e faleceu.
E todos os nossos planos, e tudo que eu pedi a Deus não valeu de nada. Ele precisava levá-lo.
Fomos chamados para vê-lo e ouvir a explicação dos médicos que também não souberam a causa dessa piora repentina e então meu esposo pôde pela primeira vez segurar seu filho nos braços, pena que ele já estava sem vida.
Após seu sepultamento, percebi que durante toda a gestação e nesses quase três dias que passei com meu príncipe aprendi mais que em toda a vida. Aprendi que as pessoas podem ajudar umas as outras sem querer algo em troca, aprendi que existe um amor maior que tudo nessa vida. E que esse amor é infinito pois, quando eu estava com ele o mundo parava e eu só queria ficar mais um minuto ao lado dele, que era tão lindo. Amamentar esse príncipe era a melhor coisa do mundo, ele as vezes abria os olhos e me olhava, apertava meu dedinho e me dava tanto amor com seu olhar de paz que eu poderia passar o resto da vida assim do lado dele. Em apenas esses dias aprendi que a missão de ser mãe pode por vezes ser árdua mas todas as noites de sono perdido e todas as vezes que precisasse eu estaria com ele pois a sua presença já era a maior recompensa que eu poderia ter.
Ainda não consigo entender o motivo, era nosso único sonho, ter uma família. Dar todo nosso melhor para este filho que Deus havia enviado… mas não bastou. Não foi o bastante ter mudado alimentação para que o diabetes estivesse controlado e não ganhar peso além do peso da gravidez. Não foi suficiente… Eu precisaria passar por tudo isso sabe-se lá o porquê e que meu filho deveria ser apenas um instrumento de aprendizado e que não poderia viver como todas as outras crianças.

Hoje fazem 23 dias que meu anjinho foi sepultado e a dor que eu imaginava que iria diminuir só tem aumentado. Meu esposo tem feito tudo por mim, várias pessoas nos ajudaram e fizeram companhia para que não ficássemos sozinhos mas mesmo assim, não passa.
É um grande contraste ter sentido o maior amor que pode existir e tão rapidamente sentir essa dor que parece ser a pior dor desse mundo. Nunca passa e acho que nunca vai passar. Procuro respostas e os motivos para o que aconteceu mas não os encontro. Não ainda… Como na história do pequeno príncipe, sua passagem na vida do aviador foi breve porém com muitos aprendizados e seguida de uma morte repentina e dolorosa, de forma que o aviador nunca mais se esqueceria daquela criança que tanto o ensinou, assim será com nosso Victor Samuel, nosso balofinho, o menino mais lindo que eu já vi em toda a vida.

Relato da mãe Tatiane Martins

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