Os rituais de despedida da perda gestacional e neonatal

            O ritual é definido como um poderoso ato simbólico que confere significado a certos eventos da vida ou experiências. São veículos poderosos que proveem estrutura e oportunidade para conter e expressar emoções. Permitem que a comunidade testemunhe e interprete um acontecimento. Os rituais são um direito, frequentemente, negado aos enlutados por perda não reconhecida (Doka, 2002 apud Casellato, 2015).

            Quando a morte ainda era domada (vista como natural; parte da vida) os rituais eram bem vindos e faziam parte do processo de elaboração do luto. Hoje em dia nossa sociedade tem uma urgência com relação aos funerais, talvez uma tentativa de evitar o confronto com a dor da perda. Uma sociedade capitalista, sem tempo improdutivo a perder, totalmente amedrontada pela morte, culminando em pouco ou nenhum ritual.

             Na perda gestacional e neonatal muitos acreditam que não há motivo para luto, como se isso pudesse ser medido pelo tempo de convivência com o filho, desconsiderando as fantasias e vínculos estabelecidos. Não é de se espantar que não haja espaço para rituais de despedida. Quando o bebê tem um tamanho e peso considerados suficientes para que seja enterrado, geralmente, o pai soluciona as questões burocráticas do serviço, e, por ainda estarem hospitalizadas, as mães não podem participar dos rituais. Isto pode auxiliar numa complicação da elaboração do luto, afinal não houve tempo e momento para se despedir, concretizar a perda, chorar sua dor, ser amparado e poder falar sobre o filho, os sonhos e o desespero em não tê-lo mais por perto.

            Poder dar um nome a este luto é muito importante na elaboração da perda, colocando o enlutado em um lugar central, de protagonismo e validação (Casellato, 2015).

            Mesmo após o enterro diversos rituais podem ser feitos, se assim o pai e mãe se sentirem à vontade. Eles encontrarão uma forma que tenha sentido e significado para eles, pois o processo de luto é muito singular, mas entre as mais comuns formas de ritualizar a perda de um bebê temos: soltar balões; colocar fotos em um porta retrato; plantar uma árvore ou ainda uma fazer uma caixa de lembranças, com roupinha, sapato, fotos, fitas e cartas/bilhetes para o filho que se foi. Mais importante do que O QUE fazer é COMO fazer,  sendo fundamental ser algo que tenha sentido para quem passou pela experiência da perda.

Érica Quintans

Psicóloga Clínica, membro da equipe do Do Luto a Luta e Mestranda (PUC-Rio)

Email: ericatq.psi@gmail.com

Página no Facebook: http://www.facebook.com/psicologaericaquintans/

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