Desculpe o transtorno, preciso falar de Mariana!

Conheci ela por um monitor . Essa frase pode parecer romântica se você imaginar alguém atuando em algum filme e outra se apaixonando do outro lado. Mas o monitor em questão era aquele amarelado, das clínicas de ultrassonografia. Ela ainda era uma sementinha. E seu coraçãozinho batia sem descompasso formando um som maravilhoso aos nossos ouvidos.

Nossos encontros por muito tempo foi através do monitor, eu a via, ela só podia me ouvir. Quando o médico tocava com o aparelho, ela se balança, balbuciava, fazia malabarismo com as mãos e pés.
Quando nos encontramos pela primeira vez, foi a confirmação do maior amor do mundo. Tão pequena, com aqueles olhinhos pequenos sem conseguir abrir por inteiro, intensamente azuis. Já era amor, antes de tudo.

Passamos muitas madrugada conversando e fazendo promessas. Acho que só eu entendia naquele momento cada coisa, mas ela balbuciava tão bonitinho, que parecia concordar. Nossos encontros eram sempre interrompidos por enfermeiras, médicos. Além dos sons, som de pessoas conversando, crianças chorando, monitores e alarmes.

Começamos a nos amar quando ela tinha 08 semanas e eu 16 anos, mas parecia que a minha vida também começava ali. Tivemos alguns desejos, uns estranhos e outros deliciosos. Passamos mais tempo juntas no hospital, que em casa. Ela fez algumas cirurgias, eu estava do lado de fora aguardando noticias sempre.Escolhi móveis para um quarto maravilhoso que seria dela. Ela nunca conheceu, mas sempre foi dela.Fiz uma dúzia de amizades devido a existência dela. Sofremos com a infecção urinária, choramos com a placenta prévia total, arritmia cardíaca,meningite,anemia, sepse. Rimos quando ela bocejou fora da primeira casa pela primeira vez, choramos de felicidade quando pude a pegar no colo, e quando ela mexeu aqueles pezinhos minúsculos.

Das dez músicas que mais gosto, sete ouvi quando ela estava dentro de mim. As outras três foram quando estávamos juntas do lado de fora, na UTIN. Aprendi o que era placenta prévia total, arritmia cardíaca, Uti Neonatal, sepse, colostro, Amniocentese, e outras palavras que o Word tá sublinhando de vermelho porque o Word não teve o medo de perder uma filha, em uma gestação de alto risco.

Um dia, ela partiu. E não foi fácil. Chorei mais do que ouvindo ” Leãozinho” a caminho do hospital quando ela nasceu. Mais que no dia que o médico disse que ela tinha uma alteração no coração. Mias até que no dia que a vi pela primeira vez pesando 840g, coberta por tubos e fios. Até hoje, não tem um lugar que eu vá em que eu não pense, em algum momento: cadê ela? Poxa, ela iria gostar muito disso. Será que ela estaria correndo por todos os lados? Será que ela iria preferir sorvete de chocolate ou morango? Não há dúvidas, pra sempre, ela vai fazer falta.

Essa semana, completam 6 anos que ela partiu —não por acaso o céu se fez esplendoroso esses dias . Achei que fosse chorar tudo de novo. E realmente chorei, morri de saudades mais um dia, mas também me deu foi uma felicidade muito profunda de ter vivido um grande e verdadeiro amor na vida. E de ter esse amor registrado em cada marca em meu corpo. Falta tudo, falta ela comigo.

Depoimento enviado pela mãe Tai Chumbawomba

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