Por mais profissionais humanos!

“Querido Doutor L.,
Eu nem sei por onde começar. Só sei que meu sentimento de gratidão em relação a você vem sendo construído desde o dia que entrei em seu consultório. Pelo que convivemos como médico e paciente, eu sempre vi no seu firme aperto de mão um profissional, objetivo, claro, e sensato. Existem muitos tipos de médicos, os mais frios e distantes obviamente não servem pra mim, que sou uma pessoa intensa e espontânea. Os extremamente sensíveis por muitas vezes se tornam invasivos e me transmitem fragilidade. O que definitivamente não buscamos em médicos. E médicos como você.
Sei que sou uma das suas tantas pacientes e de tantas que terá. Mas ainda assim tenho o desejo de te escrever e contar à diferença que fez na minha família e especialmente pra mim. Se não posso lhe retribuir a altura com uma disponibilidade, que tão gentilmente não foi me cobrada, te retribuo com minha sincera gratidão.
Quando dei start na minha ideia de ser mãe, logo busquei indicações de obstetras da linha do parto humanizado. Uma causa que sempre defendi, e ainda tenho muito carinho. Essa causa me levou ao Dr. A, seu colega que também tenho admiração. Com as questões do meu útero, já na primeira consulta ele indicou um colega que ele confiava e poderia me ajudar, para uma possível cirurgia e investigação. Você, Dr. L da porta ao lado. Me recusei, cheguei a marcar e cancelar essa consulta. Não queria cogitar operação, tenho pânico de cirurgias, e hospitais, é trauma.
Passaram muitos meses, e quando de fato parei com o remédio pensei melhor. E resolvi que uma conversa não faria mal. Foi quando tivemos nossa primeira consulta e de imediato senti uma forte simpatia com seu profissionalismo. Então, quando me disse sua opinião, pediu exames, indicou um professor para uma segunda opinião, resolvi que faria a cirurgia para investigar, mudando tudo aquilo que eu tinha decido e deixando de lado o medo. Levei os exames e uma segunda consulta e sai com a guia dos exames pré operatórios, era sexta-feira dia 30 de outubro. Exatamente quatro dias depois, entrei novamente pela porta do seu consultório pela terceira vez, você estranhou afinal fazia quatro dias e os exames não estariam prontos, e eu achei graça em ver um obstetra ficando surpreso ao ouvir uma paciente falar “estou gravida”, afinal o plano era outro. Então, batendo as mãos na sua mesa disse “agora vamos esquecer de tudo o que falamos, o primeiro passo é você consultar com seu médico o Dr. A”.
Assim que vi o positivo a primeira providencia era ligar e marcar uma consulta. Afinal o momento que eu tão sonhei tinha chegado, e de fato o médico que combinava com meu sonho humanizado era Dr.A , meu ginecologista tão bem indicado. Mas eu senti no meu coração naquele momento, mesmo tendo lhe visto apenas duas vezes, que meu médico seria você. Foi então que lhe disse que gostaria que nos acompanhasse, e nem imaginava o quão importante foi essa decisão. Só hoje entendo e agradeço ainda mais.
Desde o inicio, com seu profissionalismo e competência, senti que nem tudo era tão claro para ambos. O meu caso médico do útero “didelfo, bicorno, septado” que naquele momento nem tínhamos como dizer ao certo. Mas por todas nossas conversas senti tanta tranquilidade, segurança, e dedicação que sabia que estava em boas mãos. Eu confiei em você desde o primeiro instante.
Os três primeiros meses foram tão tranquilos, todo medo natural foi sendo superado semana após semanas. Não tive enjoos, nem sono, sem sintomas. Você nunca subestimou a ansiedade de uma mulher jovem e gravida, cheia de duvidas, medos e incertezas. Nunca houve sinal de arrogância ou prepotência, do medico que tanto sabe para com a ingênua grávida. Não colocou rótulos e limites. Sempre buscou com clareza e segurança me deixar tranquila. Se para isso eu precisava de 3 ecos nas primeiras semanas, assim foi. Nunca me senti julgada.
Até que nos deparamos com a eco morfológica das 13 semanas. Dr. D ecografista, um doce, anjo, sensível, sua amiga. Depois que o nariz não foi detectado, foi mais um golpe de medo e aquela semente de angustia pairava em meu coração. Mas me senti extremamente amparada pela sensibilidade dela e sua. Em cada nova eco ou encontro, ela mencionava que pesquisou, leu, se informou e me tranquilizava. Cada vez que ela dizia o Dr. L me ligou, ou , falei com ele, eu me senti abraçada por vocês dois. Senti que dividia meu medo com os profissionais certos, que perdiam alguns minutos das suas conversas para falar do meu caso. Por mais profissional que tenha sido essa atitude, ainda assim me fazia senti especialmente amparada.
Quando a questão osso nasal surgiu, foram quase dois meses de angustia. Também foi bom ver sua inquietação, e foi extremamente importante sentir suas duvidas, mas ouvir seu otimismo. Mesmo assim, foi além, falou com seu pai, contatou uma geneticista e me ajudou.
