Iniciada a travessia

Já estava com saudades de conversar com vocês e adianto que muita coisa aconteceu desde a minha última publicação. A produção do espetáculo Dessas Interrupções saiu da minha cabeça, da tela do meu computador e começou a ganhar vida. Ele está agora ganhando meu corpo!

Após a aprovação do meu projeto, eu dei início ao processo de pesquisa para o espetáculo. Precisei pesquisar muito, pois eu pouco sabia sobre o assunto, ainda sei pouquíssimo, por isso estou constantemente buscando mais e mais informações. O meu referencial era a minha própria experiência, mas eu quero mais do que isso para o espetáculo. A minha vida diz respeito a mim, a obra que eu produzir diz respeito a uma coletividade. Quando a luz do palco ascender, eu não quero ser apenas a Paola, quero ser as Marias, as Joanas, e as Carolinas... Quero que todas as pessoas que estiverem na plateia e que passaram por uma perda similar se identifiquem e se vejam em mim e através de mim. Aos que não passaram, que possam compreender um pouco mais os conflitos físicos e emocionais pelos quais passamos.

Uma das primeiras coisas que fiz após sair o resultado do edital foi publicar em meu perfil do Facebook uma nota de agradecimento dizendo que meu projeto havia sido aprovado e que eu buscava mulheres que estivessem dispostas a dividir suas histórias comigo. Em respeito a elas a identidade de todas seria mantida em sigilo. Até o presente momento eu não tinha conhecimento do grupo de apoio Do Luto à Luta. Uma ou outra pessoa do meu convívio digital se manifestou, para essas poucas, eu enviei o projeto explicando todos os detalhes e pedindo se a pessoa queria de fato participar. Algumas me retornaram, outras não.

Uma amiga escreveu: “Entra em contato com a Flavia Camargo, acredito que ela poderá te ajudar”. E assim eu fiz. Flavia foi super receptiva comigo, e foi ela quem me indicou o Do Luto à Luta. Enviei no mesmo dia meu projeto para o e-mail do grupo e a resposta veio mais rápida e muito mais empolgante do que eu poderia ter imaginado. Em poucos dias eu já havia conversado por Skype tanto com a Flavia quanto com a Larissa Rocha Lupi, e foi ótimo. Elas me deram um norte! Por terem passado pela experiência e por estarem focadas nessa causa tão nobre tanto tempo, elas conseguiram me dar uma direção, e então o processo começou a se desenrolar.

Comprei livros, assisti documentários, li artigos, e o maior número possíveis de relatos do blog. Sempre tinha comigo um bloco de anotações e as coisas que mais me chamavam a atenção eram anotadas, às vezes era uma frase, ou então um sentimento, e por vezes uma analogia. Os livros, estão todos marcados, com meu pincel marca texto verde limão, e com minhas lágrimas, pois em muitos momentos era impossível contê-las.

Comecei a entrevistar as mulheres que se dispuseram a me ajudar, algumas consegui fazer pessoalmente, olho no olho, outras fiz por Skype, ou por WhatsApp. Achei engraçado o fato de que quando a pessoa realmente tem interesse, quer ajudar – ou ser ajudada, pois eu descobri mais tarde que essa era de fato uma faca de dois gumes – não importa o meio utilizado, a coisa acontece. E confesso que me surpreendi com o número de pessoas que não desejam, não gostam, ou não conseguem falar sobre.

Conforme me inteirava do assunto, percebia como muitas situações se repetiam, inclusive os sentimentos se repetiam. Me identifiquei com muitas histórias, me comovi diversas vezes e sentia uma vontade louca de abraçar cada uma dessas mulheres.

Lembro-me com clareza de algumas passagens que com certeza estarão presentes no espetáculo. Em determinado momento, entrevistando uma mulher de 40 anos, que teve sua primeira filha aos 30, um aborto aos 34 e depois um terceiro filho, surpreendeu-me quando após aproximadamente 2 horas de conversa ela levantou, me deu um abraço e disse: “Muito obrigada”. Eu fiquei meio confusa e disse: “Obrigada você por ter se disposto a colaborar com meu projeto”. Sua resposta foi: “Obrigada por você ter me ouvido… 6 anos se passaram e eu nunca falei sobre isso, nem mesmo com minha família, as pessoas não querem saber, e eu sentia muita necessidade de falar!” Foi nesse momento que eu percebi a importância do que eu estava fazendo, o quanto realmente precisamos quebrar o silêncio, dar voz a nossa dor, fazer com que as pessoas entendam e aceitem o nosso luto.

O convite para ser colunista do blog Do Luta à Luta foi uma surpresa para mim, eu não almejava isso, apenas buscava ajuda para elaboração do meu espetáculo. A ideia de dividir o processo de criação de um trabalho novo, íntimo, e tão desafiador para mim, me deixou extremamente ansiosa. Não sou escritora, não tenho o dom das palavras, escrevo sim de vez em quando, mas porque gosto de registrar alguns momentos da minha vida, e só, nada além disso.

Atualmente eu tenho em mãos uma quantidade enorme de material, e agora darei início ao processo criativo, o desafio maior que é transformar todos esses relatos, todas essas palavras, esses sentimentos, em movimento, em dança. Às vezes me pego pensando no tamanho da responsabilidade que tenho em mãos... O quanto esse projeto já não é mais meu, é do mundo! E quando penso nisso, se torna quase impossível não sentir um frio na barriga!

No nosso próximo encontro vocês conhecerão o meu diretor e já terão acesso ao início do processo coreográfico.

Até lá, Paola Zonta.

Foto: Em visita ao Rio de Janeiro em Julho desse ano tive o prazer de conhecer a idealizadora do grupo de apoio Do Luto à Luta: Apoio à Perda Gestacional e Neonatal Larissa Rocha Lupimomento esse que não poderíamos ter esquecido de registrar.

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