Entrevista pai de anjo – Rodrigo Castanheira

1)Contem um pouco da história das perdas gestacionais de vocês. Como aconteceram as perdas?
Elaine teve três perdas. Quando cheguei na vida dela, havia 4 anos desde a sua 1ª perda. Sabíamos que ela teria problemas para engravidar, mas, em 2011, fomos surpreendidos com a vinda do David, nosso primeiro filho. Um “milagre” no nosso ponto de vista àquela época. Davi vinha bem, se desenvolvendo perfeitamente. Levávamos uma gravidez normal, por orientação médica. Fazíamos nossas ultras com outro médico, nada menos que o Presidente do Conselho de Ginecologia e Obstetrícia do Rio de Janeiro. No dia da ultra morfológica, ele nos alertou que Davi estava forçando o colo do útero e Elaine deveria ir imediatamente pra casa e se comunicar urgentemente com o nosso Médico. Não conseguimos de jeito maneira. No final da noite, Elaine começou a sentir pontadas na barriga que a incomodavam. Achávamos que era sintomático, por causa do alerta do médico. Quem dera!
Durante a madrugada as dores se intensificaram e se mostraram como contrações. Não havíamos chegado nem no sexto mês. Davi queria nascer. Depois as dores aumentaram e nos forçaram a procurar ajuda. Após descer os 75 degraus de nossa vila, a bolsa estourou no banco do carro. Nos desesperamos. O primeiro hospital não quis nos receber e corremos para um segundo, que era bem mais longe. Fomos atendidos de pronto, mas só havia enfermarias disponíveis. Sofremos violência obstétrica. O médico foi super indiferente com a situação e uma outra médica, responsável por fazer o corpo de nosso filho vir nascer, chegou a ameaçar a minha esposa, por estar gritando de dor.
Já em 2014, outra notícia inesperada. Dessa vez, chamar-se-ia Bento, nome escolhido por ela. Apreensivos com o ocorrido com Davi, procuramos logo ajuda e descobrimos que Elaine deveria fazer um tratamento para trombofilia. Um injeção que custava em média 100,00 todos os dias. Quase enlouquecemos. Processo no SUS para liberação e nada. Aí que surgiram amigos, amigos dos amigos e conseguimos dar seguimento no tratamento. Faltava a cerclagem. Marcada na 16ª semana e feita de uma forma no mínimo duvidosa, seguimos nossa peregrinação. Dias depois, Elaine voltou ao consultório da Médica dela e ouviu, sem rodeios, que não poderia mais atendê-la por não ser mais rentável para ela. Enfim, seguimos com Deus até que, mais uma vez, entre o quinto e o sexto mês, mesmo com todas as precauções, Bento resolveu nascer. Já morando no sítio dos meus sogros em Magé (Elaine precisava de repouso absoluto e eles fizeram tudo por nós), achamos melhor correr para Teresópolis, por ser mais perto (menos trânsito) do que o Rio. Da mesma maneira como com o Davi, chegamos apreensivos com um filme passando na cabeça. Mais uma vez, estávamos perdendo nosso filho.
O que nos restou? Resignação e muito aprendizado.
 2)Como vocês chegaram até o grupo Do Luto à Luta? Como souberam da nossa existência?
Uma amiga que sabia da história da Nany, contou que viu uma publicação do grupo e indicou-o a ela. Ela entrou, se identificou e logo depois se interessou em participar de um encontro presencial. Foi quando eu fui intimado e agora quero sempre ir a tds!
 3)Vocês acreditam que estamos fazendo um trabalho de educação para a morte? De que forma?
Sim! Quando nos sentimos à vontade para falarmos de nossas perdas. Quando nos sentimos bem recebidos no meio do grupo e todos parecem falar a mesma língua.
 4)Qual o seu maior interesse e motivação no nosso projeto?
Poder ajudar quem passou ou está passando por um perda gestacional ou neonatal.
 5)De que forma acredita que está beneficiando e sendo beneficiada pelo projeto?
Beneficiando é falando da minha perda e mostrando que todos somos mortais. Que isso acontece com qualquer um e como devemos encará-la.
Sendo beneficiado é podendo compartilhar a dor, é sendo ouvido, sendo acarinhado, entre outras coisas.
 6)De que maneira acredita que a nossa parceria pode contribuir para um maior cuidado com a perda gestacional?
As ações que o grupo tem tomado já são uma resposta para esta pergunta. O quanto ele já avançou em termos de leis, instruções e palestras. Dividindo com a classe médica as nossas dores e nossos anseios.
 7)O que diria aos pais e familiares que acabaram de vivenciar a perda gestacional?
Que eu sei o que eles estão passando. Que essa dor absurda que não cabe no peito passa e, ao tempo de Deus, ficará somente a saudade. Que o choro de dor, se transformará no choro da saudade ao lembrar dos poucos ou muitos momentos vividos com seus filhos. Diria também que, estejam onde estiverem, seus filhos nunca esquecerão deles e que eles gostariam de ser lembrados com amor.
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