Arthur, querido sobrinho meu

Em 1998 fui titia pela primeira vez. Na época minha irmã tinha 17 anos e tudo foi novidade para nós. Como morávamos juntas aproveitei ao máximo todos os momentos e estive presente assistindo ao parto. Hoje minha sobrinha e afilhada vai fazer 18 anos e ainda me recordo da primeira vez que a vi. Momento de felicidade sem fim.
Passado tanto tempo, recebi ano passado a notícia de que minha irmã estava grávida novamente. Como não tenho filhos e somos apenas nós duas fiquei muito feliz, confesso que a noticia também veio acompanhada de um certo receio, pois minha irmã não está casada e estava se mudando de cidade. Mas com o passar do tempo a notícia foi sendo melhor aceita por ela e por todos a nossa volta.
Apesar de morarmos em cidades vizinhas, não tínhamos contato diário, nos falávamos diariamente por telefone e mensagens, mas não pude acompanhar nenhuma consulta pré-natal. Ainda assim, vibrei com os vídeos das ultras e o som do coraçãozinho do bebê.
Tudo ok na gestação e iniciamos os preparativos para a chegada de nosso Rei Arthur. O programado era que ele chegasse no meado de agosto.
Como o tempo de Deus não é o nosso tempo, Arthur chegou dia 07 de junho, pesando 1,365 e medindo 41cm. No dia busquei minha irmã na casa dela e a trouxe para a maternidade (que fica próximo a minha casa) porque ela sentia muita cólica. No exame de ultrassom o médico percebeu que ela teve um descolamento da placenta e providenciou uma cesariana de emergência.
Felizmente também pude assistir ao parto e vi meu reizinho vir ao mundo.
Por ser prematuro nosso rei foi direto para a uti neonatal. Ainda assim, seu quadro era estável e já no dia 8 ele estava respirando sozinho.
Recebemos (digo recebemos pois fiquei com minha irmã todo o tempo) alta do hospital dia 9. Como seria preciso ficar indo e vindo do hospital todos os dias, por conta da amamentação, minha irmã veio morar comigo.
Assim, se seguiram os outros dias. Muito disposta e feliz minha irmã foi ao hospital tirar leite todos os dias.
Dia 19 de junho, logo assim que chegou no hospital, minha irmã foi comunicada que nosso reizinho tinha apresentado um quadro de enterocolite necrosante. O quadro dele era grave e rapidamente evoluiu para uma perfuração do intestino.
O mundo desabou ao nosso redor. Vi minha irmã sofrer como nunca.
Inicialmente tentei consolá-la e fui autorizada pela equipe do hospital a entrar com ela na neonatal, pois ela estava muito nervosa.
Foram algumas entradas em saídas da neonatal. Ela não queria se afastar muito, mas não conseguia ficar perto dele por muito tempo. Penso que o sofrimento dele a fazia sofrer mais.
A última vez que vi meu rei com vida perguntei a médica se ele estava respirando apenas por conta dos aparelhos. Com a resposta positiva dela, mudei minhas orações e comecei a pedir a Deus que o permitisse fazer uma passagem tranquila e serena.
Assim, as 18:40 nosso rei fez a passagem.
Quando entramos pela última vez na neonatal a sensação era outra. Já não havia o desespero, a angústia, mas apenas uma sensação de amorosidade e tranquilidade.
Minha irmã pegou ele no colo pela segunda e última vez. O beijou, abraçou, cantou para ele.
Eu fiquei de pé e busquei forças para sustenta-la.
Não queria demonstrar o quanto eu estava triste. Também não queria trazer para perto de nós sentimentos de tristeza.
Assim, voltamos pra casa. Sozinhas. Nós duas.
Dia 20 demos nosso último adeus ao Arthur.
Foi o dia mais difícil de minha vida até o momento. Precisei resolver todas as questões do funeral, além de vesti-lo e aguardar a chegada de todos no velório.
Precisava fazer isso por ele e por ela. Não poderia abandoná-los, por mais que o desejo fosse de não estar ali.
Assim, tenho acompanhado o grupo e as mensagens que mamães de luz tem enviado.
Não sou mãe, mas posso afirmar que essa experiência mudou minha vida. Me fez melhor. E hoje sei que essa foi a missão do rei em minha vida.
Estou me esforçando para que minha irmã supere essa dor e saia fortalecida dessa experiência.
Compartilho com vocês uma das cartas que tenho escrito em meu diário, pois essa tem sido uma válvula importante no meu processo de luto.
Obrigada meninas, saber da história de vocês me encoraja a seguir em frente.

Querido sobrinho,
ja faz um tempinho que você voltou aos braços do pai. Já faz um tempinho que não  trocamos olhares.
Sua mãe ainda está aqui comigo. Meu receio é que ela sozinha não consiga. E não me refiro a te esquecer, porque acho isso impossível e injusto. Me refiro a vida, a abertura pra vida. Tenho certeza que você deseja que ela siga em frente.
Como ela mesma diz, você não foi planejado, mas foi muito amado.
Eu te amei e continuo te amando. Te amei desde o momento que soube da sua chegada. Te amei quando vi você na barriga de sua mãe. Quando ouvi seu coraçãozinho. Te amei mais ainda quando vi você chegar a esse mundo.
Te ouvir chorar foi maravilhoso e você sempre foi tão pequenino.
Te ver sofrendo me fez sofrer também, mas eu continuei te amando. Tentei a todo momento te deixar livre. Afinal você nunca foi nosso, sempre foi de Deus.
Quando a médica me disse que você partiria eu só pensei que deveria ter o ultimo gesto de amor.
Te deixar ir.
Assim você se foi, e eu nem te peguei no colo em vida.
Eu continuei te amando, mesmo sabendo que você não estava mais aqui.
Assim, no dia de nossa despedida, pedi a Deus que nos confortasse e que lhe recebesse de braços abertos.
Arthur, eu fiz o meu melhor.
Eu tentei ser firme e amparar sua mãe e sua irmã, mas só nós dois e Deus sabemos o quanto foi difícil. O quanto eu queria aquecer seu corpinho gelado, o quanto eu queria te ouvir chorar novamente, o quanto queria te levar pra casa.
Não deu meu anjo.
Você já havia partido.
Precisei aceitar a vontade e os planos de Deus.
Mas nós conversamos bastante não foi? Você é bem mais forte que eu, me acalmou antes da chegada de todos, me deu sua leveza para conduzir tudo, iluminou meu caminho para que tudo acontecesse da melhor forma. E assim foi.
Tenho certeza que um dia você volta pra nós. Estaremos mais maduras, mais preparadas, mais espiritualizadas para sua chegada.
Sei que essa foi sua missão.
Nos fazer melhores. Nos mostrar o quanto podemos ser melhores.
Funcionou viu! Eu e sua mãe voltamos aos tempos bons. Estamos mais amigas e mais parceiras. Ela é uma melhor mãe e eu sou uma melhor tia.
Então bebê te espero em breve para o reencontro.

Com saudades.
Da titia Bruna

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