Minha estrelinha, Ana Ester!

 

Meu relato não é só sobre a perda da minha Ana Ester, mas também do descaso e violência que nós duas sofremos.

No dia 20 de Maio deste ano, eu estava com 27 semanas e 2 dias de gestação, o meu esposo saiu para trabalhar e como sempre fazia me acordou, oramos juntos, ele me deu um beijo e conversou um pouquinho com a nossa bebê (se ele não fizesse isso ela passava o dia todo só de um lado da barriga esperando por ele), então ele saiu e nós (eu e a bebê) voltamos a dormir.

Por volta de 8 horas eu comecei a sentir uma dor, pensei que estivesse com diarreia, fui ao banheiro e nada, a dor passou e eu me deitei novamente, após 10 minutos a dor voltou, dessa vez mais forte, eu fui ao banheiro e mais uma vez nada, então eu liguei para minha avó, pedi que ela viesse ficar comigo, porque estava com diarreia e não consegui evacuar, assim que desliguei veio mais uma vez a dor, dessa vez eu consegui evacuar tudo e a dor continuava, então liguei para a minha irmã que mora ao lado da minha casa, disse que estava mal e que ela subisse até nossa avó chegar, assim que desliguei tirei a roupa, tomei banho e coloquei só uma calcinha e um vestido, quando minha irmã chegou eu já tinha ligado para o meu obstetra, ele disse que era trabalho de parto prematuro e eu fosse para o hospital, nesse momento a dor vinha a todo instante, minha irmã ligou para minha mãe e decidimos ir para o hospital do plano.

Chegando no hospital a moça da recepção fez minha ficha, mandou que eu fosse para a emergência obstétrica e que eu pedisse para ser avaliada logo (tendo em vista que já estava com muita dor e só tinha 27 semanas), quando chegamos na emergência minha irmã colocou a cadeira em que eu estava no corredor e entrou na observação para chamar uma enfermeira, uma das enfermeiras mandou minha irmã sair e disse que teríamos que esperar a médica chamar, assim que a enfermeira voltou para a observação minha mãe chegou e perguntou para minha irmã como estava tudo, minha irmã falou o que a enfermeira disse, minha mãe já estava muito nervosa e disse que ia fazer uma confusão se ninguém fosse me avaliar, nesse momento eu já passava muito mal e também tinha começado a vomitar, então uma médica saiu do consultório, mandou minha mãe calar a boca porque ela já ia me avaliar passando na frente das outras que estavam esperando (as meninas que estavam esperando já tinham dito que minha irmã chamasse a médica para me atender logo), depois que me avaliou viu que eu estava com 2 centímetros de dilatação e me mandou para a observação obstétrica, ela disse que eu iria tomar uma injeção para amadurecer o pulmão e remédios para inibir o trabalho de parto porque depois de 24hr eu tomaria a segunda injeção e só então poderia se decidir se seria ou não feito o parto, na observação eu tomei as medicações, fiz exames de sangue, ultrassom, urina e estava tudo certo, o único problema era o trabalho de parto.

Na troca de plantão o médico veio me examinar, fez um exame de toque e disse que ainda estava com 2cm, quando ele saiu a enfermeira mandou eu tomar banho e disse que finalmente tinha chegado roupa (eu estava desde manhã com o meu vestido e nem um lençol tinha), me levantei quando cheguei no chuveiro para me lavar notei que eu tinha começado a sangrar, coloquei meu vestido de volta e pedi a minha mãe que chamasse o médico, quando ele chegou eu disse “doutor eu comecei a sangrar” e a resposta dele foi “É normal, você quer o que? eu acabei de te avaliar, eu falei que o colo do seu útero tá afinando e você vai sangrar mesmo, é normal” e saiu, eu tomei banho troquei de roupa e me deitei.

Na manhã do dia 21, após a troca de plantão a médica que assumiu veio me avaliar, ela pegou aqueles aparelhinhos e tentou auscultar minha bebê e não ouviu nada, ela disse que iria me encaminhar para uma ultrassom, então veio uma outra médica, disse que a colega pediu pra ela fazer uma tentativa no aparelho dela, ela colocou o aparelho e eu ouvi um pulsar muito fraquinho, nesse momento eu perguntei “doutora, isso é o coração da minha filha, tão fraquinho?” e ela respondeu “não, isso é o pulsar do cordão, você vai para a ultrassom!”, nisso eu já estava morrendo de dor e não conseguia mais ficar virada para cima. Quando cheguei na sala de ultrassom perguntei se o rapaz não poderia fazer eu estando de lado, ele me respondeu que não, eu então pedi que ele fizesse o mais rápido possível porque eu não aguentava mais de dor, ele disse que não podia fazer nada, pediram uma ultrassom com Doppler e essa é a ultrassom mais demorada que tem, quando ele finalizou a ultrassom ele olhou pra mim e disse “É eu não posso mentir pra você não, não tem mais batimentos cardíacos, pode ficar aí o tempo que quiser” e saiu, nesse momento pedi a minha mãe que chamasse o maqueiro e voltamos para a observação.

