Mais vida: narrativas sobre gestar uma nova vida após a partida de um filho.

Primeira narrativa: Abrir-se para o novo

Colunista: Renata Ghisleni de Oliveira, mãe da estrela Caio e da florzinha Alice que está a caminho, psicóloga, representante Do luto à luta em BH.

Contato: reghisleni@yahoo.com.br

06/10/2016

Hoje amanheceu nublado e o sol se intercala com uma chuva fina. Lá fora, o clima parece confuso mesmo com a chegada da primavera.

E aqui dentro? Me sinto em comunhão com o dia de sol e chuva, de tons de cinza e multicores, de uma primavera que por vezes se parece outono. Aqui dentro, faço um exercício de acomodar diversos e contraditórios sentimentos. Hoje completa um ano e três meses que Caio, meu primeiro filho, fez sua passagem e, em meu ventre, percebo claramente os primeiros movimentos de minha filha Alice que me habita há 20 semanas e 5 dias.

Gestar é, sem dúvida, um mergulho no desconhecido e, para nós, que vimos nossos filhos partirem, um ato de muita coragem. Abrir-se para receber uma nova vida tendo a marca desta experiência não é nada fácil.

Para Miguel, meu companheiro, e eu passou por uma caminhada de quase um ano em que nos permitimos sentir a dor da partida precoce de nosso filho. Foram tempos difíceis, mas também que nos possibilitaram potentes transformações, aprendizados, elaborações e, sobretudo, movimentos de abertura.

Foi em meio a isso que sonhei a primeira vez com Alice e senti que já estávamos fortemente ligadas. A partir desse sonho-encontro passei a desejar verdadeiramente uma nova gestação. O desejo de acolher a nova vida crescia, mas percebia que não havia chegado o momento.

Meu corpo estava exausto – sentia o peso de uma gestação interrompida prematuramente aos seis meses, carregava o cansaço da rotina intensiva de acompanhar Caio na UTI neonatal e a tristeza infinita de nossa despedida e, ainda, encarava a dureza de um puerpério sem bebê. Emocionalmente, o peso não era diferente. Oscilava entre a vontade de viver a maternidade e a culpa por trair Caio ao engravidar novamente. Também ficava aflita com comentários de algumas pessoas que sinalizavam a substituição de Caio por uma nova vida.

Foi assim que, neste tempo mais turbulento, decidi cuidar de mim. Fiz uma investigação médica para tentar acessar a causa do parto prematuro de Caio na intenção de encontrar algumas respostas que aquietassem meu coração para o que tínhamos passado e o que pretendíamos viver no futuro. Encontramos o que precisávamos e, ao mesmo tempo, isso nos levou a aceitar as incertezas e a falta de controle que fazem parte de nossa caminhada. Junto à investigação convencional, busquei terapias alternativas para cuidar do corpo, do emocional e ampliar minha vivência de espiritualidade. Passei a me conectar intensamente com o feminino e seus processos de criação. Desse modo, fui me fortalecendo e construindo sentidos sobre os ciclos que permeiam nossa existência. Esta trajetória foi extremamente importante para que eu viesse a gestar de novo e de outro modo.

Alice, nosso bebê arco-íris, que vem depois da tempestade, foi muito desejada e fruto de uma gestação planejada. Veio no tempo oportuno para ela e para nós. A saudade de Caio pulsa a todo momento, assim como a nova vida, indicando que seguimos com tudo isso.

 

 

 

 

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5 comentários em “Mais vida: narrativas sobre gestar uma nova vida após a partida de um filho.

  1. Linda história de transformação. Não deve ser mesmo fácil passar por tudo isso. A partida de alguém que desejava tanto, tão pequeno. Feliz por você ter se aberto a essa nova possibilidade de criar. beijo grande Renata!

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  2. Renata querida, que escrita mais fiel as suas vivencias e experiências, não poderia ser diferente já que vc e e sempre será inteira, intensa, e só delicadeza.
    Maior prazer ter conhecido e convivido com você e Miguel.
    ..maior alegria sentir vcs se construindo para receber Alice a irmã que o Caio escolheu. Muita luz , paz e energia !

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  3. Que lindo relato, Renata.
    Passamos por um aborto espontâneo há quase 3 meses aqui. Depois de dois meses em que não conseguia imaginar a possibilidade de uma nova gestação, sinto um crescente desejo de gerar novamente. Hoje sei que há espaço para um novo bebê em minha família. Mas também vejo a importância desse cuidar interior… Um novo filho virá quando houver menos medos do que seguranças dentro de mim, mais espaço para amar do que receios de perder.
    Feliz por sua Alice e por todo o legado que Caio deixou. Abraços!

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