Sim, é possível acolher através do silêncio

Em minha vivência no hospital não pude deixar de notar que, no momento em que ocorria um óbito, seja gestacional ou neonatal, a família tinha que entrar em contato com diversos profissionais da equipe de saúde e prestadores de serviço da instituição. Após o comunicado da perda, lidar com a dor e o choro de um familiar pode ser confuso e gerar sofrimento ao profissional. Muitos optam por acolher e tentar confortar a família através de palavras, outros preferem apenas comunicar e não entrar em contato com as demais situações.

Porém, inúmeras vezes em minha prática, eu ouvia relatos sofridos em relação às palavras que os familiares ouviam durante a perda. Diante disso, concluo que é preciso ficar atento com o que se fala, a palavra pode ser acolhedora, mas também pode ser perigosa e, nesse caso, pode causar conseqüências negativas aos familiares. Sei o quanto é difícil ver o outro chorar perto de nós e como muitas vezes queremos falar alguma coisa para ajudar, seja por uma missão profissional, pelo próprio desejo ou sensibilidade pessoal.

Lembro-me com carinho, que no inicio do curso de Psicologia, levei um famoso” puxão de orelha em meio a uma discussão em sala de aula, onde a professora verbalizou: “Pense bem antes de falar, não estamos aqui para dar conselhos, muito menos para julgar ou decidir o que o outro deve fazer”. Confesso que levo essas palavras para minha vida e, unindo-as junto à atuação em casos de perda gestacional e neonatal, eu completo a frase, fazendo a seguinte reflexão: Você pensou no que vai falar? Você gostaria de ouvir isso de outra pessoa? Saibam que acolher aqueles que vivenciam uma perda, muitas vezes, não requer palavras. Acredito que na falta do que falar, a melhor solução é o silêncio.

Finalizo este texto compartilhando sobre a oportunidade que tive de presenciar algumas aulas sobre como comunicar más notícias. As aulas eram referentes ao processo de comunicação, seja verbal ou não verbal. Eram fantásticas! Mas hoje, penso o quanto seria importante completá-las com: como lidar com más notícias. Afinal, o profissional que comunica também vivência perdas e situações de sofrimento.

Vanessa Salheb Marinho Petito

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