De volta a observação, informei para a enfermeira que minha bebê tinha falecido e ela disse que começaríamos a indução de parto, colocou o soro e uns comprimidos em mim e foi aí que a dor aumentou mesmo, após algum tempo de indução eu notei que as dores ficavam concentradas embaixo do meu umbigo e não desciam para a vagina, pedi minha mãe que chamasse a médica porque tinha algo errado, a enfermeira veio e disse que não tinha nada errado, que eu fizesse força que ela ia sair, eu pedi que ela fizesse um exame de toque para verificar a dilatação, ela disse que não ia fazer porque não me interessava a dilatação, que minha bebê era pequena e ia sair de qualquer jeito, que eu parasse de besteira e fizesse força, então eu pedi pra me levantar para fazer força e ela disse que eu não ia a lugar nenhum que eu ficasse deitada, nesse momento pedi minha mãe que fechasse as cortinas para que eu pudesse, pelo menos, ficar de cócoras e tentar fazer força, pois deitada eu não conseguiria. Fiquei algum tempo tentado fazer força de cócoras e de 4, mas só saia muito sangue, nessa hora pedi a minha mãe que chamasse qualquer médico e me fizesse uma cesárea (me senti um fracasso, porque sempre defendi e ainda defendo o parto normal, mas naquele momento eu chorei pela cesárea, pensei que não era forte o suficiente para aguentar), minha mãe disse que era assim mesmo, que era o momento da fraqueza.

Depois de 4hr de indução um médico chega e ver a enfermeira introduzindo um comprimido na minha vagina, ele pergunta o que é o comprimido e ela responde que era para induzir o parto, na mesma hora ele manda ela tirar o comprimido e diz que eu vou para uma cesárea porque a bebê estava atravessada! (Nessa hora eu me senti renovada e vi que eu não era fraca, mas que eu conhecia muito bem o meu corpo), então uma técnica em enfermagem me lavou, me depilou um pouquinho (gente, eu estava precisando) e chamou o maqueiro para me levar para o centro cirúrgico, nesse momento eu pensei que finalmente tudo ia acabar! (Sabe de nada inocente!)

Ao entrar no centro cirúrgico o maqueiro me colocou em uma sala, logo entrou a anestesista que fez aquelas perguntas de rotina e disse que ia me anestesiar, então o médico entrou e disse que ela não me anestesiasse ainda pois ele iria operar outra mulher na minha frente, eu imediatamente olhe para ele e falei “Dr., pelo amor de Deus me opere logo, eu não aguento mais tanta dor, por tudo que é mais sagrado me opere!”, ele me respondeu “olha tem outra mãezinha aí fora que pode ser que o bebê dela corra algum risco, o seu não corre mais, então você vai esperar” e mandou me tirar da sala, o maqueiro me colocou em uma canto do centro cirúrgico (tipo um escritório), aí eu tentei sentar na maca (era a única posição que aliviava minha dor), então uma enfermeira começa a gritar comigo “ei minha filha, você quer cair dessa maca, se deite que você vai causar um desastre ainda maior”, eu olhei pra ela e disse “moça eu estou com muita dor, eu não consigo ficar deitada, por favor dói muito”, ela chamou outra enfermeira e mandou ela ficar me vigiando, a outra enfermeira chegou perto e pediu que eu me deitasse novamente e disse que era uma maca pequena e que eu poderia cair, eu pedi a ela pra ficar pelo menos de lado por que de barriga pra cima era impossível, doía muito, ela então apoiou a maca contra a parede e me ajudou a ficar de lado, assim que ela me ajeitou o médico chamou ela e eu disse “moça, por favor, não me deixa só, eu não quero ficar só, por tudo que é mais sagrado eu te peço, não me deixa só”, ela disse que não poderia ficar comigo, mas chamou a minha mãe pra ficar comigo.

Depois de quase duas horas de espera o médico manda me colocarem em uma sala para me operar, o anestesista entrou e ficou dançando enquanto aguardava a ordem de me anestesiar, quando finalmente ele ia me anestesiar eu pedi que ele me sedasse, pois eu não aguentava mais, ele me sedou e quando eu acordei novamente estava em uma sala com uma médica ao meu lado, perguntei pela minha família e ela disse que eu não poderia ver minha família, eu imediatamente disse que queria a minha família, então ela explicou “não querida, você não está entendendo, você não está na sala de recuperação, você está na UTI recebendo 4 bolsas de sangue e uma de plaqueta por que você estava quase entrando em coma”, depois disso eu fiquei apagando e acordando por um tempo, até que ao meio-dia de domingo dia 22 de maio me transferiram para um apartamento e no dia seguinte apareceu uma vaga pra mim na enfermaria, onde eu fiquei até a sexta dia 27 que foi quando minhas plaquetas voltaram a um nível mínimo aceitável e eu pude ter alta.

Hoje eu ainda não consigo pensar em ter outro filho, mas me preparo para isso pois meu marido amava muito nossa filhinha e ele tem muita vontade de ser pai e eu acho que ele merece ser pai e minha Ana Ester merece um irmão ou irmã!

Relato da mãe Yalis Marques Silva

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4 comentários em “Minha estrelinha, Ana Ester!

  1. Que revoltante o que está moça passou.Precisamos colocar a boca no mundo denunciar estes monstros da saúde.A minha filha também passou por isso e fez denúncia.
    Que Deus a ampare querida.

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  2. Meu Deus!
    Quanto despreparo!
    É angustiante só de ler. Não bastasse a dor da perda, ser tão mal cuidada.
    Que Deus te dê forças.
    E francamente, quando sentir-se mais forte, acho que vale a pena levar essas pessoas horríveis na justiça. Isso não pode ficar impune!

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