O Renascimento

 

Quando se é mãe, normalmente é compartilhado com outras mães experiências, ansiedades, medos, alegrias e tristezas. Mas quando se é mãe de anjo? Também é importante dividir toda sua história, as dores, as superações, as forças e os sonhos. Por isso que venho aqui dividir um pouco de mim, do Luiz e especialmente do Samuel.

Sou Anelise e sou casada com o Luiz a quase 5 anos, juntos a quase 14 anos e  pais do anjinho Samuel.
Desde a lua de mel sonhava em engravidar, rezava toda vez que esquecia do anticoncepcional para que Deus me enviasse meu maior presente. Mas o Samuca chegou após muita conversa, exames de rotina e muito planejamento.
Tudo perfeito, descobri a gravidez quando estava trabalhando, meu marido retornando de uma viagem, sem desconfiar fui ao seu encontro com um papel, o papel do exame informando a ele que dentro de mim batiam dois corações por ele.
Luiz decidiu que naquele momento iria escrever e descrever cada momento e cada emoção vivenciada, para que um dia ele entendesse o amor e a emoção de sua presença em nossas vidas. Aquele caderninho acompanhou o Luiz em todos os momentos, até um dia antes da noticia, nunca conseguiu dizer um até logo a ele. Na verdade nem eu, pois sou eu que uso esse caderninho para conversar com o Samuca.
Que gravidez ótima, sem nenhum enjoo, fazendo atividade física, cuidando da alimentação e trabalhando muito. Amigas também grávidas sempre dizendo que gostariam que a a gravidez delas também fosse tão tranquilas quanto a minha.
Vivemos cada dia e cada emoção. Fomos realizar um grande sonho, viajamos para Orlando, emocionamos, eu e o Luiz, com a presença do Samuel, com nosso amor e com planos de retornar ali, logo logo com ele. Viagem perfeita. E nada aconteceu. Retornamos bem e realizados.
Cada consulta, cada ultra-som, detalhes que só confirmavam que nada poderia dar errado. Posição do útero, placenta normal, exames sempre bons, até o dia 13 de outubro, prestes a completar 21 semanas. Em uma consulta pré-natal, tudo normal até a ausculta do batimento fetal. Silêncio total, da minha médica e do coração do Samuel. Corrida para realizar um ultra-som para ver como ele estava, mas meu coração já sabia que ele não estava ali comigo. Lembro do desespero do Luiz, da minha família e dos meus amigos. Fui para casa, desligamos do mundo. Eu e o Luiz, no nosso silêncio e com a nossa dor.
Fui dia 14 de outubro para o hospital para indução do parto, iniciamos as 09:00, após 12 horas de indução, 7 oxitocinas intravaginal, 3 peridurais, decidimos parar e retornar no dia seguinte. Deus demonstrando que tudo é na hora dele, entrei em trabalho de parto as 02 da manhã do dia 15. Foi rápido e decidi que não queria ver o Samuel. Pois queria me recordar da imagem dele de amor puro e felicidade, não queria na minha memória apenas o seu corpinho já sem vida. A alma dele é o mais importante, mais do que o corpo.
Os meses se passaram e a necessidade de complementar esse relato foi necessário. Pois achava que precisava dividir as mães não apenas a minha dor, mas meu caminho percorrido.
Assim decidi acrescentar um novo relato, dessa vez não sobre a morte, mas sobre a vida. E não uma vida que um dia vai começar, mas uma vida que já existe e que precisava urgentemente renascer. A MINHA!
Curada? Não! Apenas tratada. Comparo minha situação com a vivência que tenho profissionalmente. Me considero uma paciente que estava grave, respirando por aparelhos, que conseguiu melhorar, saiu da UTI e hoje já está no quarto, mas que ainda precisa de cuidados.
Só dei conta do meu processo de recuperação quando na sessão de terapia meu marido (fazemos terapia juntos) falou que se o Samuca estivesse aqui estaria com um mês de vida. Nossa!!! Que mãe eu sou, não me dei conta disso, como não lembrava e como fui esquecer.
Após isso fui fazer o balanço da minha história e da minha dor. Procurando aonde eu tinha me perdido, na verdade aonde eu havia me encontrado. Assim cheguei à conclusão que em um determinado tempo eu retomei a missão mais importante nesse momento, a de viver novamente.
Não que não dói mais, não que não há frustração, saudade e medo. Sinto ainda tudo isso e mais, convivo diariamente, mas em proporções que consigo controlar e seguir em frente.
Como paciente, ainda tenho uma ferida que está cicatrizando, não sangra mais, mas está lá, presente e que vou levar comigo até o fim.
Chegar aqui não foi nada fácil, como brinco às vezes, foi graças a horas e horas de terapia, desabafos, milhares de lágrimas e de muita paciência. Ah!!! Esse último ingrediente faltoso no mercado tive que contrabandear com ajuda de meu marido e da minha terapeuta.
E foi ela que me fez cutucar bem fundo a ferida, pois pequenos resquícios em uma ferida podem futuramente infeccionar.  A cada sessão sangrava horrores, nem comento o tanto que doía, mas quando terminava era feito um novo curativo e eu sai com a esperança de que um dia iria melhorar.
Mas quando achei que estava cicatrizado eu tropecei e cai. Não foi 1 ou 2 vezes, foram várias vezes e a cada novo tombo a cicatriz sangrava mais um pouco. Com esses tropeços voltava a dor dilacerante, tinham os dias que chorava litros, houveram aqueles que não quis sair da cama e também de não querer ver ninguém.  Mas a cada dificuldade me forçava a levantar, a trancar minha dor e escolher a melhor máscara para sair, até poder chegar na sessão e me despir de tudo que havia guardado.
A recordação do meu último curativo não faz muito tempo, foi quando comecei a contar os dias para o nascimento do Samuel. A cada semana que se aproximava eu vivenciava mentalmente como estaria e o que estaria fazendo naquela etapa da gestação. Uma expectativa interna e irreal.
Ele nunca nasceria e eu nunca terminaria minha gestação, mas eu precisava internamente fechar o ciclo, eu necessitava fazer nascer. Então o dia chegou e assim decidi que quem iria nascer, não, na verdade renascer, seria eu.
Assim estou, recomeçando, com uma cicatriz no meu coração, saudade em minha memória é uma lembrança em minha alma. Hoje, após alguns meses da separação, abracei a saudade e retomei o meu caminho, pois cabe apenas a mim a escolha do que eu quero seguir. A escolha foi a de viver novamente, a de me permitir sonhar novamente e de amar muito.
Com esse relato desejo do fundo do meu coração que vocês, mamães e papais de anjos possam renascer e escolher seus caminhos, o da VIDA!
Não é fácil, mas juntaos poderemos ser mais fortes e amenizar a dor do caminho.

Um enorme beijo da mãe do anjo Samuel

Relato da mãe Anelise Dias

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Um comentário em “O Renascimento

  1. Sei muito bem como é esta dor !!! Passei por ela tambm com 22 semanas de gestação no ano de 2014 não foi nada fácil foi dia após dia e o amor do meu marido e a família foram primordiais . Mas Deus faz tudo em seu tempo , nos recuperamos e papai do céu nos deu a oportunidade de trazer ao mundo nossa amada Maria Cecília que está prestes a fazer um aninho de vida dia 13/9.

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