Como engravidar após uma perda gestacional?

Esse é um dos questionamentos mais comuns entre mulheres que viveram uma experiência de perda gestacional.

A própria família, amigos e rede social em geral acabam por impor tal reflexão, algumas vezes de forma precipitada. Perder uma gestação desejada, onde o vínculo entre mãe e bebê já estava formado, independentemente do tempo de gravidez, costuma ser algo doloroso e pode dar origem à um processo de luto.

Após a perda é comum a mãe enlutada relatar uma insegurança ou até resistência pela ideia de engravidar novamente. Muitos são os medos, as crenças e as dúvidas em torno dessa questão.

A resistência pode estar relacionada com a ideia de estar traindo/substituindo o filho perdido, ao desejo de ter aquele filho perdido de volta e não outro filho, à culpa pela possibilidade de experimentar alegria e amor materno outra vez e até um receio de não gostar tanto do outro bebê. É natural também sentir medo de que a experiência de perda se repita, assim como uma desmotivação de se preparar para outra gestação, passar por todas as etapas já vividas e correr o risco de viver a dor e a frustração outra vez. A confiança no

 próprio corpo fica abalada, assim como a segurança de mundo em geral, tudo parece mais frágil e arriscado após uma perda tão importante.

Por isso, muitas vezes quando escutam “Você pode engravidar novamente” as mulheres que viveram uma perda gestacional sente-se agredidas em sua dor.

O corpo exige um tempo para uma nova tentativa de engravidar e esse tempo pode variar de pessoa para pessoa, por isso é muito importante consultar um médico para investigar as causas que levaram a perda, tirar dúvidas e contar com orientação, apoio e cuidados para gerir outra vez. O tempo para tentar engravidar novamente é importante não só para que o corpo se recupere, mas também para que as emoções possam ser vividas e trabalhadas e que o luto seja elaborado. Esse tempo de elaboração emocional é divergente de um caso para outro, alguns casais decidem engravidar logo após a liberação do médico, outros optam por esperar meses ou até anos.

Aceitar a tristeza, se permitir chorar e entrar em contato com a experiência vivida, poder conversar e contar com a ajuda de uma rede de apoio (familiares, amigos, profissionais, comunidades virtuais, grupos e etc.) são aspectos que podem ajudar muito nesse processo e na decisão por uma nova gravidez.

Com a nova gestação, outras emoções podem vir à tona, como por exemplo: a sensação de não estar tão feliz ou conectada com a gravidez. Essa é uma estratégia da mente para tentar se proteger do risco de viver a dor outra vez e ao longo da gestação isso pode ser reconhecido e ressignificado. É comum também sentir saudade da gestação anterior, apreensão, insegurança e culpa ao se alegrar e se envolver com o novo bebê. A fase da gestação onde sofreu a perda anterior pode ser de maior sensibilidade emocional, mas após atravessá-la muitas mulheres relatam uma sensação de maior conforto e segurança. De todos esses e ainda outros desafios a serem enfrentados, o certo é que a alegria de conceber um filho é quase inevitável e você acaba por se deparar com ela ao diferenciar a nova gravidez da sua experiência anterior de perda.

Respeite o seu processo de luto, busque sua rede de apoio e converse com o seu companheiro para juntos tomarem, no tempo de vocês, essa decisão.

Paula Leverone (CRP 08/18775)

Mariana Bayer (CRP 08/19103)

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6 comentários em “Como engravidar após uma perda gestacional?

  1. O texto é mto perfeito, estou vivendo exatamente essa experiência. Perdi a minha Lavínia em 21/12/2015 com 32 semanas de gestação, o coração dela parou ainda na minha barriga… Eu amo essa página de vcs, mas nunca consegui contar a nissa história. Optei pelo parto normal, em abril desse ano meu médico me pediu um exame mais delicado e supendeu o anticoncecional, me avisou que eu poderia engravidar, que eu me previnice de outra forma, mas eu achei que não porque na outra gravidez passei 10meses tentando. E eu fiquei grávida em maio desse ano, exatamente no mesmo mês que engravideu da minha Lavínia. Ainda vivo esse turbilhão de emoções, mas tem algo no texto que eu vivi e me marcou bastante, ao ver o positivo desssa gravidez eu não consegui me alegrar como foi na anterior, nem sei explicar o que senti… Só sei que não foi alegria. Então comecei a perceber que eu estava tentando não me apegar tanto com medo de perder novamente. Mas bastou a ultra de 12 semanas para o meu coração se abrir totalmente, hoje estou com 20 semanas, carrego em meu ventre outra menina, ela se chama Cecília, cada vez que sinto ela mexer não consigo parar de agradecer pela sua existencia em minha vida. Ainda acordo à noite pensando no meu anjinho, tenho uma saudade que as vezez parece que vai me arrebentar, então eu choro até ficar cansada e depois peço desculpa ao meu arco-íris me sinto culpada as vezes por me sentir triste. Amei o tema do post !!!