Um dia antes de ir aos Estados Unidos a eco novamente acusou a ausência do osso, quando a geneticista tinha dito que o limite para aparecer era aquele. Desabei, chorei durante toda aquela noite, chorei esperando a consulta. Eu sairia do seu consultório direto para o aeroporto com muita angustia e medo. Mas, graças a Deus você estava especialmente otimista, inspirado, leve, e me disse olhando nos olhos que tinha certeza que ia tudo estar bem. Falou, vai compre sem enxoval, coma aquelas coisas gordurosas e gostosas. Me contou sobre o nome do seu filho, como escolheram, sobre sua vida e da sua família. Foi àquele pouquinho além que nunca tinha ido, justamente quando eu precisava. E eu que cheguei chorando saí leve, feliz e pronta para curtir minha viagem. Essa energia me manteve firme até o dia do resultado do exame. Quando tive a resposta desabei em um choro de alivio e alegria, agradecimento a Deus, afinal ninguém espera ter um filho com Síndrome de Down. Senti imediatamente vontade de lhe contar. E com suas frases curtas e diretas, disse que estava feliz e torcendo por nós. Obrigado.
Isso se estendeu em todas nossas conversas no consultório. Realmente é admirável seu dom em ser tão profissional e humano, sem ultrapassar nenhuma linha ou limite. Todas as vezes que discutíamos algo e você mencionava a experiência da sua esposa, eu sentia que você também era de carne osso. Ver sua preocupação e associação, me fazia ter certeza de que estava sendo ouvida e bem cuidada. Eu nem imaginava como isso ia terminar, e já agradecia a Deus por ser você a cuidar de mim e do Gael.
Por fim, voltei e finalmente tivemos uma consulta tranquila. Apesar de ainda haver a questão da má formação do útero, tudo corria perfeitamente bem. Tínhamos vencidos a primeira batalha e estávamos ambos, extremamente otimistas.
Até que meu Gael parou de mexer. E você esteve lá, durante a madrugada, a manhã, a tarde, a noite e no outro dia. Firme, profissional, respeitoso, humano, calmo e inteiramente a disposição. No meio de toda aquela dor, sofrimento, choque, eu me senti segura e amparada pela sua presença por mais profissional que ela fosse.
Perdi meu filho. Quando o ecografista naquela sala escura disse “Infelizmente ele veio a óbito” eu senti a maior e mais dilacerante dor da minha vida. Eu que estava em um estado de graça, gravida, feliz, sonhando, prontos para sermos pais, eu e meu marido ouvimos aquela frase devastadora. Eu gritei, gritei, gritei, gritei, era tanta dor que se eu continuasse morreria ali mesmo. Então sentei, congelei, e entrei em choque. Era muita dor pra suportar. Te liguei. Foi confuso. Eu estava em choque e com muito medo. Você veio. Não dormi nem um minuto aquela noite mesmo com medicamento. Meu Gael estava morto dentro de mim. Aos poucos fui me entregando pra dor e sofrimento. A pior noite da minha vida e de meu marido. No outro dia já não existia medo de cesárea, só sofrimento. Quando entrei no centro cirúrgico uma enfermeira disse, “olha quem está aqui” foi quando te vi, e no meio das lagrimas só consegui dizer “Graças a Deus”.
Agora eu queria lhe contar outra coisa. Você acredita em Deus? Sei que sim…
Há uma teoria divina em que os bebes que morrem são almas tão puras que não precisam viver nesse mundo, só passam por aqui para viver a promessa de ter um corpo. Mas retornam para Deus puros, anjos.
(…)
E poucos dias depois desse grande trauma, eu consigo reconhecer o amor de Deus sobre mim. Ele me deu o maior dos fardos e dores que eu podia imaginar carregar. A maior dor da minha vida. Mas também plantou sentimentos de que essa seria minha historia. Essa certeza sem explicação que eu sentia desde muito jovem que ia ter um menino, a musica da minha vó, a minha aflição antes mesmo do coraçãozinho dele parar de que algo estava errado mesmo quando todos os exames diziam estar tudo bem. Deus proveu formas de amenizar, colocando tanta gente boa no meu caminho desde o inicio da gravidez, até aquele hospital. Desde a médica de plantão que me abraçou e chorou junto, como os enfermeiros, anestesista, instrumentador, você.
Não foi a toa que eu fui ao seu consultório, mudei de médico. Não houve cirurgia nenhuma. Houve o Gael, que nasceu no meu ventre rapidamente mesmo com todas minhas particularidades. Do ponto de vista médico tudo foi dando tão certo. Até que simplesmente as 27 semanas de gestação ele simplesmente se foi. Lindo e perfeito.
Queria te dizer Doutor L, que do fundo do meu coração de mãe, arrebentado de dor, agradeço a Deus por ter me dado o Gael, por ter me feito mãe dele. Por estar me dado formas de suportar esse fardo e essa dor. Por ter colocado no nosso caminho tantas pessoas do bem. Por entre tantos médicos, obstetras, ter colocado você, jovem, sensato, profissional e humano. Talvez você não tenha a dimensão do que fez por nós, mas Deus há de lhe abençoar em toda sua vida pessoal e profissional, lhe dando saúde, animo e luz em seus dias, cirurgias, partos, plantões e nesse trabalho digno que sabemos que faz.
Ainda dói muito. Estou com medo. Muito medo. Mas eu tenho a esperança de que dias felizes virão.
Eu sonho com o dia em que você estará lá novamente, mas dessa vez dividindo o som do primeiro chorinho de um filho meu. Um chorinho que dessa vez não pudemos dividir. Que eu possa mais uma vez agradecer a Deus por você estar lá, mas em meio as minhas lágrimas de alegria.
Obrigado por ter estado ali em toda essa história linda, triste e intensa que eu e meu marido vivemos com meu Gael. Desejo somente coisas maravilhosas pra você, sua família do fundo do meu coração.
Vida que segue para nós, que somos jovens e ainda temos muito o que aprender, viver.
Obrigado, obrigado e obrigado!
Com amor Duane, Julio e Gael. “

Por mais profissionais humanos.

Ter um atendimento como o meu não pode ser sorte, não pode ser exceção a regra. Tem que ser regra.

Depoimento enviado pela mãe Duane Marina de Carvalho

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