Maternidade

Me encontrei três vezes com a maternidade.

A primeira, um suspiro de luz. Tão logo que me descobri mãe, tão logo me despedi.

Ainda nesse tempo acho que eu tinha um pouco mais a aprender do tanto que ainda tenho hoje.

Foi difícil aceitar, não foi fácil não me culpar. Fiquei por um bom tempo me perguntando: porque comigo?

As respostas só vieram no meu segundo encontro com a maternidade.

Com aquele anjinho, que não tive tempo de dar nome, aprendi que a vida tem caminhos próprios e misteriosos.

Ela cria suas trilhas. Às vezes pára… empoça… depois segue. Mas cada momento é a vida.

E lá na frente… a gente entende que não era barreira e sim matéria pra construir.

Meu segundo encontro com a maternidade foi de encher o peito de tanto amor

que chega a transbordar no leite que amamenta a cria.

Encontro de cheiro, de choro, de achar forças onde já não se tem, quando olha aquele sorriso banguela.

Dessa vez aprendi a aprender a me tornar mãe mês a mês com as mudanças no meu corpo.

E dia após dia, com cada descoberta daquele bebê que se tornou mais dono de mim do que eu mesma.

Aprendi e aprendo com Manuela ainda e todo dia…

Que não é o que se diz a eles que conta. Mas o que você sente… porque eles vibram com a nossa alma…

Que eles viram nossa vida de cabeça pra baixo, mas que sim… a gente sabe plantar bananeiras.

Aprendi sobre nascer, parir, alimentar… e aprendi que sou louca por isso.

Aprendi a me perdoar também, porque ninguém é super mãe todo tempo. E é preciso saber pedir ajuda.

Aprendi que a gente deita aliviado porque o dia terminou, e acorda com saudades porque a criança ainda dorme.

Aprendi que “eu te amo” não cabe nessas palavras… e é por isso que a gente não consegue parar de repetir.

E quando eu já achava que tinha aprendido muito sobre maternidade, me encontrei com ela pela terceira vez.

E meu terceiro encontro me mostrou que aquele muito, ainda era quase nada.

Benício veio sem que a gente ficasse contando sabe. Leve, natural, simples.

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Cheguei a pensar: Nooossa, como foi fácil! Que bom que é coisa fácil assim na vida da gente né.

Encheu nossa casa de um amor misturado com fé na vida.

Abalou um pouco minha estrutura “mãe”. Me fez questionar se eu daria conta de dois e já montar estratégias.

Não há como negar que a maternidade nos afasta um pouco da mulher, mas dessa vez eu me sentia reaproximar.

Dessa vez eu me preparava para o parto natural, eu na verdade sonhava com ele.

E marido se aproximou de mim, me ouviu, e embarcou comigo nesse desejo.

E quando eu estava quase pronta pra ganhar… tive que aprender a perder.

com 27 semanas Benício ganhou asas.

Naqueles dias que se seguiram precisei me deixar abrir ali por onde a vida nasce, e entregar meu menino anjo às estrelas.

Mas naqueles dias, diferente do meu primeiro encontro, não havia ressentimento. Não questionei. Só me entreguei.

Meu pai e familiares estavam lá no hospital, quando Benício chegou. Assim como na chegada de Manu.

Do lado de dentro a mulher que me deu a luz e o homem com quem partilho meus sonhos fizeram a jornada comigo.

Naquelas horas, aprendi a me entregar a dor, era só na entrega que eu cumpriria minha missão.

Aprendi a me despedir na mesma hora de dizer olá.

Olhei pra ele pra nunca mais esquecer, cheirei, beijei, batizei, pedi perdão… Declarei meu amor… e deixei que ele partisse.

Aprendi que a vida e a morte se encontram o tempo todo, e que há sim muita beleza nesse encontro.

Ali aonde se nasce, algo fica para trás e isso não torna menos ou mais… é tudo junto sabe?!

Depois que me despedi continuei aprendendo…

que nem toda dificuldade que eu pudesse ter em ser mãe de dois, seria maior do que ter que ser mãe de dois na ausência de um.

Ah, o vazio… Ah… a ausência…

Tenho aprendido a me recriar nesse lugar.

Meu encontro com o luto na maternidade me fez ver que eu tenho forças para cuidar de um ser que depende de mim 24h…

Mas que se eu não me cuidar… tenho forças pra nada não.

Me fez aprender que é preciso sim, pagar as contas…

mas que meu tempo nesse mundo é caro e precioso e não devo abandonar os meus sonhos nunca.

Me fez fortalecer a certeza de que irmãos são pra sempre e sou abençoada pelos meus.

Me fez reapaixonar pelo homem que trilha a vida ao meu lado. Pela forma dele de me amar com um respeito e admiração tamanha.

Pela superação que ele enfrentou ao se despedir do nosso menino e cumprir a parte que a ele coube nessa jornada.

Não me fez amar mais a Manu, nem dar a ela a missão de me curar a dor.

Mas me fez uma mãe mais leve, mais crente na fluidez da vida e menos cheia de certezas.

O meu terceiro encontro com a maternidade me aproximou de Deus, da fé, e da mulher de 37 anos que sou hoje.

Me sinto plena e em paz.

Meus filhos, amo vocês infinitamente. Sou eternamente grata

Depoimento enviado pela mãe Fernanda Maciel

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