Entrevista do pai Bernardo

Conte um pouco da história da perda gestacional. Como aconteceu?

R: O meu filho Igor nasceu no dia 07/01/2015, e viveu por 4 dias. O seu nascimento ocorreu de maneira prematura devido a complicações na gravidez da minha esposa que foram resultantes de um quadro de síndrome de HELLP. Nesse período a saúde dela também esteve muito precária devido a uma hemorragia que quase resultou em sua morte. Durante esse período eu observei duas pessoas queridas lutando pela vida, uma delas faleceu, mas a minha esposa conseguiu superar as dificuldades e sobreviveu.

Como você chegou até o grupo Do Luto à Luta? Como soube da nossa existência?

R: Foi através da minha esposa que pediu que eu a acompanhasse em uma das reuniões realizadas pelo grupo.

Você acredita que estamos fazendo um trabalho de educação para a morte? De que forma?

R: Sim, observo que esse trabalho de educação para a morte tem sido efetivo. Penso que se deve ao fato do grupo levar aos enlutados e, principalmente a pessoas próximas a eles, reflexões sobre o significado da morte e seu impacto nas relações humanas. A maioria das pessoas somente pensa em morte no momento em que perdem um ente querido, e esse é um dos piores momentos para se refletir sobre o significado de vida e morte. Ao abrir para um público mais amplo reflexões sobre a morte através de encontros, palestras, entrevistas e usando as redes sociais, é possível fazer as pessoas pensarem sobre morte antes que ela aconteça. No entanto, eu observo que é comum que as homens e mulheres pensem que isso nunca vai acontecer com eles. Quando acontece é um choque com a realidade. A maior dificuldade é fazer o ser humano compreender que tem que se preparar para todos os aspectos de sua vida, inclusive a morte. Penso que os brasileiros ainda não se deram conta disso, e no final acabam aprendendo da pior maneira possível.

Qual o seu maior interesse e motivação no nosso projeto?

R: O meu maior interesse é apoiar a minha esposa a participar dos encontros e atividades do Luto à Luta. Eu observo que quando ela participa das atividades ela tem a oportunidade de ajudar e ser ajudada. E sempre que possível eu procuro comparecer às atividades do grupo. Sempre que participei eu percebi que saí sabendo um pouco mais sobre como lidar com a perda neonatal.

De que forma acredita que está beneficiando e sendo beneficiado pelo projeto?

R: O maior benefício que eu observo para a minha vida foi o de consolidar reflexões importantes sobre o meu conceito de vida. A certeza de que estamos numa jornada de luta em direção a um ser humano mais consciente de suas responsabilidades na sociedade. E o aprendizado de que são nos momentos de maior sofrimento e adversidade que o ser humano consegue encontrar dentro de si os tesouros mais preciosos para superar todas as dificuldades. E a maneira que penso poder beneficiar o semelhante é simplesmente contando como foi que transformei um momento de tristeza em um de aprendizado. Na minha concepção de vida o ser humano está na Terra para aprender, e todas as experiências que vivemos devem ser encaradas dessa forma.

De que maneira acredita que a nossa parceria pode contribuir para um maior cuidado com a perda gestacional?

R: Penso que é importante existir um espaço de liberdade para que possa existir um diálogo amplo e saudável. A orientação de profissionais é importante para que isso possa ser realizado. Sendo importante sempre lembrar que cada um deve contar como viveu ou está vivendo a experiência de perda gestacional sem criticar o que o outro viveu. É a própria pessoa que deve identificar na conduta do outro o que poderá beneficiá-lo ou não em seu processo de lidar com a dor da perda.

O que diria aos pais que acabaram de vivenciar a perda gestacional?

R: Os primeiros momentos são muito difíceis, especialmente porque vivemos numa sociedade que esconde debaixo do tapete o tema morte. E quando ela surge a maioria das pessoas está totalmente despreparada. O meu conselho é primeiro identificar em si se existe a capacidade de lidar sozinho com essa perda, e se não for o caso, procurar ajuda. O grupo do Luto à Luta existe justamente para isso. Mas também pode ser necessária uma ajuda realizada mais de perto por um profissional da psicologia. Depois de passada essa fase inicial de dor eu recomendo um estudo detalhado de temas importantes ligados à própria vida interna. O ser humano vive para o externo, mas esquece que existe um mundo interno que deve ser explorado e descoberto. Muitas vezes são nesses momentos de dor aguda que o ser humano identifica dentro de si a importância de realizar um caminho de evolução espiritual.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s