Entrevista pai de anjo – Santiago

Contem um pouco da história da perda gestacional. Como aconteceu?
Já na 40a semana, minha esposa sentiu de madrugada muitas contrações, muito estranhas e diferentes das esperadas/comuns. Percebemos logo que algo estava errado, pois a intensidade e frequência estavam muito alteradas.Com a fundamental ajuda de nossa Doula, fomos ao hospital particular combinado pelo nosso obstetra, já entrando em contato com ele para nos encontrar lá.
Já na chegada sentimos a falta de humanização do hospital, com funcionários aborrecidos conosco, por termos chegado durante a madrugada. Como se uma grávida tivesse obrigação de controlar seu organismo para não atrapalhar o sono dos tais funcionários. Forçaram burocracia de entrada, mesmo vendo que minha esposa estava com muita dor e desconforto, antes mesmo de levarem ela para ser atendida.
Finalmente fomos atendidos e examinados, porém na ultra não se observou atividade de nossa filha. Pelo menos duas médicas viram minha esposa, e a segunda assim que viu a ultra falou que o coração dela não batia mais. Foi chocante, pois dia anterior numa consulta com nosso obstetra, tudo estava ok. Com nossa filha se mexendo normalmente. Uma gravidez exemplar, com 9 meses sem nenhum problema, exames mostrando estar tudo ok, e minha esposa sem nenhum problema de saúde que pudesse levar a gravidez à algum risco…
Nosso obstetra chegou e nos confirmou o fato, da forma mais humana possível, pois além de ser um dos poucos que ainda levam a sério a humanização da gravidez, era primo nosso.
Foi tudo repentino, o tempo parece que parou, a tristeza foi total. Mas não tinha acabado. Tínhamos que decidir naquela hora mesmo como fazer o parto. Decidimos pela cesária devido ao momento… E pela grande dor que minha esposa sentia… Não estávamos raciocinando direito mais…
Na sala de cirurgia, a equipe de nosso obstetra fez o que puderam. Porém novamente fomos importunados, com outro médico entrando na sala, querendo bater algum papo furado, sem saber que o caso não era uma cesária comum, e sim com uma perda gestacional. Quase tomei uma atitude, mas eu não podia estressar mais ainda minha esposa, que além da grande dor, estava numa sala de cirurgia e com nossa filha morta. Nada que planejamos… Queríamos um parto normal… E agora estava tudo acontecendo ao contrário.
Meu objetivo principal era estar do lado dela, dando o máximo de apoio possível. Me segurei muito para não levantar a voz para aquele médico, impressionado com a falta de preparo do hospital em identificar a sala como ‘perda gestacional’, ou algo parecido. Para que todos que entrarem estivessem cientes que o comportamento devia ser de acordo. Humanamente diferenciado.
Graças a doula, pudemos não só segurar nosso bebê, mas ter ela vestida pelo menos antes de ser levada ao necrotério.
Já no leito que vagaram para nós após a cirurgia, enfermeiras entraram e já iniciaram o protocolo de rotina, sem nem saber que tínhamos perdido nossa filha. Ajeitaram minha esposa, com troca de bandagens, porém batendo um papo qualquer e alto…
Não recebemos visita de nenhum psicólogo para acompanhamento.
A saleta onde ficamos não era afastada do centro do hospital, portanto tivemos que “tentar dormir” ouvindo choros de bebês… Exaustos, não pudemos descansar em nenhum momento.
Estávamos arrasados com tudo. Finalmente nossa família foi sabendo e chegando aos poucos. O apoio deles, mais o do obstetra e doula foram fundamentais.
Por fim, me obriguei a me afastar de minha esposa para resolver a papelada para o funeral da minha filha. Como se não era complicações o suficiente para um ser humano passar, tive que pagar impostos para isso.
Hoje faz um pouco mais de um ano que tudo isso aconteceu.
Como você chegou até o grupo Do Luto à Luta? Como soube da nossa existência?
Por conhecidos, amiga da minha esposa que é psicóloga. Soubemos do grupo, e participamos quando possível.