    Abs
    Alyne

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    1. Também adorei o texto. Reflete mto o que se passa no coração de uma mãe que perdé seu bebê. Perdi minha Luísa no dia em que estava completando 36s. Houve descolamento total da placenta e foi silencioso. Qdo me dei conta, já estava com hemorragia interna e minha filha já no não tinha batimentos 😦
      Alyne, bom ler o seu comentário… Me emocionei ao ver o nome que escolheu, pois qdo pensamos em ter outra filha depois do que aconteceu pensamos em Cecília. Hoje faz 2 meses e 12 dias que meu mundo parou… Ainda me sinto culpada qdo penso em ter outro bebê…

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      1. Olá Matha,

        Que bom que gostou! Relatamos esse seu sentimento de culpa no texto, é normal e esperado depois de uma perda tão significativa. Abordar esse tema faz com que mulheres como vc não se sintam sozinhas… Conte conosco!

        Um abraço,

        Mariana (Trilhar Instituto de Psicologia)

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      2. Olá Martha espero que a sua Cecília venha logo, assim que você se sinta pronta para recebê-la. A culpa e o medo são sentimentos que nos acompanham, mas temos que lutar para que esses sentimentos não guiem as nossas vidas e decisões. Tenho me policiado para me manter bem emocionalmente agora na reta final da gravidez. No próximo mês, 21 de dezembro, fará um ano que minha Lavínia se foi… Então estou vivendo dias mais difíceis!! Acredito passar por essa data junto da minha Cecília vai me ajudar a ficar mais forte, recebi essa nova gestação como um presente inesperado, mas que hoje tenho convicção que chegou no momento certo. Só posso pedir pra vc ficar forte e quando sentir vontade de chorar ou falar, não se prive, coloque pra fora, divida com os que te amam!

        Uma vez uma amiga me perguntou por que eu sempre faço referência ao meu anjinho que se foi como “minha Lavínia” e eu respondi pra ela que eu só descobri o quanto ela era só minha depois que ela se foi ainda na minha barriga, porque a sociedade não reconhece a sua existência e a maioria das pessoas próximas não sabem como lidar com essa situação. Então a dor é minha, exatamente na mesma proporção do meu amor por ela. As pessoas acham que eu não sofro mais porque estou esperando outro bebê, mas um filho não substitui o outro em circunstância nenhuma e para nós tbm é assim.

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    2. Olá Alyne,

      Que relato importante esse seu, acho que pode ajudar muitas mães por ai.

      Obrigada pelo elogiou sobre o texto! Ficamos felizes eu saber que pessoas que estão passando por essa situação se identificam com algumas características do texto, e acreditamos que isso de alguma maneira pode colaborar, fazendo com que mulheres como vc não se sintam sozinhas nesta dor.

      Um abraço!

      Mariana (Trilhar Instituto de Psicologia)

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      1. Oi Mariana, espero ter ajudado outras mães da mesma forma que me sinto ajudada pelos relatos e histórias contadas aqui. Desde que perdi minha Lavínia me senti meio deslocada no mundo, um vazio sem tamanho… não me sentia muito normal rsrsr como pode uma pessoa que nem nasceu me fazer tanta falta? Então comecei a lê experiências de outras mães como eu e a opinião de especialistas nessa página de vocês. Sempre me sinto inserida, sinto que faço parte e que tudo que eu sinto é normal. Todas as mães tem expectativas com relação aos seus filhos, desde que vi aquele resultado positivo nunca mais imaginei a minha vida sem minha Lavínia… acredito que por isso a dor e o vazio são enormes. Um dia vou contar a Cecília (meu bebê arco-íris) que antes dela chegar na minha vida eu já havia sido apresentada a esse sentimento tão forte chamado de amor materno, essa ligação sem explicação que realmente é divina e só pode ser compreendida por quem viveu. Acredito hoje, que a experiência de AMOR que Lavínia me proporcionou me preparou para que eu seja ainda melhor como mãe!!!

        Abs,
        Alyne

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