Relato pai de anjo – Eduardo

Na noite do dia 27/09/2014 recebi a pior notícia da minha vida. O coração do meu filho Rafael, ainda da barriga da mãe, havia parado de bater. E todo aquele futuro, que eu e minha esposa havíamos vislumbrado quando decidimos nos tornar pais, simplesmente desapareceu. Seu mundo desaba, você não pensa e não se importa com mais nada. Você simplesmente quer fechar os olhos e nunca mais abrir. Ao ver minha esposa, ainda na mesa de exame, chorando muito e chamando pelo nosso filho, minha reação foi abraça-la e tentar conforta-la. Não consegui chorar, minha atenção voltou-se toda para ela, e por pior que seja a dor e o momento que estávamos passando havia um protocolo a ser seguido: ligar para a obstetra, decidir pela forma de parto, exames para descobrir a causa do óbito, cartório e serviço funerário. Horas depois de receber a notícia do óbito, quando minha esposa já havia voltado da cesárea e estava dormindo, eu deitei naquele sofá destinado ao acompanhante, “a ficha caiu” e chorei a perda do meu filho. Felizmente, nosso atendimento médico foi muito atencioso, com exceção de uma funcionária desavisada que entrou no quarto perguntando se o bebê já havia mamado. Foi nos dado a opção do parto vaginal ou cesáreo e se minha esposa queria estar acordada, e se eu queria estar presente. Minha esposa optou pela cesárea e por ficar desacordada, e eu decidi não entrar na sala de parto. Se pudesse voltar no tempo, estas escolhas seriam diferentes. No entanto, consegui conhecer meu filho e me despedir dele no enterro, o que foi muito importante dentro do processo de elaboração do luto.
Depois de todo esse sofrimento agudo, passei a viver um dia de cada vez. Tentando assimilar e achar um significado para isso tudo. Contudo, meu foco continuou no bem estar da minha esposa. Todo o meu esforço foi direcionado para ajuda-la a superar a perda, ser o porto seguro no qual ela pudesse se apoiar, ser aquela pessoa com quem ela pudesse desabafar tudo o que estava sentindo e chorar a perda de nosso filho. Alguns meses depois, minha esposa descobriu que o irmão dela ia ser pai, e naquele momento ela não conseguiu ficar feliz com a notícia. Foi então que ela percebeu que precisava de mais ajuda e decidiu procurar um psicólogo especializado em luto. Nesse interim, ela conheceu o grupo Do Luta à Luta pelo facebook e começou a acompanhar e ler as mensagens e histórias de casais que haviam passado pelo mesmo sofrimento. Eu permaneci nos “bastidores”, sempre dando o maior apoio, lendo com ela todas as histórias e mensagens e sempre disponível para conversar e ouvir (assumo, mais para ouvir!). Ela decidiu sair do mundo virtual e ir a um encontro presencial promovido todo mês pelo grupo. Ela pediu para eu ir junto e sem pestanejar aceitei. Conhecemos este lindo trabalho promovido pelo grupo, as pessoas maravilhosas que o compõe e nos sentimos muito acolhidos. E isso foi extremamente importante para minha esposa, que hoje faz parte da equipe e está engajada em ajudar outras pessoas que passam por esta terrível perda.
E eu nisso tudo? Meus sentimentos, meu sofrimento? Nunca existiram? Ficaram guardados? Como disse anteriormente, fiz o papel da fortaleza, do porto seguro, coloquei o sofrimento da minha esposa na frente do meu. Contudo, quando olho para trás, percebo o quanto minha esposa foi forte (mesmo sem ela perceber), e como isso me ajudou. Eu não fui a fortaleza ou o porto seguro, eu não fui mais forte que ela, fomos fortes juntos! Ao mesmo tempo em que eu a ajudava, ela também estava, de certa forma, me ajudando. Em um evento promovido pelo grupo Do Luto a Luta, uma psicóloga disse que é comum o homem “se tratar” por meio de sua companheira. No meu caso, acredito que foi exatamente isso que aconteceu. Consegui extravasar meus sentimentos por meio da minha esposa. Todas as nossas conversas que temos depois de cada consulta dela, todos os textos que lemos e discutimos, as reuniões do grupo que frequentamos, tudo isso, que eu fazia sempre pensando no bem estar da minha esposa, também estava fazendo bem para mim. Descobri que o simples fato de ouvir minha esposa, ler os textos e mensagens na internet e ouvir as pessoas na reunião do grupo me ajudaram e ainda me ajudam muito a superar isso tudo.
E o significado disso tudo? Existe algum sentido em perder um filho? Hoje, depois de quase dois anos, eu consigo perceber o quanto a passagem do Rafael nas nossas vidas, mesmo que breve, foi transformadora. Como casal, ficamos mais unidos do que nunca. Individualmente, minha visão e meus valores frente à vida mudaram completamente. Hoje, posso afirmar que me tornei uma pessoa melhor e isso graças ao meu filho Rafael. Te amo filho, obrigado por tudo!

“Meu filho, que sempre fora motivo de felicidade,
não podia deixar de sê-lo porque havia morrido”.
Flávia Camargo.

Relato do pai Eduardo ao filho Rafael

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