Você acredita que estamos fazendo um trabalho de educação para a morte? De que forma?
 O trabalho está sendo essencial. Há muito pouco preparo das pessoas sobre tal assunto, que atinge tantas pessoas/famílias.
Qual o seu maior interesse e motivação no nosso projeto?
 Esperança minha é de saber que após qualquer atividade do grupo, mais e mais pessoas estarão cientes que é extremamente necessário uma mudança de atitude, tanto dos profissionais de saúde quanto das pessoas leigas. Que uma mudança de pensamento e postura são importantes frente a uma família com o psicológico abalado.
De que forma acredita que está beneficiando e sendo beneficiado pelo projeto?
 Já na 1a reunião, percebemos que muitas pessoas passam pela mesma dor. Vimos que não estávamos sozinhos. Que podíamos conversar sobre o assunto, como se não fosse tabu. E pudemos aprender sobre as várias possibilidades que levam a perda gestacional e o quanto falta para as famílias terem o mínimo de apoio nesses casos.
Foi muito importante para conseguirmos dar um passo de cada vez, continuar a viver. Que terapia por si só não é o bastante. É necessário conversas e troca sobre o assunto.
De que maneira acredita que a nossa parceria pode contribuir para um maior cuidado com a perda gestacional?
 Mais palestras, formulação de projetos para reformas da rotina hospitalar, material didático popular… Mais centros do grupo para abranger as famílias de toda a região. Da necessidade do apoio do governo para o sustento do grupo e suas atividades.
 O que diria aos pais que acabaram de vivenciar a perda gestacional?
O que fazem normalmente é comparar a dor da mãe com a do pai. Porém a dor é uma só. É comum darem atenção para a dor da mãe e esquecer completamente a do pai. Que é duro não perguntarem ao pai como se sente. Que o homem, por não ter o lado fisiológico atingido, é tratado como se seu o lado emocional também não o fosse.
Se permita sentir. Se permita chorar. Se permita chorar em frente a sua parceira. não resolve, mas alivia o momento. saiba que não está sozinho nessa.
Além de ser um enorme aprendizado da vida, a qual nos ensina que há muitas coisas que não podemos controlar, a perda gestacional é uma prova dura de relacionamento. Conviver com a dor do parceiro pode levar a testes de paciência e compreensão. Cada um sente de uma maneira. Cada um demonstra de uma maneira. Portanto deve-se respeitar a opinião de cada um, e ser o mais parceiro possível. Porque será uma dor que ambos levarão para sempre em seus corações, e a parceria é fundamental para aguentar os dias que virão.
Tenha compreensão. Tenha diálogo. E saiba que muitas vezes, um só abraço bem apertado, num dos momentos mais difíceis que é quando estão sós numa casa em pleno silêncio, dará conta do recado.
Por fim, tenha esperança. É um recomeço. Você não está só.
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2 comentários em “Entrevista pai de anjo – Santiago

  1. Boa tarde. Lendo seu relato fica claro, mais uma vez que a maioria das clínicas e hospitais que recebem casos de perda gestacional/ neonatal não estão preparadas para isso. É diferente saber um pouco sobre o lado do pai que passou por isso, a sociedade está acostumada a ver somente a mãe. Você disse muito bem que por não ter o fisiológico abalado, é como se o emocional não estivesse.
    Devemos lutar por nossos direitos, de um atendimento respeitoso em um momento tão difícil como esse. Obrigada por dividir conosco um pouco da sua história.
    Você não está sozinho.

    Psicóloga Regiane Cunha Vilela da Rocha- Equipe Do Luto à Luta
    CRP 06/113613

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  2. Nosso caso foi parecido, perdemos nossa bebezinha com 39 semanas, sem causa aparente. vocês descobriram a causa?
    Uma chuva de perguntas e lágrimas recai sobre nossa família nesse momento!
    Que Deus conforte o coração de vocês

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